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A morte da empresária Andréia Vieira Gaspar, de 51 anos, após a realização de seis procedimentos estéticos em Goiânia trouxe atenção para os cuidados que pacientes devem tomar antes de escolher um profissional e um estabelecimento de saúde. Andréia havia viajado da Espanha para o Brasil para realizar procedimentos na face e morreu algumas horas depois das intervenções.

As circunstâncias da morte ainda estão sob investigação. O caso ganhou repercussão depois que detalhes dos procedimentos realizados antes da morte foram divulgados.

Além disso, outras pacientes relataram experiências negativas e sequelas após procedimentos realizados pelo mesmo profissional. Esses relatos, porém, precisam de identificação das fontes e de apuração individual antes de serem tratados como fatos comprovados.

Diante do caso, a escolha de um profissional para realizar um procedimento estético não deve considerar apenas fotografias de antes e depois, indicações ou o conteúdo publicado nas redes sociais. Formação, especialização, experiência, histórico de saúde do paciente, riscos, estrutura do estabelecimento e acompanhamento depois do procedimento também precisam fazer parte da avaliação.

Formação e especialização devem ser pesquisadas

Uma das primeiras medidas antes de escolher um médico é verificar sua formação e sua especialização. Para isso, o paciente pode consultar o Conselho Federal de Medicina (CFM), que disponibiliza a ferramenta Busca por Médicos.

A consulta permite verificar informações do profissional, como registro, situação da inscrição, especialidade e área de atuação. No caso da cirurgia plástica, o paciente também pode consultar a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e verificar se o profissional integra a entidade por meio da ferramenta Encontre um Cirurgião.

Para o médico Ramon Ramalho, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a escolha não deve ocorrer somente com base em redes sociais, indicações ou resultados divulgados na internet.

“Uma das questões mais importantes é a necessidade de buscar informações sobre a formação e a especialização do médico. O paciente deve reservar um tempo para verificar essas informações.

No caso da cirurgia plástica, é possível consultar a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a regional da Sociedade no estado. O órgão possui um site específico em que pacientes e pessoas que não são da área médica podem consultar a formação do profissional, sua especialidade e seu histórico de atuação.

É muito importante verificar se o médico realmente faz parte da Sociedade e se possui a especialização adequada. Essa busca por profissionais qualificados deve acontecer em todas as áreas.

Quando precisamos de um arquiteto, engenheiro ou outro profissional, por exemplo, procuramos alguém devidamente habilitado e buscamos referências. Na área médica, não deve ser diferente.”

A formação do cirurgião plástico

Além de verificar o registro e a especialidade, o paciente pode buscar informações sobre o percurso de formação do profissional. De acordo com Ramon Ramalho, a formação de um cirurgião plástico envolve diferentes etapas de preparação.

“A formação de um cirurgião plástico é longa e exige uma preparação específica. De modo geral, são seis anos de faculdade de Medicina, seguidos por três anos de residência em Cirurgia Geral e, posteriormente, mais três anos de formação em Cirurgia Plástica.

Depois dessa formação, o médico ainda pode realizar um ou dois anos de fellowship, que consiste em um período de aperfeiçoamento e acompanhamento em hospitais e serviços credenciados pela SBCP.

Essa etapa permite que o profissional se aprofunde em uma área específica, de acordo com seu interesse e sua atuação.

Portanto, estamos falando de uma formação que pode levar muitos anos, além de toda a formação acadêmica. Esse período é fundamental para que o médico adquira conhecimento e experiência antes de começar a realizar procedimentos de cirurgia plástica.

Por isso, é importante que o paciente procure profissionais que tenham uma formação completa e adequada.

Não se trata de uma garantia de que não haverá intercorrências ou complicações, porque nenhum procedimento médico é isento de riscos. Porém, uma boa formação oferece ao profissional uma preparação muito mais adequada para realizar os procedimentos e lidar com possíveis situações adversas”.

Resultados nas redes sociais não garantem o mesmo efeito

As redes sociais também passaram a ocupar espaço importante na escolha de profissionais que realizam procedimentos estéticos. Fotografias de antes e depois, vídeos, depoimentos e avaliações podem influenciar a decisão de quem procura uma intervenção.

No entanto, um resultado publicado nas redes sociais não representa uma promessa de que o mesmo efeito acontecerá com todos os pacientes.

A própria Meta já informou ter tomado medidas contra serviços que vendiam engajamento falso no Instagram. Em 2022, a empresa anunciou duas ações judiciais no Brasil contra serviços que comercializavam seguidores, curtidas e visualizações falsas. Na ocasião, a Meta também informou que havia enviado notificações extrajudiciais para mais de 40 empresas brasileiras que ofereciam serviços semelhantes. A empresa também adotou medidas contra serviços que ofereciam avaliações e comentários falsos para melhorar artificialmente a percepção sobre determinados negócios.

