A Assembleia-Geral da ONU em 2026 contrasta com a edição do ano passado no que se refere ao clima entre Lula (PT) e Donald Trump: de uma “excelente química” para a falta de um encontro, ainda que informal e na antessala do plenário. Este momento é muito mais grave e ocorre em um cenário de interferência ativa dos Estados Unidos na eleição brasileira, avalia Roberto Abdenur, embaixador do Brasil em Washington entre 2004 e 2006, em entrevista a CartaCapital.

Para Abdenur, essa ingerência no pleito presidencial de outubro parte especialmente do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio — “esnobado” por Lula na ONU, como flagrou a colaboradora correspondente de CartaCapital em Nova York, Clarissa Carvalhaes.

“Nosso ‘inimigo’ nos EUA não é propriamente Trump, é mais Rubio, que degenerou uma postura política moderada e em favor da democracia para uma paranoia de extrema-direita”, disse o experiente diplomata. Paira sobre o secretário uma “nuvem de teoria conspiratória”, enxergando “risco de terrorismo” em qualquer governo latino-americano que não reze a cartilha de Trump, Jair Bolsonaro e semelhantes.

É neste contexto que, segundo Abdenur, Lula proferiu um discurso “muito feliz” nesta terça-feira 22, dividido em três planos: sobre sua visão a respeito das relações internacionais, sobre recados aos EUA e sobre mensagens ao Brasil. “Foi um pronunciamento equilibrado e firme”, resumiu. “Muito claro, sem ser contundente. Ele não bateu pessoalmente no Trump, não busca briga com os EUA.”

Se Lula optou por defender na ONU, diante dos olhos atentos da comunidade internacional, a vitória do multilateralismo, da democracia e da soberania, Trump usou a tribuna logo depois do petista para, entre outros arroubos, ameaçar a América Latina. “Os EUA não vão mais permitir que as ameaças contra a América Latina ganhem terreno em nenhum lugar do hemisfério ocidental”, disparou o republicano. “E, se necessário, usaremos nosso poderio militar sem igual.”

É a “Doutrina Donroe”, ressalta Roberto Abdenur, uma grosseira atualização trumpista da Doutrina Monroe, de 1823, que originalmente firmava a oposição de Washington a eventuais intervenções europeias no continente americano. Foi, de início, uma declaração simbólica, mas tudo mudou décadas depois com o uso do documento para sustentar uma política imperialista.

“A atual doutrina de segurança nacional aponta as Américas como área prioritária para a segurança nacional dos EUA. Mas não há perigos sérios provenientes da região”, critica o ex-embaixador. “Trump destruiu a ordem política e econômica que prevaleceu durante 80 anos para criar uma situação de caos em que pode usar abusivamente do poder americano.”

As tarifas, acrescenta Abdenur, viraram um braço civil da força armada norte-americana, como atesta a perseguição ao Brasil. “Trump não tem propriamente uma visão do mundo. Acha que o mundo está à mercê dos EUA e que ele pode usar o poder militar contra os cartéis.”

No caso do Brasil, há passos concretos da Casa Branca rumo a uma ingerência na segurança pública, a exemplo da designação das facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. “Poderia haver uma ação armada em território brasileiro contra os territórios dominados pelo narcotráfico, pela criminalidade, mas acho muito difícil de acontecer isso no caso do Brasil”, pondera o ex-embaixador. “Em casos de países menores da América Central, pode ser até que ocorra.”

Roberto Abdenur tem uma extensa trajetória diplomática: chegou ao Itamaraty em 1963 e se afastou em 2007. Testemunhou da Guerra Fria à invasão do Iraque, passando pelo fim da União Soviética.

Como representante da gestão Lula em Washington, teve a complexa tarefa de reduzir a resistência da Casa Branca ao primeiro governo de esquerda do Brasil pós-redemocratização. O resultado foi positivo: o petista, antes visto apenas como aliado de Fidel Castro, construiu uma relação harmoniosa com George W. Bush. Com Trump no poder, no entanto, o buraco é mais embaixo.

Créditos Autor: Leonardo Miazzo
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