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Tropeços frequentes, dificuldade para correr ou pular e uma caminhada diferente podem parecer apenas características do desenvolvimento infantil. No entanto, esses sinais também podem indicar dificuldades motoras que merecem avaliação. Em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), alterações no equilíbrio, na coordenação, na consciência corporal e na postura podem passar despercebidas.

Embora o autismo seja mais associado a diferenças na comunicação, na interação social e no comportamento, o desenvolvimento motor também merece atenção. Além disso, mudanças na forma de caminhar, conhecida como marcha, podem refletir dificuldades relacionadas ao controle motor e ao processamento sensorial.

Quando esses sinais persistem sem acompanhamento, o corpo pode criar formas alternativas de realizar determinados movimentos. Com o tempo, essas compensações podem aumentar a sobrecarga sobre músculos e articulações e interferir na mobilidade.

A neuropsicopedagoga especialista em autismo Silvia Kelly Bosi explica que observar o desenvolvimento motor ajuda a identificar necessidades que nem sempre aparecem nas avaliações tradicionais.

“Durante muito tempo, as alterações motoras foram tratadas como uma característica secundária do autismo. Hoje sabemos que elas podem impactar diretamente a autonomia, a funcionalidade e a qualidade de vida da pessoa. O corpo também comunica sinais importantes que não podem ser ignorados”, afirma.

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Como o autismo pode afetar a marcha

A marcha envolve diferentes habilidades que precisam funcionar de maneira coordenada. Equilíbrio, força muscular, planejamento motor, coordenação e processamento sensorial participam, por exemplo, de cada etapa da caminhada.

Por isso, quando uma dessas habilidades apresenta alguma dificuldade, a forma de andar pode mudar. Estudos sobre o desenvolvimento motor no TEA descrevem alterações como menor estabilidade corporal, mudanças no comprimento dos passos, dificuldades de coordenação e diferenças na distribuição do peso durante a caminhada.

A fisioterapeuta Nathalia Barreto Castro Leitão explica que uma alteração na marcha não deve ser analisada apenas pela maneira como a pessoa caminha.

“A marcha depende da integração entre equilíbrio, coordenação, força muscular, planejamento motor e processamento sensorial. Quando existe alguma dificuldade nesses sistemas, podem surgir padrões compensatórios que afetam a mobilidade, a postura e a participação da criança em atividades do dia a dia. Por isso, a avaliação precoce é tão importante”, explica.

Além disso, pesquisas publicadas em periódicos como Research in Autism Spectrum Disorders e Journal of Autism and Developmental Disorders descrevem alterações motoras, de equilíbrio e de controle postural em parte da população com TEA.

Isso, porém, não significa que toda pessoa autista apresente dificuldades motoras. O espectro é amplo e cada indivíduo apresenta características próprias. Por essa razão, a avaliação deve considerar o desenvolvimento e a funcionalidade de cada pessoa.

Quais sinais motores merecem atenção

Como algumas alterações aparecem gradualmente, familiares e profissionais podem ter dificuldade para percebê-las. Muitas vezes, a atenção se concentra nas características comportamentais, na comunicação ou nas necessidades educacionais da criança. Assim, questões relacionadas ao movimento acabam ficando em segundo plano.

Segundo Silvia, alguns comportamentos cotidianos podem indicar que a criança precisa de uma avaliação mais detalhada.

“Muitas vezes os pais observam que a criança tropeça com frequência, anda de forma diferente, apresenta desalinhamentos corporais ou dificuldade para realizar movimentos simples. Como o foco normalmente está em outras demandas do autismo, essas questões podem acabar sendo subestimadas”, explica.

Entre os sinais que podem chamar atenção estão:

  • tropeços ou quedas frequentes;
  • dificuldade para correr ou pular;
  • dificuldade para manter o equilíbrio;
  • movimentos pouco coordenados;
  • dificuldade para perceber a posição do próprio corpo;
  • alterações persistentes na postura;
  • dificuldade para realizar determinados movimentos;
  • esforço excessivo durante atividades motoras.

No entanto, a presença de um desses sinais não significa, por si só, que exista uma alteração relacionada ao autismo. O acompanhamento profissional ajuda a investigar as causas e identificar as necessidades de cada pessoa.

