Por Helena Dolabela
A eleição para o governo de Minas Gerais passou boa parte da pré-campanha cercada por incertezas. A definição das candidaturas se arrastou, diferentes arranjos foram discutidos e o tabuleiro estadual demorou a adquirir sua configuração atual. No caso de Cleitinho Azevedo, a indefinição ganhou contornos particularmente tumultuados: o senador anunciou, recuou e voltou a defender publicamente sua candidatura, em um vaivém que chegou a provocar tensão dentro do próprio Republicanos.
Às vésperas do fim do prazo das convenções, Cleitinho chegou a gravar um vídeo ao lado do presidente do partido, Marcos Pereira, afirmando não ter condições de concorrer. No dia seguinte, interrompeu a convenção do Republicanos para pedir que sua candidatura fosse autorizada e acabou repreendido publicamente pelo dirigente. Dias depois, o partido recuou e confirmou seu nome na disputa. Segundo a Folha de S.Paulo, Cleitinho mudou publicamente de posição sobre a candidatura pelo menos três vezes.
Do outro lado, a definição do candidato apoiado pelo presidente Lula também passou por uma longa construção. O resultado é uma eleição que coloca frente a frente não apenas projetos políticos distintos, mas personagens de trajetórias e estilos quase opostos.
Entre as redes e a política tradicional
Cleitinho tem 44 anos e chegou rapidamente à política nacional. Natural de Divinópolis, foi eleito vereador em 2016, deputado estadual dois anos depois e senador em 2022. Sua ascensão acompanha o fortalecimento da direita na política brasileira, mas tem também uma marca muito particular, para se dizer o mínimo: uma comunicação construída em grande medida pelas redes sociais, na qual vídeos curtos, linguagem coloquial, indignação e exposição da própria rotina política frequentemente ocupam o lugar da mediação tradicional entre representante e eleitor.
Os vídeos não são apenas uma ferramenta de divulgação de seu mandato. Tornaram-se parte da própria personagem política de Cleitinho. É por meio deles que comenta notícias, reage a adversários, fiscaliza serviços públicos, anuncia decisões e participa das controvérsias do dia. Até sua atribulada decisão de concorrer ao governo foi narrada em sucessivos capítulos pelas redes.
Essa comunicação ajudou a ampliar sua notoriedade, mas também produziu episódios controversos. Em janeiro deste ano, por exemplo, Cleitinho esteve entre os políticos que compartilharam como verdadeiro um vídeo falso, produzido por inteligência artificial, no qual um suposto integrante do MST ameaçava “invadir” os Estados Unidos para libertar Nicolás Maduro. O MST confirmou que as imagens eram uma montagem.
Meses depois, durante a novela em torno de sua própria candidatura, as redes voltaram a ocupar o centro da cena. Um levantamento da Vox Radar sobre mais de 318 mil comentários no Instagram identificou forte reação crítica ao vaivém do senador.
Há, portanto, um paradoxo importante na candidatura que hoje lidera a corrida pelo governo de Minas Gerais. O estilo que frequentemente expõe Cleitinho a controvérsias é também parte daquilo que lhe deu visibilidade e identidade política.
Patrus Ananias, do PT, aos 74 anos, pertence a outra geração e carrega uma trajetória política muito mais longa. Foi vereador e prefeito de Belo Horizonte, deputado federal e ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo Lula, período em que esteve associado à implementação do Bolsa Família.
De um lado, portanto, está um candidato que percorreu em poucos anos o caminho da Câmara Municipal de Divinópolis ao Senado e cuja identidade política foi moldada na era das redes sociais. De outro, um nome histórico da esquerda mineira, formado na política partidária tradicional, com experiência administrativa e passagem pelos governos municipal e federal.
O contraste é também geracional e comunicacional. E ajuda a tornar mais intrigante a principal assimetria da eleição mineira neste momento: Cleitinho conseguiu transformar notoriedade em uma ampla liderança nas pesquisas; Patrus ainda tenta transformar trajetória, identificação com Lula e força partidária em uma candidatura competitiva no conjunto do estado. Mas a eleição mineira está longe de se resumir aos dois.
Uma disputa com mais atores em cena
Alexandre Kalil, do PDT, aparece hoje no mesmo pelotão de Patrus. Empresário, ex-presidente do Atlético Mineiro e prefeito de Belo Horizonte por dois mandatos, Kalil já disputou o governo em 2022, quando terminou em segundo lugar, com cerca de 35% dos votos válidos. Naquela eleição, dividiu palanque com Lula. Em 2026, os caminhos se separaram: Patrus tornou-se o candidato do campo lulista e Kalil tenta construir uma alternativa própria.
