Estratégia debochada de Boulos perde o prazo de validade

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Estratégia debochada de Boulos perde o prazo de validade

Se um político exagera nessa conduta ou debocha em momentos não apropriados, corre o risco de ser visto como pessoa sem argumentos consistentes ou sem a seriedade exigida

Renato S. Cerqueira/Ato Press/Estadão Conteúdo
Tanto em 2018, quando foi um dos candidatos à presidência, quanto em 2020, ao concorrer à prefeitura de SP, Boulos abusou do deboche

Parece que Boulos passou do ponto com suas ironias e chacotas. Não que esse não seja um bom recurso de comunicação. O humor, a presença de espírito, a alegria são ingredientes que prendem a atenção dos ouvintes e os tornam mais receptivos ao processo persuasivo. Na política é uma arma poderosa. Há candidatos que conseguem envolver boa parte do eleitorado com seu jeito leve e solto de ser. Nem sempre são contadores de piadas, mas possuem uma veia bem-humorada e uma habilidade para narrar histórias interessantes que os tornam admiráveis.

O deboche para atacar e defender

Você já assistiu a um debate em que Boulos esteve presente? Percebeu que ele usa como estratégia ironizar os argumentos contrários e, em certos momentos, até debochar deles? Esse é um recurso de comunicação que pode dar resultado, especialmente quando os argumentos do orador são frágeis. A prática, naturalmente, não foi inventada pelo candidato do PSOL. Outros políticos recorreram ao mesmo recurso. No passado, Brizola era um orador que recorria até ao sarcasmo para desqualificar seus adversários. Em 1994, disse que Fernando Henrique Cardoso parecia um jacaré: “Ele já está com couro de jacaré, com olho de jacaré, e com dente de jacaré. Como é que ele não é jacaré?”.

Há limites

Lula, é outro político que se vale desses recursos. Foi useiro e vezeiro em responder com deboche às acusações dos oponentes. Agiu assim com Alckmin e com Bolsonaro, só para citar os mais recentes. Ao sorrir e ironizar, o debatedor passa a mensagem de que os ataques do opositor são infundados e que não o afetam. O eleitor é levado a acreditar que aquele que sorriu ou debochou está tão seguro de suas posições que nem se deu ao trabalho de refutar a argumentação contrária. Há, entretanto, limites e necessidade de adequação para esse comportamento. Se um político exagera nessa conduta ou debocha em momentos não apropriados, corre o risco de ser visto como pessoa sem argumentos consistentes ou sem a seriedade exigida para o cargo pretendido.

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Boulos: passando dos limites?

Boulos, tanto na campanha de 2018, quando foi um dos candidatos à presidência da República, quanto na de 2020, ao concorrer à prefeitura de São Paulo, usou e abusou do deboche. Como as críticas à sua atuação de invasor radical e extremista eram frequentes, essa foi sua arma de defesa predileta. Tudo indica que a fórmula desgastou. No passado, suas chances de sair vitorioso eram remotas. Hoje, segundo pesquisas recentes, as possibilidades de chegar ao Palácio do Anhangabaú são boas. Aquela postura descompromissada, portanto, não combina muito com o cargo de prefeito da mais importante cidade do país.

Mudança de atitude

Pelo seu perfil, Boulos dificilmente abandonaria de vez esse jeito irreverente de ser. No transcorrer de sua campanha, entretanto, deverá mudar bastante. Segundo o seu coordenador político, Josué Rocha, seus argumentos deverão se sustentar mais em conteúdos sólidos. A intenção agora é também a de partir para o ataque, mostrando as possíveis falhas na administração de Ricardo Nunes. Outra alteração nesta campanha é a de mostrar de forma mais ostensiva suas qualificações para dirigir uma cidade do porte de São Paulo. Embora não tenha nenhuma experiência administrativa, provavelmente, revelará seus feitos como deputado e os planos que pretende pôr em andamento caso se eleja.

Os desafios de Boulos

Para ir diretamente aos pontos que interessam à população, os organizadores da campanha desenvolveram um site que receberá sugestões da população. Dessa forma, poderá ajustar a linha dos discursos de acordo com os problemas indicados pelos próprios eleitores. Boulos não terá vida tranquila nessa disputa. Sem experiência administrativa, terá de convencer o eleitorado que desenvolverá uma gestão competente. Além dessas ações, mais uma vez precisará se defender do rótulo de invasor de propriedades e de ativista radical. Os profissionais de marketing e os responsáveis pela campanha terão muito trabalho para vencer todas essas frentes.

Os padrinhos poderosos

Sem contar que do outro lado estará o atual prefeito. Por mais que possa ser criticado, terá muitas realizações a apresentar e conta com a máquina para dar suporte à essa busca de votos. Existe uma estrutura partidária montada para apoiá-lo nessa contenda. E também a cereja do bolo. De um lado estará Bolsonaro apoiando Nunes. De outro, Lula patrocinando Boulos. Quem tiver aceitação popular robusta deverá conquistar mais votos para o seu candidato. No momento, pela vertiginosa queda de popularidade do presidente e impressionantes manifestações recebidas pelo ex-presidente em todos os lugares por onde caminha, Nunes leva vantagem. Os próximos meses mostrarão se essa realidade irá perdurar. Siga pelo Instagram: @polito

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Fonte: clique aqui.

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