Consciência corporal também influencia os movimentos

Além da marcha e da postura, a consciência corporal tem papel importante no desenvolvimento. Essa habilidade permite perceber a posição do corpo, seus movimentos e seus limites no espaço.

Em algumas pessoas com TEA, diferenças no processamento sensorial podem interferir nessa percepção. Como consequência, a criança pode apresentar dificuldade para organizar determinados movimentos ou manter uma postura durante uma atividade.

“A conscientização corporal ajuda a pessoa a entender como seu corpo funciona e como ele se relaciona com o ambiente. Quando esse processo é estimulado adequadamente, observamos ganhos importantes na coordenação motora, na estabilidade, na postura e até na participação em atividades escolares, esportivas e sociais”, destaca Silvia.

Além disso, trabalhar a percepção corporal pode favorecer tarefas simples do cotidiano. Vestir-se, brincar, participar de atividades físicas e circular por diferentes ambientes, por exemplo, exigem que a pessoa reconheça a posição e o movimento do próprio corpo.

Para Nathalia, esse desenvolvimento também pode contribuir para a autonomia.

“Quando a criança compreende melhor seu corpo e seus movimentos, ela passa a executar atividades com mais segurança e eficiência. Isso favorece a independência, a confiança e a participação em diferentes contextos sociais e educacionais”, afirma.

A avaliação precoce ajuda a evitar sobrecargas

Identificar dificuldades motoras durante a infância permite acompanhar o desenvolvimento e, quando necessário, iniciar estratégias específicas. Dessa forma, o objetivo não é padronizar os movimentos da pessoa autista, mas ampliar sua funcionalidade e segurança.

Dependendo das necessidades identificadas, o acompanhamento pode incluir atividades psicomotoras e exercícios voltados ao equilíbrio, à coordenação e à percepção corporal. Além disso, profissionais podem trabalhar estratégias relacionadas ao processamento sensorial.

“Não se trata apenas de corrigir uma postura inadequada. O objetivo é ensinar o cérebro a construir padrões motores mais eficientes. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as chances de prevenir compensações que podem gerar deformidades ou limitações funcionais no futuro”, explica Silvia.

Nesse contexto, a fisioterapia também pode avaliar a qualidade dos movimentos e trabalhar aspectos como força, equilíbrio e coordenação. O acompanhamento ainda permite observar possíveis sobrecargas musculares e articulares.

Quando uma alteração postural ou de marcha não é identificada precocemente, o corpo cria mecanismos de compensação para realizar determinadas tarefas. Com o passar dos anos, isso pode gerar sobrecarga muscular, desconfortos e limitações funcionais. O acompanhamento fisioterapêutico busca justamente promover movimentos mais eficientes, seguros e saudáveis”, ressalta Nathalia.

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Intervenções motoras podem melhorar a funcionalidade

Revisões sistemáticas sobre intervenções motoras em crianças com TEA apontam resultados positivos em aspectos como controle postural, coordenação e habilidades funcionais.

Ainda assim, os resultados variam de acordo com as características de cada criança. Por isso, profissionais precisam avaliar quais habilidades apresentam maior dificuldade e quais estratégias fazem sentido para aquela pessoa.

Além disso, a participação da família pode facilitar a continuidade dos estímulos fora do ambiente terapêutico. Atividades adequadas à rotina da criança podem ajudar a reforçar habilidades trabalhadas durante o acompanhamento.

Um olhar além do comportamento

Para Silvia Kelly Bosi, considerar os aspectos físicos amplia a compreensão sobre o desenvolvimento de pessoas com TEA.

“Quando cuidamos apenas das questões comportamentais e cognitivas, deixamos de observar uma parte importante do desenvolvimento. O corpo também precisa ser estimulado, compreendido e acompanhado. Investir na consciência corporal e nas correções posturais não significa apenas prevenir deformidades; significa promover mais autonomia, independência e qualidade de vida para pessoas com autismo”, conclui.

Da mesma forma, Nathalia destaca a importância de um acompanhamento individualizado e integrado.

“Cada pessoa com autismo possui características motoras e sensoriais próprias. Por isso, o acompanhamento deve ser individualizado e construído de forma multidisciplinar. Quando diferentes profissionais e familiares trabalham em conjunto, os ganhos em mobilidade, funcionalidade e qualidade de vida tendem a ser mais consistentes e duradouros”, conclui.

Créditos Autor: Isabela
Créditos Imagens: Reprodução Internet

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