A Marinha de Israel atacou ilegalmente, em águas internacionais, navios em missão humanitária que tentavam romper o bloqueio à Faixa de Gaza no dia 18 de maio. A ação resultou na apreensão dos barcos da Flotilha Global Sumud e no sequestro de ativistas de diversos países, incluindo o Brasil.
O médico pediatra Cássio Pelegrini, que atua no atendimento a imigrantes em São Paulo, era um dos integrantes da flotilha. Pelegrini é o entrevistado do Pauta Pública desta semana e faz um relato detalhado do horror físico e psicológico vivido nas mãos dos militares israelenses, incluindo momentos de espancamentos, choques, privação de água e exposição ao frio e ao calor.
No relato a Andrea Dip, o médico relembra as cenas de tortura e violência sexual, alguns confirmados por manifestações do próprio ministro de Segurança Nacional de Israel, que chegou a divulgar em seu perfil nas redes sociais vídeos de ativistas amarrados e ajoelhados, com a legenda “bem-vindos a Israel”.
Pelegrini diz que os ativistas seguem firmes no apoio ao povo palestino: “eles fraturaram muitos corpos e foram violentos com a gente psicologicamente, mas em nenhum momento tivemos dúvida de que era o correto estar ali. Então, moralmente, a gente saiu intacto”, afirma.
Leia o relato e ouça o podcast completo:
EP 218
Dias de horror nas mãos de Israel: um relato em primeira pessoa – com Cássio Pelegrini
29 de maio de 2026
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Médico relata como foi o sequestro dos ativistas da missão humanitária que tentava levar ajuda para a Faixa de Gaza
Cássio, você era um dos integrantes da Flotilha Global Sumud e acabou de voltar para o Brasil. Poderia dizer o que aconteceu nesses dias?
Eu estava a bordo do Cabo Blanco, o penúltimo barco a ser interceptado. A gente estava a 89 milhas náuticas da costa de Gaza. Eram três navios-prisão. No nosso caso, a gente foi interceptado no segundo dia e eles foram mais violentos com os ativistas. Antes de ser levado para o navio-prisão, a gente foi levado para um navio de guerra. Esse navio de guerra se aproximou do nosso barco, muito próximo.
A gente estava com medo que eles fossem atropelar o nosso barco. E depois os soldados apareceram no bote, chegaram próximo da gente, pediram para a gente ir para a parte dianteira do barco. Foi difícil, porque o navio de guerra faz muitas ondas ali no mar.
Então, fomos levados até esse navio. Chegando lá, fomos vendados. A gente permaneceu cinco horas vendados ali, ajoelhados. E começou a tortura psicológica.
Gritavam com a gente, nos chamavam de terroristas, perguntavam quanto a gente tinha recebido de dinheiro para fazer parte da flotilha, faziam sons de sirene, ligavam e desligavam a sirene, cantavam músicas, davam risada, jogavam cheiros, perfume…
Tinha uma senhora turca, que não falava nenhum outro idioma além do turco, e com algum problema de saúde começou a gritar. E eles foram muito violentos com ela ali naquele momento também. Depois dessas cinco horas, eles botaram a gente num outro bote pra levar pro navio-prisão. E aí, nesse navio-prisão, foi feita uma verificação de passaporte.
Quando eu mostrei meu passaporte brasileiro, eles disseram que iam me tratar como Tiago Ávila, que é outro ativista da flotilha. E fui levado para uma sala escura. Pediram para eu sentar e, assim que eu me sentei, cinco soldados começaram a me dar golpes com arma. Eu senti minha costela quebrar nesse momento e levantei, meio que instintivamente. Eles me fizeram sentar novamente e me bateram mais tempo. Depois me fizeram tirar toda a roupa. Eu senti muito medo, porque a gente sabe que os sionistas usam estupro como arma de guerra.
Molharam minha roupa e me fizeram vestir. Estava muito frio. Eu fui jogado para dentro do quadrado de contêineres que formava um navio-prisão. Uma companheira me reconheceu e eu falei para ela: “Estou com a costela fraturada”. E aí ela me disse: “Várias pessoas aqui já estão com fraturas”. Eles já estavam lá desde o dia anterior. Eu não sabia exatamente onde eu estava, eu estava em choque, então eu imaginava que a gente estava em alguma parte interna do navio. Só no outro dia que eu consegui ver que a gente estava a céu aberto.
