Um exame de sangue ainda em fase inicial de pesquisa pode representar um avanço importante no diagnóstico precoce do câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e silenciosos da atualidade. Atualmente, cientistas internacionais desenvolveram um painel com quatro biomarcadores que conseguem identificar a doença em estágios iniciais. Nesse momento da evolução do tumor, as chances de tratamento costumam ser significativamente maiores.
No Brasil, o câncer de pâncreas continua sendo um dos maiores desafios da oncologia. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a taxa de sobrevida em cinco anos para pacientes com a doença gira em torno de 10%. Esse cenário ocorre principalmente porque muitos casos ainda são diagnosticados em fases avançadas.
Segundo a oncologista, Pamela Almeida, a ausência de sintomas evidentes nas fases iniciais dificulta o diagnóstico precoce. “O câncer de pâncreas costuma evoluir de forma silenciosa. Por isso, quando conseguimos identificar a doença cedo, ampliamos de forma significativa as possibilidades de tratamento curativo”, afirma.
Detecção precoce
O novo teste reúne quatro marcadores sanguíneos que atuam de forma complementar. Entre eles estão dois já conhecidos, o CA19-9 e a trombospondina 2 (THBS2). Além disso, os pesquisadores identificaram recentemente outros dois marcadores, chamados ANPEP e PIGR. Quando analisados em conjunto, esses biomarcadores demonstraram alta capacidade de diferenciar pacientes com câncer de pâncreas de pessoas saudáveis ou com doenças benignas.
Nos resultados iniciais, o painel alcançou cerca de 91,9% de acerto na identificação geral da doença. Além disso, apresentou aproximadamente 87,5% de precisão nos casos em estágio inicial e manteve baixa taxa de falsos positivos. Dessa forma, os resultados chamam a atenção da comunidade científica, especialmente diante da ausência de métodos eficazes de rastreamento populacional para esse tipo de câncer.
Limitações atuais
Embora marcadores tradicionais, como o CA19-9, já façam parte da prática clínica, eles ainda apresentam limitações importantes. Em alguns casos, esses marcadores podem aparecer elevados mesmo em condições benignas. Além disso, nem todos os pacientes produzem esse marcador, o que reduz sua confiabilidade quando utilizado isoladamente.
De acordo com Pamela Almeida, a combinação de diferentes biomarcadores representa um avanço importante no campo do diagnóstico. “Nenhum marcador isolado oferece segurança suficiente para rastreamento. Portanto, a associação entre eles aumenta a precisão e pode ajudar a identificar tumores em fases mais iniciais”, explica.
Impacto clínico
Outro fator que dificulta o diagnóstico precoce do câncer de pâncreas está relacionado à ausência de sintomas específicos nas fases iniciais. Em muitos casos, os sinais surgem apenas quando a doença já se encontra mais avançada. Entre os sintomas mais comuns estão perda de peso involuntária, dor abdominal persistente e icterícia, caracterizada pelo amarelamento da pele e dos olhos.
Segundo dados do INCA, embora o câncer de pâncreas não esteja entre os tipos mais frequentes no país, ele apresenta alta taxa de letalidade. Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo, obesidade, histórico familiar da doença e condições inflamatórias crônicas, como a pancreatite. Dessa maneira, a identificação desses fatores pode ajudar no acompanhamento de pessoas com maior risco.
Olhar para o futuro
Apesar dos resultados promissores, o exame ainda está em fase de validação e não integra a prática clínica de forma rotineira. Ainda assim, pesquisadores esperam que novos estudos, com maior número de pacientes, confirmem a eficácia do método nos próximos anos.
Além dos avanços no diagnóstico, novas terapias também vêm sendo estudadas. Recentemente, dados de fase III indicaram que um novo fármaco experimental, chamado Daraxonrasibe, pode dobrar as chances de sobrevida em pacientes que já passaram pela primeira linha de tratamento. Esse medicamento atua bloqueando a via RAS, mutação presente em cerca de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Por fim, Pamela Almeida destaca que, enquanto novas tecnologias não se tornam amplamente disponíveis, o acompanhamento cuidadoso de grupos de risco continua sendo essencial. “Ainda não temos rastreamento populacional. No entanto, podemos avançar muito com acompanhamento direcionado e diagnóstico mais atento”, conclui.
Créditos Autor: Isabela
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