Cansaço, irritabilidade, alterações no sono e dificuldade de concentração podem ser associados ao estresse, à sobrecarga de trabalho ou às mudanças na rotina. No entanto, esses sintomas também podem aparecer durante a perimenopausa, fase de transição para a menopausa que pode envolver mudanças no ciclo menstrual e oscilações hormonais. A ausência de ondas de calor, porém, não permite confirmar nem descartar essa etapa.
Um estudo publicado em 2026 na revista científica BMJ Sexual & Reproductive Health investigou a ocorrência de sintomas em mulheres que não apresentavam sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos. A pesquisa analisou dados de 1.039 mulheres e comparou os sintomas relatados conforme os padrões menstruais.
Os resultados apontaram diferenças na frequência de alguns sintomas entre os grupos analisados, incluindo cansaço, dificuldades de memória e sensação de inchaço abdominal. Os pesquisadores, contudo, ressaltaram que as diferenças observadas foram limitadas e que alterações isoladas no fluxo menstrual não são suficientes para confirmar o início da transição para a menopausa.
O que o estudo identificou sobre os sintomas
A pesquisa utilizou dados do Australian Women’s Midlife Years Study, coletados entre 2023 e 2024. As 1.039 participantes não apresentavam sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos, o que permitiu investigar outros sintomas associados às diferentes fases do período reprodutivo.
As participantes foram divididas em grupos conforme os padrões menstruais. Um deles reuniu 660 mulheres que menstruavam regularmente, sem mudanças no fluxo menstrual. Outro incluiu 209 mulheres que mantinham ciclos regulares, mas relatavam alterações no fluxo. O terceiro foi composto por 170 mulheres classificadas como estando na perimenopausa, com variações de pelo menos sete dias na duração dos ciclos menstruais.
Na comparação entre os grupos, os pesquisadores observaram diferenças em alguns sintomas, como cansaço, dificuldade de memória e sensação de inchaço abdominal. Mulheres com alterações no fluxo menstrual relataram determinados sintomas com maior frequência do que aquelas sem essas mudanças.
Entretanto, os resultados não indicaram diferenças em todos os sintomas avaliados. Entre os 18 sintomas individuais analisados pelo questionário utilizado na pesquisa, a maioria não apresentou diferenças significativas entre os grupos de estágio reprodutivo tardio e perimenopausa inicial.
Por isso, os achados não permitem concluir que toda mulher com mudanças no fluxo menstrual ou sintomas como cansaço e dificuldade de memória esteja entrando na perimenopausa. O estudo contribui para investigar manifestações que podem ocorrer sem ondas de calor, mas não estabelece um conjunto de sintomas capaz de confirmar a transição hormonal individualmente.
Como a perimenopausa pode se manifestar
A perimenopausa é o período de transição que antecede a menopausa. Nessa fase, a atividade hormonal ovariana passa por mudanças que podem afetar a regularidade menstrual e provocar sintomas físicos e emocionais. A experiência varia de uma mulher para outra, tanto em relação aos sintomas quanto à intensidade e à duração das mudanças.
Segundo o ginecologista Ricardo Barone, a fase inicial pode apresentar alterações no ciclo menstrual e sintomas relacionados às oscilações hormonais, mesmo quando a menstruação continua ocorrendo mensalmente.
“Na fase inicial, a mulher menstrua todo mês, mas ela costuma ter um encurtamento do ciclo, seguido de TPM mais intensa, dor mamária, dor de cabeça pré-menstrual e flutuação muito grande dos níveis hormonais e que podem levar a sintomas de irritabilidade”
O encurtamento do ciclo, a intensificação dos sintomas pré-menstruais e as mudanças de humor podem ser percebidos durante esse período. No entanto, essas manifestações não ocorrem necessariamente em todas as mulheres e também podem ter outras causas.
Na fase mais avançada da transição, as alterações menstruais podem se tornar mais evidentes, com intervalos maiores entre as menstruações ou meses sem sangramento. Ondas de calor e suores noturnos também podem aparecer, embora a manifestação e a sequência dos sintomas variem de pessoa para pessoa.
Barone explica como essa etapa pode se apresentar:
“Mas existe a perimenopausa tardia, é quando a mulher começa a ter falhas na menstruação, um mês sim, um mês não, e é aí que começam a vir as ondas de calor, dores articulares, no corpo, cansaço, desânimo, irritação, alteração de humor, sono”
A descrição do ginecologista apresenta manifestações possíveis da transição hormonal, mas não deve ser entendida como uma sequência obrigatória. Algumas mulheres podem apresentar sintomas diferentes, ter poucas manifestações ou perceber mudanças no ciclo menstrual sem desenvolver ondas de calor.
Cansaço e dificuldade de concentração também podem ter outras causas
Embora possam aparecer durante a perimenopausa, sintomas como fadiga, irritabilidade, alterações no sono e dificuldade de concentração não são exclusivos dessa fase. Anemia, alterações da tireoide, estresse, ansiedade e distúrbios do sono também podem provocar manifestações semelhantes.
Por esse motivo, não é recomendado atribuir automaticamente qualquer mudança física ou emocional à transição hormonal. A avaliação médica considera a idade, o histórico menstrual, os sintomas relatados, a evolução das manifestações e a possibilidade de outras condições de saúde.
A investigação pode incluir exames quando houver indicação clínica. A dosagem de hormônios, por si só, nem sempre esclarece a situação, pois os níveis hormonais podem oscilar durante a transição. Em mulheres com 45 anos ou mais, quando o quadro é típico, a identificação da perimenopausa ou da menopausa costuma ser clínica, sem necessidade de exames hormonais de rotina.
As recomendações do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido (NICE) orientam a avaliação da menopausa conforme a idade, os sintomas e as mudanças menstruais. Para mulheres saudáveis a partir dos 45 anos, a identificação clínica da perimenopausa considera, entre outros elementos, o início recente de sintomas vasomotores associado a mudanças no ciclo menstrual. Portanto, esses critérios não devem ser usados isoladamente para afirmar que uma mulher sem ondas de calor está na perimenopausa.
A ausência de ondas de calor não elimina a necessidade de investigar sintomas persistentes, mas também não significa que eles sejam necessariamente provocados por alterações hormonais.
Quando procurar avaliação médica
A mulher não precisa esperar que as ondas de calor apareçam para conversar com um ginecologista sobre mudanças no ciclo menstrual ou sintomas que estejam afetando sua rotina. O acompanhamento permite avaliar o histórico individual, investigar outras causas e orientar os cuidados necessários.
Uma medida útil é registrar as datas das menstruações, a duração dos ciclos, a intensidade do fluxo e os sintomas percebidos ao longo do mês. Essas informações ajudam a identificar mudanças no padrão menstrual e oferecem ao profissional de saúde elementos para conduzir a avaliação.
Também é importante procurar atendimento diante de sangramentos muito intensos, sangramentos entre as menstruações ou qualquer sangramento vaginal após 12 meses consecutivos sem menstruar. Essas manifestações precisam ser avaliadas e não devem ser atribuídas automaticamente à perimenopausa.
O estudo publicado em 2026 amplia a investigação sobre sintomas que podem ocorrer durante a transição hormonal mesmo sem ondas de calor. Ainda assim, seus resultados não permitem estabelecer um diagnóstico individual com base apenas no cansaço, na dificuldade de memória, no inchaço abdominal ou nas mudanças no fluxo menstrual.
A avaliação clínica continua sendo importante para compreender o conjunto de sintomas, considerar outras possíveis causas e definir a orientação adequada para cada mulher.
Créditos Autor: Isabela
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