Por seis gestações, Letícia Lima voltou para casa com os braços cheios de amor, mas com um vazio no peito: o sonho de amamentar não havia sido possível. Sem estímulo ou orientação, ela acreditava que esse gesto sublime não era para ela. Mas o destino, aliado ao cuidado especializado, reservou um capítulo diferente para a chegada do pequeno Samuel, no último dia 24, no Hospital Materno-Infantil de Ilhéus, unidade do Governo da Bahia administrada pela Fundação Estatal Saúde da Família (FESF-SUS).
Entre o medo de reviver as frustrações do passado e a rotina fria das bombas de extração, Letícia encontrou algo diferente: braços abertos. A equipe multidisciplinar do HMIJS não olhou apenas para o prontuário, mas para a história de Letícia. Com apoio, técnica e, acima de tudo, paciência, o improvável aconteceu: o contato pele a pele, o calor do corpo e, finalmente, Samuel ao seio. Uma cena que ela garante jamais esquecer.
Letícia é um dos exemplos vitoriosos do projeto Bosque de Aleitamento, que passou a funcionar na unidade nos últimos dias. Trata-se de uma intervenção ambiental não farmacológica e de baixo custo, com a criação de um espaço acolhedor, dedicado ao cuidado, à vida e ao fortalecimento do vínculo entre mãe, bebê e o ato da amamentação.
Por meio de orientações qualificadas, acolhimento e incentivo às mães e famílias, o bosque pretende fortalecer uma rede de solidariedade que salva vidas, especialmente de recém-nascidos prematuros e de baixo peso. A equipe do hospital passou por capacitação técnica e realizou visitas a outros espaços semelhantes em Salvador.
Recuperação mais rápida
Com a iniciativa, as idealizadoras e enfermeiras Bárbara Kruschewsky e Viviane Barreto esperam reduzir quadros de ansiedade materna, aumentar a capacidade de ejeção láctea, elevar a satisfação das mães e estimular a adesão a práticas culturalmente inclusivas. Pesquisas indicam que o tempo de recuperação pós-parto tende a ser reduzido nesse contexto. Letícia, por exemplo, recebeu alta ontem (28).
“Eu já estava preparada para chegar em casa e passar pelo mesmo processo dos outros filhos, comprar uma bombinha e alimentar Samuel. Mas a equipe me disse: ‘você pode, você consegue’”, lembra Letícia. “É uma conexão inexplicável. Tudo é recompensado e se resume a este momento. É lindo”, completa, emocionada.
Acolhimento e humanização
A diretora-geral do Materno-Infantil, enfermeira Renata Lordêlo, destaca que, para a equipe do hospital, cuidar de gente vai muito além do protocolo clínico. “É saber acolher, ouvir os silêncios e transformar histórias por meio da humanização”, afirma.
O Projeto Bosque de Aleitamento apresenta um modelo “impactante e inovador” pelas características que reúne. As duas enfermeiras foram convidadas a apresentar relatos de experiência durante o “1º Congresso Internacional Mame Bem”, evento que tem como propósito “mudar o mundo pela amamentação”. O congresso será realizado no Porto, em Portugal, de 8 a 10 de outubro.
Referência
O Hospital Materno-Infantil é a única maternidade 100% SUS da região. Possui porta aberta, leitos de UTI neonatal, unidade semi-intensiva e método canguru, além de uma ala pediátrica com 23 leitos clínicos e 10 leitos de UTI pediátrica, todos regulados.
Créditos Autor: Marcio Rocha
Créditos Imagens: Reprodução Internet