Durante a noite, eles entraram, jogaram bomba de fumaça, bomba sonora, alvejaram o pé de um ativista, que fraturou o tornozelo e ainda está internado. Eles ligavam luzes, apontavam laser de arma com munição letal contra nós. Éramos 188 pessoas nesse navio-prisão, distribuídas em três contêineres. Não tinha espaço para as pessoas dormirem.
Também a gente não encontrava posição, e quando alguém precisava ir ao banheiro, acabávamos pisando uns sobre os outros.
No dia seguinte, quando amanheceu, eu e outros médicos que estavam lá, começamos a contar o número de incidentes para, assim que a gente tivesse contato com nossos advogados, pudéssemos informar. Então, só naquele navio-prisão, a gente contou 35 fraturas, 22 lesões por taser [arma de eletrochoque] na região cefálica [cabeça] e do pescoço, e também 10 casos de violência sexual.
Ao amanhecer, fomos colocados ajoelhados sob o sol durante quatro horas e eles tocaram o hino de Israel 72 vezes, a gente contou. Algumas pessoas passaram mal. A gente não sabia para onde a gente estava ou para onde estávamos indo. Fomos sendo retirados ali, em grupos de dez, para uma parte próxima do porto de Ashdod [Israel].
No porto, havia duas tendas: uma menor e uma grande. Quando eu passei na tenda menor, outra sessão de espancamento. Eu gritei que eu estava com a costela fraturada, mas eles continuaram batendo ainda assim. Fomos separados em grupos menores dentro da tenda grande, colocados em posição de estresse, com as mãos atadas por um zip muito apertado, que cortava a circulação das nossas pernas. Eu não conseguia sentir meus pés. Ao mesmo tempo, eles falavam pra gente não se mexer.
Eu tinha medo de qualquer movimento pudesse ser um motivo para eu ser selecionado, porque pouco tempo depois, eles começaram a retirar pessoas desses grupos menores e aí levavam para a violência física e também para violência sexual. Eu consegui ouvir o som das pessoas sendo estupradas muito perto de mim. E a gente ficou ali umas três horas.
Acho que essa é uma das cenas também que aparece no vídeo que o Itamar Ben-Gvir divulgou. Na verdade, o vídeo mostra a gente em posição de estresse. Eu acho que tem um frame ali daquele vídeo que aparece uma ativista com a calça abaixada, a calcinha aparece, mas o pior mesmo não aparece ali.
Depois, eu fui deixado na mão da polícia israelense. Cada ativista era acompanhado por um policial. O policial oferecia esse ziplock [algema plástica] que estava prendendo minhas mãos para outros policiais, para eles puxarem e deixarem mais apertado.
Eu estava sendo carregado quase ajoelhado, tinha que andar rápido e ele ia golpeando minhas costas. Às vezes acariciava minhas costas e me obrigava a falar frases em hebraico, que eu não sabia o que era. Chamava os colegas para me ver falando essas frases em hebraico.
A gente foi deixado ali no porto por bastante tempo, até que eu fiquei na frente de um delegado. Eu pedi para falar com um advogado. E tinha um grupo de advogados que defendia os ativistas ali, e eles estavam ocupados tentando cuidar de todos. Como ele demorou para vir me atender, eles simplesmente começaram a me fazer perguntas em hebraico e eu sempre repetia que precisava falar com o meu advogado, que precisava da presença do consulado e que eu precisava de atendimento médico, porque eu estava com a costela fraturada. Mas eles preencheram um formulário e me entregaram para ir para a prisão.
Fomos colocados em um ônibus-prisão, que é uma espécie de camburão, numa cela muito pequena. Não tinha espaço para os joelhos, tinha duas caixas de escuta, então a gente era, imagino, que gravado ali. Cabiam duas pessoas em cada celazinha. Eu estava ali com um companheiro que eu já conhecia, da Grécia. Dava pra ouvir cachorros latindo lá fora, ouvir pessoas gritando. A todo momento a gente não sabia para onde estávamos indo. A gente só imaginava pelo histórico do que aconteceu nas outras flotilhas.
Demorou muito tempo para chegar na prisão, que era bastante longe de Ashdod.
Depois eu fiquei sabendo que era a prisão de Tsukiyomi. Chegando na prisão, fui espancado novamente pelos guardas. A gente passou por verificação de passaporte, inscrição na prisão. Fizeram a gente ficar nu de novo. Deram uma roupa quente pra gente. Fazia muito calor.
