Projeto hidrovíario visa aliviar o gargalo provocado pela construção da maior usina hidrelétrica do mundo

A China iniciou as obras de um projeto de 77,2 bilhões de yuans (US$ 11,4 bilhões) para construir um 2º canal de navegação na Barragem das Três Gargantas, buscando aliviar um grave gargalo na hidrovia interior mais movimentada do país.

A construção começou na 2ª feira (8.jun.2026) em um projeto que inclui 2 componentes principais: um novo canal de trânsito no entroncamento das Três Gargantas e uma expansão da capacidade da Barragem de Gezhouba, rio abaixo. Projetado para frotas de navios de 10.000 toneladas, o projeto visa aliviar o congestionamento no Rio Yangtzé, uma artéria comercial crucial. Seu investimento inicial estimado supera o custo de 72,7 bilhões de yuans (US$ 10,7 bilhões) projetado para o Canal de Pinglu, outro grande projeto hidroviário no sul da China.

A construção do novo canal das Três Gargantas deve levar cerca de 9 anos, enquanto a expansão de Gezhouba levará quase 8. Os trabalhadores devem escavar 160 milhões de metros cúbicos de terra e rocha —aproximadamente o volume de 61 Grandes Pirâmides de Gizé— e despejar mais de 10 milhões de metros cúbicos de concreto.

A navegação tem sido fundamental para a Barragem das Três Gargantas, o maior projeto hidrelétrico do mundo, desde a sua concepção. Durante o planejamento na década de 1980, os engenheiros debateram a altura da barragem, com alguns defendendo uma estrutura mais baixa. Os planejadores optaram, por fim, por uma barragem de 185 metros para estender a navegação em águas profundas rio acima até Chongqing, eliminando dezenas de corredeiras perigosas e trechos rasos.

As eclusas, no entanto, tornaram-se vítimas do próprio sucesso. Quando o sistema de eclusas de 5 estágios foi concluído em 2007, os planejadores previam que o volume anual de carga atingiria sua capacidade projetada de 100 milhões de toneladas até 2030. Em vez disso, o rápido crescimento econômico ao longo do Rio Yangtzé impulsionou os volumes além desse limite em 2011, quase duas décadas antes do previsto.

Niu Xinqiang, ex-presidente do Grupo de Design Changjiang, afirmou que o volume de carga tem aumentado constantemente desde a inauguração da eclusa em 2003. Hoje, mais de 70% da carga a granel, 80% dos contêineres e 90% das mercadorias de comércio exterior que circulam pelo curso principal do Rio Yangtzé dependem do corredor, segundo Zhang Chaoran, ex-engenheiro-chefe da China Three Gorges.

Até 2025, o sistema de eclusas das Três Gargantas terá movimentado 2,24 bilhões de toneladas de carga ao longo de 22 anos. Mas o aumento do tráfego tem levado a um congestionamento persistente.

A Autoridade de Navegação das Três Gargantas afirma que a eclusa opera acima da capacidade há 9 anos consecutivos. Os navios enfrentam uma espera média de 44 horas para atravessar a barragem, com atrasos que chegam a 400 horas, ou mais de 16 dias.

Pequim considera cada vez mais esse gargalo como um obstáculo à integração econômica regional. A pesquisa preliminar sobre um novo canal de trânsito começou em 2013, e o estudo de viabilidade do projeto foi aprovado em 2025. Posteriormente, o projeto foi incluído como prioridade no 15º Plano Quinquenal da China, adotado em março.

O novo canal, que será escavado nas montanhas da margem esquerda da barragem existente, incluirá uma eclusa dupla de 5 estágios com quase 6.700 metros de extensão. Quando estiver em operação, espera-se que aumente a capacidade anual de trânsito do entroncamento das Três Gargantas para 336 milhões de toneladas.

A jusante, a capacidade da Barragem de Gezhouba aumentará para 360 milhões de toneladas depois da demolição de uma eclusa existente e a construção de duas novas eclusas de estágio único.

O governo da província de Hubei afirmou que a obra de escavação está separada da estrutura principal da barragem por algumas colinas e não afetará a geração de energia nem as operações de controle de enchentes.

O projeto também pode trazer alívio para o esturjão chinês, uma espécie criticamente ameaçada de extinção, conhecida como o “rei dos peixes do Yangtzé”. A construção das barragens de Gezhouba e Três Gargantas bloqueou a rota migratória do peixe nas décadas anteriores, praticamente interrompendo sua reprodução natural.

Especialistas em ecologia já haviam solicitado a remoção de um muro de contenção construído pela China Three Gorges sobre as áreas de desova do esturjão, mas nenhuma medida nesse sentido foi tomada. As autoridades provinciais esperam que, uma vez concluído o novo canal, o tráfego de embarcações pelas antigas eclusas diminua drasticamente, reduzindo o ruído e a perturbação nas áreas de desova.

Para limitar o impacto sobre os peixes, os construtores abandonaram as explosões subaquáticas em favor da escavação mecânica. A China Three Gorges Corp. também ajustou seu projeto de engenharia para evitar as áreas de desova do esturjão.

Gao Peng, engenheiro-chefe adjunto da China Three Gorges, afirmou que a alteração no projeto acrescentou 2 bilhões de yuans ao custo total.


Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 11.jun.2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.

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