Por isso, números de seguidores, curtidas, comentários e avaliações não devem ser considerados isoladamente na escolha de um profissional.

Ramon Ramalho explica que cada paciente possui características próprias e pode apresentar uma resposta diferente ao mesmo procedimento.

“O resultado apresentado nas redes sociais não deve ser visto como uma promessa para todos os pacientes.

Cada pessoa possui características físicas, condições de saúde e respostas diferentes a um procedimento.

Por isso, mesmo diante de resultados que parecem excelentes nas redes sociais, o paciente precisa entender que aquele resultado não necessariamente será possível para ele.

A decisão deve ser baseada em uma avaliação individualizada, e não apenas naquilo que é apresentado nas redes.

Consulta deve permitir perguntas e avaliação do paciente

Depois de pesquisar a formação do profissional, o paciente precisa utilizar a consulta para conhecer melhor o procedimento e entender se aquela intervenção é adequada para sua situação.

A consulta permite que o médico conheça o histórico de saúde do paciente, avalie suas condições clínicas e solicite exames quando necessário. Além disso, esse momento deve servir para explicar os riscos, as possibilidades e as limitações do procedimento.

Durante a consulta, o paciente também pode observar se o profissional demonstra abertura para perguntas e se apresenta as informações de maneira clara.

Entre as perguntas que podem ajudar nesse momento estão:

  • Qual é a formação e a experiência do profissional nesse procedimento?
  • Quais são os riscos envolvidos?
  • Quais exames serão necessários?
  • Quantos procedimentos serão realizados e por quê?
  • Qual será o tempo estimado da cirurgia?
  • Como será o período de recuperação?
  • Quem acompanhará o paciente após o procedimento?

Para Ramon Ramalho, a primeira consulta precisa incluir uma avaliação detalhada do paciente.

“Em uma primeira consulta, alguns pontos são fundamentais. O primeiro deles é a empatia e a disposição do médico para ouvir o paciente, esclarecer todas as dúvidas e oferecer um atendimento cuidadoso.

Também é fundamental que o médico faça uma boa anamnese, com perguntas detalhadas sobre o histórico de saúde do paciente.

É importante investigar doenças anteriores ou atuais, alergias, inclusive a medicamentos, cirurgias já realizadas e outras condições que possam interferir no procedimento.

Além disso, o médico deve buscar informações sobre o histórico familiar, principalmente quando houver doenças que possam estar relacionadas à cirurgia ou à condição que levou o paciente a procurar aquele profissional.

A realização dos exames necessários também é muito importante.

Tudo isso faz parte de uma avaliação adequada e permite que o médico conheça melhor o paciente e identifique possíveis fatores de risco antes de indicar ou realizar um procedimento.

Por isso, uma primeira consulta não deve ser rápida.

O médico precisa ter paciência para escutar, tempo para fazer uma avaliação completa e, principalmente, permitir que o paciente faça todas as perguntas e esclareça suas dúvidas.

Essa relação de confiança e esse cuidado são fundamentais para uma consulta bem conduzida.”

Imagem: Magnific

Escolha do estabelecimento também exige pesquisa

A pesquisa não deve terminar no profissional. O paciente também precisa conhecer o hospital, a clínica ou o estabelecimento onde o procedimento será realizado.

O Conselho Federal de Medicina disponibiliza uma ferramenta de Busca por Estabelecimentos de Saúde, que permite consultar serviços de saúde registrados e informações relacionadas a esses locais.

Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta que o paciente verifique se o estabelecimento possui autorização para funcionar e observe condições de estrutura, higiene e conservação. As orientações estão reunidas na campanha Procedimento Seguro e na página Estabelecimento Seguro.

Assim, antes de realizar uma intervenção, o paciente deve procurar saber onde o procedimento será realizado, quais profissionais estarão presentes e como funcionará o atendimento caso ocorra alguma intercorrência.

Também é importante entender como ocorrerá o acompanhamento nas horas e nos dias seguintes à cirurgia.

Ramon Ramalho destaca que a relação estabelecida entre médico e paciente desde a primeira consulta também pode indicar como será o acompanhamento durante o tratamento.

“É importante a relação médico-paciente.

Se o médico demonstrou atenção e cuidado desde o pré-operatório, desde a primeira consulta, e manteve esse acompanhamento nas consultas seguintes, provavelmente também terá essa mesma postura durante e depois da cirurgia.

Por outro lado, um médico que atende de forma muito rápida, não permite que o paciente fale e não demonstra disposição para acolhê-lo pode não oferecer o acompanhamento necessário no período pós-operatório.

Se o profissional não teve atenção na primeira consulta, é possível que essa mesma falta de atenção se repita posteriormente.

