Dandara Ferreira declara que o documentário quer provocar reflexão, não dizer em quem votar; “Anatomia do Caos” retrata gestão de Bolsonaro na pandemia

Depois de estrear como diretora com a ficção “Meu Nome é Gal” (2023) –cinebiografia da cantora Gal Costa–, Dandara Ferreira lança nesta 5ª feira (2.jul.2026) o documentário “Anatomia do Caos”. O filme retrata o governo Jair Bolsonaro (PL) durante a pandemia, com imagens inéditas dos bastidores da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19, aberta pelo Senado em abril de 2021.

Dandara conta ao Poder360 que, no início da pandemia, sentia “medo, angústia e indignação como milhões de brasileiros””. Ela decidiu, então, ir a Brasília sozinha “com uma câmera na mão e sem saber que filme seria esse”. Acompanhou todo o trabalho da comissão até a entrega do relatório final, em outubro de 2021. Porém, a cineasta diz que o filme tem muitas perguntas que até hoje ainda não foram respondidas.

Eu não conheço nenhum desrespeito mais grave à vida do que os deboches do [então] presidente das pessoas que estavam sem ar. Banalização do mal. Justiça é o que estamos precisando para lavar a alma e seguir em frente. Acho que o povo merece essa reparação”, declara.

O filme chega aos cinemas 3 meses antes do 1º turno das eleições presidenciais, que será em 4 de outubro. Segundo Dandara, a obra só ficou pronta agora em 2026 –passados mais de 6 anos desde o 1º caso de covid-19 no país.

Apesar da proximidade com o pleito, ela acha que o papel do documentário é provocar reflexão, não dizer às pessoas em quem votar. “Se o filme contribuir para que o público pense com mais profundidade sobre democracia, responsabilidade pública, memória e gestão de crises, então ele já terá cumprido uma função importante”, afirma.

Abaixo, leia a íntegra da entrevista:

Poder360 – A CPI da Covid foi criada em abril de 2021, mais de 1 ano depois do início da pandemia. Quando foi que você decidiu filmar os bastidores da comissão?
Dandara Ferreira – A decisão de filmar veio antes da CPI. Ela nasceu da indignação. Eu estava acompanhando o avanço da pandemia, o crescimento do número de mortes e a sensação de abandono que tomava conta do país. Como cineasta, minha forma de reagir ao mundo é através da câmera. Quando a CPI começou, percebi que algo muito importante estava acontecendo. Pela 1ª vez, o país parecia olhar para si mesmo e perguntar: como chegamos até aqui? Fui a Brasília sozinha com uma câmera na mão e sem saber que filme seria esse. A história estava sendo construída ao mesmo tempo que filmava. Eu filmava sem ter todas as respostas, movida pela sensação de que estávamos vivendo um dos capítulos mais decisivos da história brasileira recente.

Quais foram os desafios de fazer um filme sobre a pandemia durante a pandemia?
O principal desafio foi lidar com a ausência de distância histórica. Normalmente, quando fazemos um documentário, olhamos para acontecimentos já encerrados. No caso de “Anatomia do Caos”, a realidade mudava todos os dias. Novas mortes, novas informações, novas contradições. Havia também uma dimensão emocional muito forte. Eu não era uma observadora neutra. Eu também estava vivendo aquela experiência, sentindo medo, angústia e indignação como milhões de brasileiros. O desafio foi transformar essa urgência em cinema, sem perder a complexidade dos fatos nem a humanidade das pessoas envolvidas. Filmar durante a pandemia era, de certa forma, tentar compreender um terremoto enquanto ele ainda acontecia. E acho que para mim mesma também, que era uma pessoa da sociedade civil, que estava vivenciando toda aquela angústia também.

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Cena do filme “Anatomia do Caos” mostra Simone Tebet (PSB), Renan Calheiros (MDB-AL), Randolfe Rodrigues (PT-AP), Omar Aziz (PSD-AM) e Alessandro Vieira (MDB-SE) nos bastidores da CPI da Covid

O documentário mistura depoimentos inéditos com falas marcantes de políticos, incluindo quando o então presidente Jair Bolsonaro diz que não é coveiro. Você também usa imagens da TV Senado e de vários veículos de comunicação. Como você acha que será para o público rever –e, agora, ver no cinema– esse período traumático da nossa história?
Acho que será uma experiência emocionalmente intensa. Durante a pandemia, nós vivemos os acontecimentos de forma fragmentada: uma notícia aqui, um pronunciamento ali, um número que aumentava diariamente na televisão. O cinema permite algo diferente. Ele organiza essa experiência e oferece uma perspectiva sobre ela. Muitas pessoas vão reconhecer frases, imagens e acontecimentos que marcaram aquele período, mas agora inseridos dentro de uma narrativa maior. Existe dor nesse reencontro, sem dúvida. Mas acredito que também existe uma possibilidade de elaboração. Uma sociedade precisa ser capaz de olhar para seus traumas para compreender o que aconteceu e seguir adiante. O esquecimento nunca foi uma forma saudável de cura.