Há ainda Mateus Simões, do PSD, que carrega uma condição singular: é o governador em exercício. Eleito vice de Romeu Zema em 2022, assumiu definitivamente o governo após a renúncia de Zema para disputar a Presidência. Advogado e ex-vereador de Belo Horizonte, Simões foi também secretário-geral do governo e representa a continuidade mais direta do grupo político que governa Minas desde 2019.
Completam a disputa Flávio Roscoe, empresário e presidente da Fiemg, candidato pelo PL; Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, pelo MDB; além de Ben Mendes (Missão), Indira Xavier (UP), Henrique Áreas (PCO), Rafael Duda (PSTU) e Túlio Lopes (PCB). São, ao todo, 11 candidaturas registradas para governar o segundo maior colégio eleitoral do País.
Com os nomes finalmente postos, as pesquisas começam a mostrar com mais clareza a estrutura da disputa. Neste início de campanha, Cleitinho ocupa uma posição bastante confortável em relação aos adversários.
Na pesquisa Quaest realizada entre 4 e 7 de setembro, o senador aparece com 32% das intenções de voto, seguido por Patrus Ananias e Alexandre Kalil, ambos com 11%, e Mateus Simões, com 8%. Os demais candidatos aparecem abaixo desse patamar. Ao mesmo tempo, 17% dos eleitores ainda estão indecisos mesmo quando recebem a lista de candidatos, enquanto 12% indicam voto branco, nulo ou dizem que não irão votar.
A comparação com a rodada anterior exige cautela. Em agosto, Cleitinho tinha 29%, Patrus 11%, Kalil 10% e Simões 7%. Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, as oscilações entre uma rodada e outra não permitem falar em crescimento ou queda consolidada dos principais candidatos. O mais importante é a estabilidade da configuração: Cleitinho permanece isolado na primeira posição, enquanto Patrus, Kalil e Simões formam um segundo pelotão muito distante do líder.
As bases eleitorais de cada candidato
A liderança de Cleitinho atravessa diferentes segmentos do eleitorado, mas está longe de ser homogênea. A diferença mais evidente aparece entre homens e mulheres. Na rodada de setembro, Cleitinho alcança 40% entre os homens e 25% entre as mulheres. Patrus registra 10% e 12%, respectivamente. Entre as mulheres, há também mais espaço ainda em disputa: 21% estão indecisas, contra 13% dos homens.
A idade revela outro contraste. Cleitinho registra 29% entre os eleitores de 16 a 34 anos, 36% entre aqueles de 35 a 59 anos e 29% entre os que têm 60 anos ou mais. Patrus percorre caminho diferente: tem apenas 6% entre os mais jovens, 10% entre os eleitores de meia-idade e chega a 18% entre os mais velhos.
Renda e escolaridade acrescentam outras peças ao retrato. Em setembro, Cleitinho registra 26% entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, 36% entre aqueles que recebem de dois a cinco e 32% entre os que recebem mais de cinco salários. Patrus marca 9%, 10% e 13%, respectivamente. Entre os eleitores de menor renda, chama atenção também a proporção de indecisos: 21%.
O quadro contraria uma leitura simplificadora da candidatura de Cleitinho como fenômeno restrito aos estratos populares. O senador lidera em diferentes grupos sociais e registra alguns de seus maiores percentuais entre eleitores de renda intermediária e maior escolaridade.
É no recorte religioso, entretanto, que aparece uma das dificuldades mais evidentes da candidatura petista. Em setembro, Cleitinho registra 35% entre os católicos e 36% entre os evangélicos. Patrus chega a 12% entre os católicos, mas apenas a 7% entre os evangélicos.
Para a campanha petista, diminuir essa desvantagem será um desafio importante. Patrus não precisa vencer entre os evangélicos para se tornar competitivo, mas uma diferença dessa magnitude restringe consideravelmente seu espaço de expansão.
A identificação política ajuda a explicar por que, apesar da força de Lula no estado, Patrus permanece distante da liderança. Na pesquisa de setembro, Patrus alcança 34% entre os eleitores que se identificam como lulistas e 28% entre aqueles que se dizem de esquerda, mas não lulistas. Cleitinho, por sua vez, registra 58% entre os bolsonaristas e 51% entre os eleitores de direita não bolsonarista.
O retrato revela uma diferença relevante: Cleitinho está mais consolidado entre os eleitores identificados com a direita do que Patrus entre aqueles próximos ao seu campo político.
