O Estado de São Paulo já teve mais resgates de trabalhadores sujeitos a trabalho análogo à escravidão no campo nos seis primeiros meses do ano do que em todo o ano de 2025. É o que revelam dados do relatório de Conflitos no Campo, com dados parciais de 2026, divulgado nesta quarta-feira (2), pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O número nacional total de resgatados de condições degradantes de trabalho, por outro lado, diminuiu.
Ao todo, 148 trabalhadores foram resgatados no primeiro semestre deste ano em São Paulo. A marca já é superior aos 142 de 2025. A maior parte desses profissionais trabalhava no plantio e corte de cana-de-açúcar.
Para a coordenadora do CPT, Cecília Gomes, o aumento de casos pode ser visto pela característica do tipo de trabalho nos campos, incluindo lavoureiros e operários de construções. Entretanto, Gomes também avalia que o aumento da tecnologia pode influenciar nessa conta.
“Aquela história de que levar a tecnologia para o campo vai diminuir a mão de obra e o trabalho escravo, essa hipótese cai por terra. Porque, quando a gente olha, quanto mais tecnológico é o ambiente, maior a probabilidade ou a possibilidade de ter trabalho escravo. Essa é uma característica que tanto está no Sul, no Sudeste, no Centro-Oeste, está em todas as regiões brasileiras”, afirma a coordenadora.
No país, 355 trabalhadores foram resgatados em 30 casos registrados entre janeiro e junho. Em 2025, essa marca foi de 842 pessoas. Mesmo com as subnotificações das denúncias, Gomes afirma que o trabalho da CPT em conjunto com o Ministério do Trabalho mostra que existe uma necessidade de um olhar mais atento nas áreas mais tecnológicas.
A CPT também identificou que os casos mais graves de violência são praticados, em sua maioria, por fazendeiros (305 casos) e empresários (102 casos), que respondem por dois terços dos assassinatos e 61,4% dos episódios de violência contra ocupação e posse no primeiro semestre de 2026.
Para Gomes, a crescente violência no campo é possibilitada pela impunidade dos agentes causadores. “Pouco desses casos são apurados e os poucos que são apurados são pouco punidos”, explica a coordenadora da CPT.
Cresce a contaminação violenta de cidadãos
Violência mais praticada no campo em 2026, a contaminação por minérios atingiu 195 ocorrências. Para a CPT, o cenário é possível devido à priorização do “lucro em detrimento à vida” e da falta de fiscalizações mais rígidas de mineradoras.
Também houve 169 casos de contaminação por agrotóxicos, o que passa longe de ser por acaso, já que a organização vem identificando o uso intencional dessas substâncias como um tipo prático de arma química. “Não é só a contaminação das águas, esse agrotóxico é colocado para atingir os povos, para atingir as comunidades, como uma forma de expulsão”, denuncia Gomes.
E a contaminação por agrotóxico é venenosa porque as pessoas não conseguem produzir nem reproduzir o seu jeito, o seu modo de ser. Eles [a comunidade camponesa] têm uma cultura do plantio, da colheita, da alimentação e da diversidade. Mas não vão conseguir ter essa diversidade na produção, porque, como a água está contaminada, vai queimar as lavouras, vai danificar as lavouras”
Cecília Gomes
Coordenadora da CPT
Em 2025, o Brasil bateu recorde de agrotóxicos liberados. Foram 750 registros concedidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).