No mês passado, o presidente Lula sancionou o PL que institui o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. No evento, ele cobrou a responsabilização pública dos envolvidos na gestão da crise sanitária. O seu filme também seria uma espécie de cobrança?
Acho que, de uma certa forma, sim. Quando um filme recupera fatos, documentos e testemunhos, ele inevitavelmente nos obriga a confrontar perguntas sobre responsabilidade. Não apenas sobre quem tomou decisões, mas sobre que tipo de sociedade queremos construir depois de uma tragédia dessa dimensão. No filme tem muitas perguntas que até hoje ainda não foram respondidas. Eu não conheço nenhum desrespeito mais grave à vida do que os deboches do presidente das pessoas que estavam sem ar. Banalização do mal. Justiça é o que estamos precisando para lavar a alma e seguir em frente. Acho que o povo merece essa reparação.

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Mais de 700 mil pessoas morreram de covid-19 no Brasil; na imagem, cena do documentário “Anatomia do Caos”, que retrata a gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia

Assim como “O Processo”, da Maria Augusta Ramos, e os filmes da Petra Costa, o “Anatomia do Caos” é um documentário que retrata uma história muito recente do Brasil. Na ficção, por exemplo, temos “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” abordando o período da ditadura militar. Como você vê a relação do cinema com a política? Acha que o interesse das pessoas por esse tipo de filme cresceu?
Todo cinema, de certa forma, é político, mesmo quando não fala diretamente de governos ou eleições. Um filme é sempre uma forma de olhar para o mundo, de escolher o que mostrar e o que deixar fora do quadro. Em momentos de crise, essa dimensão fica mais evidente. Acho que existe um interesse crescente por filmes que tentam compreender o Brasil porque estamos vivendo um período de transformações muito profundas. As pessoas buscam narrativas que ajudem a organizar a experiência coletiva. Ao mesmo tempo, o cinema não oferece respostas simples, mas cria espaços para reflexão. Talvez seja isso que explique a força de documentários recentes e também de ficções que revisitam períodos traumáticos da nossa história. Existe uma necessidade da sociedade de compreender o passado para entender o presente.

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O filme “Anatomia do Caos” mostra depoimentos de pessoas que perderam familiares durante a pandemia, como foi o caso de Márcio Antônio Silva, que falou na comissão sobre a morte de seu filho

O filme será lançado 3 meses antes do 1º turno das eleições presidenciais. Essa data de lançamento foi planejada? Pode exercer algum tipo de influência nas pessoas?
Esse filme era para ter sido lançado no ano passado, mas não ficou pronto. E acabou casando de ser no ano de eleição. Tivemos cuidado de lançar no 2º semestre, já no período eleitoral. Costumo dizer que os filmes sabem o seu momento de ser lançado. Às vezes, a gente luta, mas eles “nascem” no seu momento. Não acho que o papel do documentário seja dizer às pessoas em quem votar. O papel do documentário é oferecer elementos para reflexão. Se o filme contribuir para que o público pense com mais profundidade sobre democracia, responsabilidade pública, memória e gestão de crises, então ele já terá cumprido uma função importante.

Qual é a importância desse filme estrear nos cinemas antes de entrar em uma plataforma de streaming?
A pandemia foi vivida de forma profundamente solitária. Muitas pessoas enfrentaram o medo, o luto e o isolamento dentro de suas casas. O cinema oferece a possibilidade oposta: reunir desconhecidos numa mesma sala para compartilhar uma experiência e uma memória comum. Existe algo muito poderoso em assistir a esse filme cercado por outras pessoas, ouvir as reações, sentir os silêncios, perceber que aquela história não pertence apenas a você. Ela pertence ao país. Antes de ser conteúdo, esse filme é uma experiência de memória coletiva. E não existe lugar melhor para isso do que uma sala de cinema.


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Créditos Autor: Poder360 ·
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