Grupo de 16 cientistas coleta espécies da fauna e flora em platô isolado da Serra do Aracá, no Amazonas
Sentada sobre o chão de uma das áreas de floresta no topo de um platô da Serra do Aracá (AM), a entomologista Gabriela Procópio Camacho maneja um canivete para abrir frestas em um tronco de árvore caído. No interior da madeira em decomposição, uma colônia de cupins agita-se sob a luz que passa pela copa das árvores.
Concentrada, a pesquisadora posiciona a ponta de uma mangueira de borracha em um dos buracos abertos no toco de madeira. Ao sugar pela outra ponta do tubo, os insetos são aspirados e ficam retidos em uma pequena antecâmara plástica, vedada com uma fina rede interna. O mecanismo evita que a pesquisadora engula os espécimes —embora esse tipo de acidente ocorra com frequência. Ela busca as rainhas da colônia de cupins, cujos abdomens revelam seu papel reprodutivo.
Os cupins não são o foco de pesquisa da cientista, especialista em formigas. Ainda assim, ela passa horas agachada na terra, sujeita a mordidas de formigas e picadas de moscas-mutucas —frequentes na Serra do Aracá—, para capturar os insetos que encontra pelo caminho.
“Essa é uma oportunidade única de coletar. Por isso, quero poder amostrar a maior parte dos insetos que eu conseguir para aproveitar ao máximo a viagem”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP, enquanto colocava os espécimes em frascos de vidro com álcool. O material será destinado ao acervo biológico do MZ-USP (Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo), do qual é pesquisadora, para estudo por outros especialistas.
A dedicação em colaborar e aproveitar o tempo dá o tom da expedição. Considerada o maior esforço de prospecção de biodiversidade já realizado no topo dessas montanhas isoladas do extremo norte do Amazonas, a jornada é encarada pelos 16 cientistas como uma oportunidade para coletar o maior número possível de espécimes da fauna e flora, além de amostras de água, solo e sangue de espécies que só existem no local. O objetivo é conhecer a biodiversidade desses ecossistemas de altitude, que abrigam espécies diferentes das que habitam as partes mais baixas da planície amazônica.
A expedição é financiada pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e realizada com o apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas operações logísticas e de segurança.
A equipe é composta por cientistas de diversas instituições, incluindo a USP, o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o Ifam (Instituto Federal do Amazonas), a UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), a Universidade de Toulouse (França), a Universidade Autônoma de Madri (Espanha), o Jardim Botânico do Missouri (EUA) e o Museu de História Natural de Oslo (Noruega) —todos com formação no Brasil e experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Entre eles estão especialistas em répteis, anfíbios, mamíferos, aves, insetos, plantas e parasitas.
TRABALHO PRÉVIO
A pressa e a ansiedade dos pesquisadores em iniciar as coletas já eram perceptíveis no embarque da equipe em São Paulo, com destino a Manaus e, depois, a Barcelos (AM), às margens do rio Negro, onde fica a base operacional do Exército que dá apoio à expedição.
“Quanto mais rápido chegarmos, melhor. Tempo é dinheiro e não podemos desperdiçar uma oportunidade valiosa de coletar a maior quantidade possível de espécies”, disse Luís Fábio Silveira, ornitólogo e diretor do MZ-USP, no embarque.
O campo-base da expedição fica a 1.260 metros de altitude, no topo de um tepui, como são chamadas as montanhas de topo plano na região norte da Amazônia, a 220 km ao norte de Barcelos.
Para o grupo de cientistas, a prospecção começou antes da decolagem do helicóptero do Exército. No caso das botânicas Vania Nobuko Yoshikawa, pesquisadora do Inpa, e Jenifer de Carvalho Lopes, pesquisadora do Jardim Botânico do Missouri, o planejamento minucioso começou no laboratório.
“Nosso trabalho de campo começa no laboratório. Antes de vir para cá, lemos vários artigos e consultamos listas de espécies para saber o que podíamos encontrar. Não chegamos aqui totalmente às cegas”, disse Yoshikawa.
O planejamento incluiu o estudo de listas históricas de espécies da floresta amazônica, publicadas por botânicos brasileiros e estrangeiros, além do mapeamento de dados em repositórios digitais como o speciesLink —rede digital brasileira criada em 2002 que integra e compartilha dados científicos sobre a biodiversidade de plantas, animais, fungos e microrganismos.
O trabalho de coleta das botânicas é realizado durante o dia. Às 6h, tomam café com o restante do grupo e, por volta de 7h, saem para incursões nas matas ao redor do acampamento. Ao contrário dos pesquisadores da zoologia, cujas buscas por animais dependem de armadilhas em pontos específicos, elas têm no platô da Serra do Aracá um amplo campo para exploração, orientada pela análise visual dos diferentes padrões e fisionomias de vegetação.
Lopes destaca que a tomada de decisão em campo é ditada pelo estado das plantas. “Para nossas coletas de material, precisamos que os espécimes estejam com flor ou com fruto, porque precisamos dessas estruturas reprodutivas para poder identificá-los no nível de gênero e de espécie”, afirmou a pesquisadora.
De volta ao acampamento na hora do almoço, passam a tarde prensando as plantas em folhas de jornal e organizando duplicatas de ramos (de 3 a 5 por indivíduo). As amostras são guardadas em sacos plásticos com álcool para evitar fungos. Como esse processo dificulta a extração de DNA celular, elas realizam uma tarefa paralela: extraem pedaços de folhas saudáveis e os colocam em pequenos sacos de chá com sílica gel para desidratação rápida e preservação do material genético até o retorno ao laboratório.