E existe uma segunda diferença. Cleitinho não depende exclusivamente da direita. Na rodada de agosto, registrava 23% entre os que se consideram independentes e chegava a 21% até mesmo entre os lulistas. Patrus, na mesma pesquisa, tinha apenas 5% entre os independentes.
Esse talvez seja o principal problema estratégico para Patrus neste momento. O petista precisa primeiro consolidar o eleitorado naturalmente mais próximo de sua candidatura e transformar a identificação com Lula em voto para governador. Mas isso não basta. Para reduzir a distância em relação ao líder, terá também de ultrapassar as fronteiras da esquerda e chegar ao eleitor menos ideologizado.
A presença de Alexandre Kalil torna esse movimento ainda mais complexo. Com 11%, o ex-prefeito está numericamente empatado com Patrus na pesquisa de setembro. Sua trajetória política permite que dispute um eleitor que não necessariamente se organiza pela polarização entre esquerda e direita.
Kalil já governou a capital e, diferentemente de 2022, não está associado à candidatura de Lula. Isso cria uma disputa adicional para Patrus: antes mesmo de alcançar Cleitinho, o petista precisa se diferenciar de um adversário que também pode buscar eleitores de centro, independentes e setores pouco identificados com os polos nacionais.
Mateus Simões enfrenta outro problema. Como governador em exercício e herdeiro político mais direto de Romeu Zema, dispõe da visibilidade do cargo e de uma narrativa de continuidade, mas registra 8% das intenções de voto. Sua campanha dependerá, em boa medida, da capacidade de transformar a avaliação do ciclo Zema e sua exposição como governador em voto próprio.
A fragmentação desse segundo pelotão é, por enquanto, uma vantagem importante para Cleitinho. Patrus, Kalil e Simões não disputam apenas votos com o líder: disputam entre si o espaço de principal adversário.
Uma eleição ainda com espaço para mudar
Apesar da vantagem de Cleitinho, seria prematuro tratar a eleição como definida. Na estimulada, 17% dos eleitores ainda estão indecisos, mesmo depois de ouvir os nomes dos candidatos. Outros 12% indicam voto branco, nulo ou abstenção. É um contingente relevante numa disputa em que nenhum dos candidatos do segundo pelotão ultrapassa, individualmente, 11%.
As próximas semanas serão, portanto, decisivas por razões diferentes para cada candidatura.
Para Cleitinho, o desafio é transformar uma liderança construída antes mesmo do início formal da campanha em voto consolidado. A exposição que o ajudou a chegar até aqui também aumenta o escrutínio sobre um candidato que fez da espontaneidade, das redes sociais e da reação permanente aos acontecimentos uma marca política. Uma campanha para governar um estado com a dimensão e a complexidade de Minas tende a exigir também respostas sobre administração, políticas públicas e capacidade de articulação que não cabem necessariamente na linguagem de um vídeo de poucos minutos.
Patrus precisa realizar uma operação diferente: transformar Lula em Patrus sem limitar Patrus a Lula. Isso significa consolidar o eleitorado de esquerda, reduzir sua ampla desvantagem entre evangélicos e jovens e, sobretudo, alcançar independentes e eleitores menos ideologizados.
Kalil precisa demonstrar que ainda existe espaço para uma candidatura estadual capaz de escapar da polarização nacional. Simões terá de convencer o eleitor de que a continuidade do ciclo Zema deve passar por seu nome.
Minas chega, assim, à reta decisiva com uma disputa peculiar. Há 11 candidatos, três nomes embolados na disputa pela segunda posição e um líder isolado. Cleitinho conseguiu até aqui combinar uma base muito forte à direita com presença em segmentos que ultrapassam esse campo. Mas sua liderança coloca também uma questão que tende a ganhar importância à medida que a campanha avance: até que ponto a persona política que funcionou tão bem nas redes sociais será suficiente quando a disputa passar da notoriedade para o debate sobre quem está preparado para governar Minas Gerais?
Para Patrus, a pergunta é outra: sua longa experiência política e a associação com Lula serão capazes de produzir uma candidatura que ultrapasse as fronteiras do eleitorado petista?
Por enquanto, nenhuma dessas perguntas está respondida. Os 17% de indecisos na estimulada são uma lembrança importante disso. Cleitinho entra na reta decisiva em posição privilegiada, enquanto Patrus, Kalil e Simões ainda disputam entre si o espaço de principal adversário. A campanha começa agora a testar não apenas a força eleitoral de cada nome, mas aquilo que existe por trás das imagens que cada um construiu de si.
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