Passamos por uma espécie de avaliação médica que, na verdade, era pura formalidade. A gente ficava na frente dos profissionais de saúde que escreviam. Mesmo com a costela fraturada, fizeram fotos só do meu tórax e aparecem nos registros de lá as minhas lesões nas costas.
Depois, a gente foi levado para um local com uma tela em que apareciam cenas de pessoas sendo decapitadas, pessoas sofrendo violência física. Eles obrigavam a gente a assistir aquilo e ficavam chamando a gente de terrorista, dizendo que eles eram nossos amigos do Hamas.
Depois, a gente ficou um tempo aguardando numa cela muito pequena. Eram 13 pessoas numa cela de talvez cinco metros quadrados. Não tinha banheiro.
E eu comecei a examinar alguns companheiros que estavam ali, a identificar as fraturas de costela. Tinha muitas pessoas em greve de fome, em greve de sede também. Muita gente desidratada.
Depois, a gente foi levado para uma cela maior. Eram 29 pessoas, mas não tinha cama para todo mundo, muitas pessoas dormiram no chão. Tinha poeira, rato, não tinha banheiro, não tinha água. Então, esse dia todo, a gente teve privação de água. E no navio-prisão, eles ofereceram um pão congelado que a gente usava a temperatura do pão para colocar em cima dos ferimentos das contusões para aliviar um pouco a dor.
No dia seguinte, a gente foi algemado novamente nas mãos e nos pés. Eles corriam com a gente para machucar os pés e seguravam a algema junto com o cabelo, a gente ficava com a mão próxima da cabeça. O tempo todo, violência psicológica. [Eles eram] muito agressivos verbalmente. Eles usavam uma tática de dar instruções. Às vezes falavam para você sentar ao mesmo tempo que falavam para você se levantar. E isso gerava insegurança, um medo de punição e aumentava o estresse.
A gente foi colocado com esse moletom quente dentro do camburão novamente.
Ficou estacionado ali umas duas horas. Depois de um tempo começou a se movimentar e a gente, pelo meio do deserto, não sabia para onde estava indo. Eu imaginei que a gente pudesse estar indo para algum tipo de tribunal, ou que a gente tivesse algum acesso ao advogado. Só quando eu consegui ver por uma fresta do ônibus a palavra “aeroporto” [foi] que eu entendi que a gente possivelmente ia ser deportado.
Fomos colocados dentro de um avião. Quem informou para onde estávamos indo foi a tripulação. Foi o primeiro momento de liberdade. Eu tava muito preocupado, porque eu ouvia as pessoas sofrendo violência sexual. Então eu pedi pra tripulação poder usar o rádio pra dar uma mensagem. Eu instruí que quem tinha passado por violência sexual, assim que chegasse no destino, fosse ir para o hospital para começar a tomar as profilaxias.
A gente chegou em Istambul. Foram 67 pessoas para o hospital, 12 internações e os mais diversos tipos de lesões: traumatismo cranioencefálico, lesão de vértebra, lesão de nariz, pessoas que tiveram fratura de dente, fratura de costela, pneumotórax, contusão pulmonar, fratura de braço, fratura de tornozelo, rabdomiólise [destruição grave de fibras musculares que pode levar à sobrecarga de órgãos como rins e fígado] e fora o trauma, as pessoas com sintomas de estresse pós-traumático.
Isso me emociona porque eles fraturaram muitos corpos e foram violentos com a gente psicologicamente, mas em nenhum momento tivemos dúvida de que era o correto estar ali. Então, moralmente, a gente saiu intacto.
Eu ouço os relatos dos colegas e a lucidez com que eles falam da Palestina. E a gente sabe que, de fato, o nosso privilégio de passaporte estrangeiro, aquilo ia acabar em algum momento.
Nós temos 9 mil prisioneiros palestinos nesse momento. Quatrocentos são crianças.
Uma criança brasileira palestina morreu na prisão israelense com sinais de tortura física e a causa da morte foi desnutrição. Eles deixaram essa criança sem comida até a morte.
E até esse momento, a família ainda não teve o direito de velar o corpo de Walid Ahmad, que é cidadão brasileiro.
A gente tem também 400 profissionais de saúde presos em Gaza, presos na Palestina ocupada nesse momento. Uma voz, um rosto desses profissionais de saúde é um pediatra e diretor do hospital, que recusou a evacuar o hospital e deixar os seus pacientes para trás. Está preso há mais de 500 dias. E os relatos da família são parecidos: fraturas de costela, problemas de saúde, falta de atendimento médico e nenhuma acusação formal contra ele. Uma detenção ilegal.
