A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil denunciou episódios de violência contra indígenas após a reeleição do presidente Lula (PT). A entidade encaminhou às autoridades os relatos de pelo menos três casos, dois em Mato Grosso do Sul e um em São Paulo.

Em um deles, a organização cobra uma investigação sobre o assassinato de integrantes de uma mesma família em Naviraí (MS) no último domingo 25, dia do segundo turno. A Apib também denunciou o atropelamento de indígenas em Coronel Sapucaia — um homem morreu.

“As informações encaminhadas à APIB relacionam essas violências ao descontentamento de apoiadores da candidatura derrotada com o resultado das eleições de 25 de outubro de 2026, apontando para atos de retaliação política contra pessoas indígenas”, afirmou a entidade em ofício dirigido ao Ministério Público Federal e ao Ministério dos Povos Indígenas. No mesmo documento, há relatos de denúncias de omissão policial nas ocorrências.

Em outro caso, a Apib reportou ameaças a comunidades de Tacuru e Nioaque (MS). Um áudio que circulou nas redes sociais e foi atribuído a um servidor de Tacuru sugere o envenenamento das comunidades indígenas. “Tem que colocar veneno na água, matar essas pragas na água”, diz o suspeito das ameaças.

Segundo a Apib, as ameaças teriam circulado no WhatsApp entre apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) após a divulgação do resultado do segundo turno. “O conteúdo das mensagens apresenta referências expressas à identidade indígena dos destinatários, ao voto atribuído às comunidades e a possíveis atos de violência, incluindo ameaça de utilização de arma de fogo, envenenamento de água, restrição à liberdade de circulação, privação de serviços essenciais e exclusão do exercício de direitos políticos.”

Em São Paulo, a associação reporta ameaças contra indígenas de Avaí, também no contexto eleitoral.

O que dizem as autoridades

O Ministério Público Federal informou ter iniciado investigações sobre os episódios relatados em Mato Grosso do Sul. Em Naviraí, segundo o órgão, diligências descartaram motivação política. Em um dos casos, o órgão disse se tratar de “tentativa de duplo homicídio decorrente de um desentendimento familiar e interpessoal, sem qualquer motivação política ou étnica”.

Já no município de Tacuru, o órgão deu um prazo de 48 horas para que a prefeitura envie esclarecimentos. Recomendou também a imediata abertura de processo administrativo disciplinar e o afastamento cautelar dos investigados de suas funções. Em vídeo nas redes sociais, o prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), chamou o suspeito de “excelente servidor” e disse que ele seria afastado de suas funções.

Também em nota, o Ministério dos Povos Indígenas disse ter tomado conhecimento das denúncias de violência e ameaças contra os indígenas Guarani e Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, e acionado a Polícia Federal.

“É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência para reprimir e intimidar opiniões diferentes, colocando em risco a vida das pessoas”, afirmou a pasta. “Vivemos em um país democrático em que as diferentes visões de mundo devem ser respeitadas e coexistir de forma pacífica e livre.”

A reportagem de CaratCapital pediu esclarecimentos sobre a denúncia de violência em São Paulo, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto.

Créditos Autor: Ana Luiza Basilio
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