Apesar de deter a 2ª maior reserva mundial de terras-raras, atrás apenas da China, o Brasil ainda precisa superar gargalos tecnológicos e ambientais para consolidar uma cadeia produtiva nacional. O grupo de 17 elementos químicos metálicos é essencial para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones e outros produtos de alta tecnologia.

Para desenvolver o setor, o país precisa construir unidades de separação e refino e, em uma etapa posterior, dominar a produção de ímãs permanentes de alta potência, capazes de manter propriedades magnéticas por décadas.

A avaliação é de Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), durante palestra na FAPESP Week Londres, realizada no Science Museum, em Londres.

Promovido pela FAPESP e parceiros britânicos de 2 a 4 de junho, o evento busca ampliar a colaboração científica entre pesquisadores paulistas e do Reino Unido em áreas estratégicas.

“As reservas de terras-raras representam apenas o potencial do país no setor. O que importa é a capacidade de obtenção de carbonato”, afirmou Landgraf.

O carbonato é o composto que antecede a separação dos 17 elementos químicos e serve de matéria-prima para a fabricação de ímãs de alta potência, hoje no centro da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.

Segundo o pesquisador, cada tonelada de ímã demanda aproximadamente 2 toneladas de carbonato. Se a demanda global alcançar 150 mil toneladas de ímãs por ano, serão necessárias cerca de 300 mil toneladas anuais de carbonato.

Com produção estimada em 20 mil toneladas por ano, as mineradoras brasileiras atenderiam atualmente menos de 6% dessa demanda. O percentual, porém, pode crescer com os projetos de mineração anunciados no país.

“Há cerca de 10 projetos de mineração de terras-raras em andamento no país, em diferentes estágios de desenvolvimento. Dois deles, da Serra Verde, em Minaçu (GO), e da ADL, em São Francisco de Itabapoana (RJ), já estão em produção”, disse.

Desafios ambientais e tecnológicos

Na avaliação de Landgraf, o primeiro desafio é ambiental. Segundo ele, ainda faltam parâmetros consolidados para monitorar e reduzir os impactos químicos da atividade mineradora.

“Essa resposta ainda não está consolidada. É uma questão aberta do ponto de vista tecnológico e seria interessante haver mais transparência das mineradoras”, afirmou à Agência FAPESP.

O principal gargalo, no entanto, está na separação dos elementos. As argilas iônicas encontradas no Brasil têm composições variadas de terras-raras, o que torna complexa a concentração dos elementos mais valiosos, como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

O processo exige domínio da tecnologia de extração por solventes, além da capacidade de lidar com contaminantes do minério, como óxidos de alumínio e ferro.

Segundo Landgraf, o Brasil também precisa desenvolver a produção local dos extratantes químicos usados nesse processo.

A China acumulou décadas de experiência nessas etapas, mas divulga poucas informações técnicas.

“A China não publica muito sobre isso. Aprender com cientistas chineses não é exatamente fácil nessas questões”, declarou.

Para o pesquisador, uma possível frente de cooperação com o Reino Unido está na fabricação de ímãs e no monitoramento ambiental da mineração.

Desenvolvimento de competências

Landgraf afirmou que o país já construiu parte da base científica necessária para avançar na cadeia produtiva.

O INCT Patria (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Processamento e Aplicação de Ímãs de Terras-Raras), criado em 2014, reuniu pesquisadores de diferentes regiões para desenvolver tecnologias ligadas aos superímãs.

Mais recentemente, foi lançado o INCT Materia, coordenado por Sérgio Michielon, da Universidade Federal do Amazonas, que reúne 15 instituições para desenvolver aplicações de terras-raras voltadas à transição energética.

Pesquisas sobre separação dos elementos também são conduzidas no Cetem, no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear e na Poli-USP.

Já o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) trabalha na obtenção de neodímio metálico e na fabricação da liga ferro-neodímio-boro, base dos ímãs de alto desempenho.

A etapa final da produção foi estudada no Ipen e desenvolvida principalmente pela Universidade Federal de Santa Catarina em parceria com a USP. Entre as iniciativas mais recentes está a fabricação de ímãs por impressão 3D.

Em Minas Gerais, um laboratório-fábrica de ímãs de terras-raras está sendo implantado pelo Centro de Inovação e Tecnologia do Senai com apoio da UFSC.

“Vamos gastar cerca de dois anos para aprender a produzir esses ímãs com a qualidade exigida pelo mercado”, afirmou Landgraf.


Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 3 de maio de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

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