Na minha opinião, essas características também fazem parte de um bom cirurgião, sempre considerando, é claro, que o procedimento seja realizado em um bom centro cirúrgico e em um hospital adequado.”

Produtos utilizados também precisam de atenção

Além de pesquisar o profissional e o estabelecimento, o paciente deve perguntar quais produtos e materiais serão utilizados durante o procedimento.

A Anvisa orienta que o paciente procure informações sobre o produto, como nome, composição, validade, riscos e cuidados necessários depois da aplicação.

A agência também aponta situações que merecem atenção, como promessas de resultados milagrosos ou revolucionários, preços muito baixos, dificuldade para realizar uma avaliação antes do procedimento e profissionais que não esclarecem as dúvidas do paciente.

No caso de produtos utilizados em procedimentos estéticos, a regularização depende da finalidade e da categoria do produto. Por isso, o paciente deve buscar informações antes de aceitar a aplicação de qualquer substância.

Decisão deve ser tomada sem pressão

Procedimentos eletivos exigem uma decisão consciente. O paciente precisa ter tempo para pesquisar, comparar informações e esclarecer dúvidas antes de marcar uma cirurgia.

Nesse sentido, uma pressão para decidir rapidamente, promessas de resultados garantidos ou a falta de espaço para perguntas devem servir como motivos para interromper a decisão e buscar mais informações.

O paciente também deve desconfiar de promessas de perfeição ou de resultados que profissionais apresentam como garantidos.

Ramon Ramalho explica que expectativas exageradas podem criar uma percepção diferente daquela que o procedimento realmente consegue oferecer.

“Quando um profissional cria expectativas exageradas em relação aos resultados de uma cirurgia, ele não está agindo de maneira adequada.

Hoje, precisamos trabalhar com condutas realistas e deixar claro para o paciente que nem sempre será possível alcançar exatamente o resultado que ele deseja.

Eu entendo que o desejo do paciente é sempre buscar a perfeição, mas nós temos limitações.

O resultado de uma cirurgia plástica não depende exclusivamente da atuação do cirurgião.

Também existem fatores relacionados à genética e às características individuais do paciente, além de aspectos do pós-operatório, como repouso, alimentação e os cuidados recomendados”

O que pesquisar antes de um procedimento estético?

Antes de marcar um procedimento, o paciente pode reunir as principais informações em uma lista de verificação:

  • Formação: verificar a graduação, o registro profissional e a especialidade.
  • Experiência: perguntar sobre a experiência do profissional naquele procedimento.
  • Consulta: observar se o médico realiza uma avaliação detalhada e permite perguntas.
  • Histórico de saúde: informar doenças, alergias, cirurgias anteriores e outras condições relevantes.
  • Exames: confirmar quais avaliações serão necessárias antes da intervenção.
  • Riscos: entender as possíveis complicações e limitações do procedimento.
  • Procedimento: saber quais intervenções serão realizadas e por que elas foram indicadas.
  • Tempo de cirurgia: perguntar quanto tempo o procedimento deve durar.
  • Recuperação: entender como será o período pós-operatório.
  • Estabelecimento: pesquisar o hospital, clínica ou local onde a intervenção ocorrerá.
  • Equipe: saber quais profissionais estarão envolvidos.
  • Pós-operatório: perguntar quem fará o acompanhamento depois da cirurgia.
  • Produtos: conhecer as substâncias e os materiais utilizados.
  • Expectativas: desconfiar de promessas de resultados garantidos ou perfeitos.
  • Tempo para decidir: evitar decisões tomadas sob pressão.

Investigação sobre a morte de Andréia Gaspar

No caso de Andréia Gaspar, as circunstâncias da morte continuam sob investigação.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, o Ministério Público de Goiás solicitou investigação policial para apurar as circunstâncias do caso. Posteriormente, a polícia realizou a exumação do corpo para a realização de exames periciais.

As informações divulgadas sobre o caso também apresentam versões da família, do médico responsável pelos procedimentos e do Hospital Ankar.

A família questiona aspectos relacionados ao atendimento e aos cuidados antes e depois da cirurgia. Por outro lado, as defesas do profissional e do hospital afirmam que os protocolos foram seguidos e que a estrutura necessária estava disponível.

As alegações apresentadas pelas partes ainda fazem parte do contexto da investigação e não representam, por si só, uma conclusão sobre eventual responsabilidade pela morte.

Portanto, a apuração deverá reunir elementos para esclarecer as circunstâncias da morte e as condições relacionadas aos procedimentos realizados.

Independentemente do andamento da investigação, o caso chama atenção para a importância de pesquisar informações antes de qualquer procedimento estético.

Verificar a formação do profissional, conhecer os riscos, avaliar o estabelecimento, fazer perguntas durante a consulta e entender como funcionará o acompanhamento pós-operatório são etapas importantes para que o paciente tome uma decisão informada.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Créditos Autor: Isabela
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