Com a vegetação florida, as botânicas coletaram, nos 5 primeiros dias da expedição, mais de 100 espécimes e identificaram populações expressivas de canela-de-ema (plantas do gênero Vellozia) e orquídeas terrestres do gênero Catasetum.
“Essas plantas vão ser tombadas no Inpa e depois serão disseminadas para outros herbários no Brasil e em outros países com os quais mantemos colaboração científica, como os do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do IB-USP [Instituto de Biociências da USP] e do Jardim Botânico do Missouri”, disse Yoshikawa.
NO RITMO DOS BICHOS
As coletas no platô expõem um contraste na rotina de trabalho dos grupos de especialistas. Enquanto as plantas aguardam a busca visual das botânicas durante o dia, a zoologia segue os ciclos biológicos e turnos de atividade dos animais.
Os ornitólogos (especialistas em aves) despertam por volta de 4h da manhã. O objetivo é capturar aves ativas no final da noite e nas primeiras horas do dia —como corujas, bacuraus e guácharos— e registrar o chamado “coro da aurora”. “É o momento em que a passarinhada está acordando com fome e, por isso, está mais ativa e é mais fácil avistá-los”, disse Silveira, acompanhado de Igor Alvarenga, pesquisador associado do MZ-USP.
Com binóculos, gravadores de som e espingardas, eles abrem, ao amanhecer, dezenas de redes de malha fina (chamadas “redes de neblina”). As redes funcionam como armadilhas até o fim da manhã, quando são retiradas as aves presas. Os ornitólogos recolhem todos os espécimes capturados e os levam para o acampamento, onde realizam pesagem, medição, retirada de tecidos e a preparação taxonômica das espécies biológicas coletadas em campo.
“Essa preparação taxonômica exige atenção absoluta e não tem margem para falhas. Não há espaço para erros ou brincadeiras, porque uma amostra de tecido com o número trocado significa que ela foi perdida”, afirmou Silveira.
A primeira semana de expedição rendeu surpresas, como a presença expressiva de beija-flores. O maior destaque foi o beija-flor Colibri delphinae, do qual Silveira e Alvarenga coletaram 3 indivíduos —ave que não havia sido registrada nas expedições anteriores à Serra do Imeri e ao Pico da Neblina. Em contrapartida, as matas de encosta no topo da montanha frustraram as expectativas pela escassez de aves.
“Estávamos esperando encontrar uma floresta bem mais povoada de passarinhos e, na verdade, ela é bem vazia”, relatou Alvarenga. O avistamento de um casal de araras-vermelhas na primeira incursão gerou entusiasmo, mas os dias seguintes confirmaram uma densidade de aves baixa.
Os mastozoólogos Alexandre Percequillo, professor da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), e Ana Paula Carmignotto, professora da UFSCar, especialistas em pequenos mamíferos, tiveram mais sorte. No segundo dia de expedição, constataram a captura de um roedor nas armadilhas. Ao examinar o animal, perceberam que podia se tratar de um exemplar que parece pertencer ao gênero Zygodontomys, roedor típico de áreas abertas e de campinarana que também ocorre na altitude da Serra do Aracá. “Não tínhamos pegado esse animal nem nas expedições ao Pico da Neblina nem na Serra do Imeri”, disse Percequillo.
Ao levar o animal para o laboratório de campo, a surpresa do líder da expedição foi imediata. “Eu nunca tinha pegado esse bicho”, disse o biólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do IB-USP. A captura foi celebrada como o marco em que a expedição saiu do zero no grupo dos pequenos mamíferos.
ANIMAIS CREPUSCULARES
Os anfíbios utilizam a umidade e as temperaturas amenas da noite para cantar e disputar território nos riachos. Por isso, após o jantar, por volta de 18h, as equipes da herpetologia (especialistas em répteis e anfíbios) entram na mata munidas de lanternas.
Embora a maioria dos anuros (sapos, rãs e pererecas) seja noturna, há espécies com pico de atividade na transição entre o dia e a noite. “É um nicho que eles ocupam”, disse o herpetólogo Taran Grant, professor do IB-USP e especialista em anuros.
Quando a escuridão começa a cair sobre o platô, os cientistas acompanham a transição entre as espécies diurnas e as noturnas. Como muitos sapos cantam escondidos no solo ou no alto das árvores, descobrir o emissor do som é um desafio, agravado pelo fato de os animais silenciarem com a aproximação humana.
“Vocês perceberam que, quando a gente chegou perto, ele percebeu a luz e parou de cantar?”, perguntou Taran para a equipe de reportagem da Agência FAPESP durante uma incursão noturna. “A gente tem de apagar as luzes, esperar para ele ficar mais tranquilo e começar a cantar de novo”.
Para o cientista, o desafio é flagrar o animal em ação. “É importante registrar exatamente qual é o indivíduo que está cantando. Primeiro, porque temos de nos certificar de que um determinado canto é realmente dessa espécie. Por isso, eu gravo o áudio e observo o indivíduo cantando, com o saco vocal inflado”, disse o pesquisador. Esse exemplar capturado e associado à gravação é denominado “voucher”.
O rigor metodológico é necessário porque o canto varia de acordo com a temperatura ambiente e o tamanho do corpo —indivíduos menores emitem frequências mais agudas do que os maiores da mesma espécie.
Na primeira fase de exploração, o grupo de herpetologia registrou de 8 a 9 espécies de anfíbios e de 4 a 5 espécies de lagartos. O destaque foi a captura de um pequeno lagarto adaptado ao arenito das áreas abertas do platô, apontado como uma provável espécie nova para a ciência.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 8.set.2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
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