O tabagismo continua sendo uma das principais causas evitáveis de doenças e mortes no mundo. E, apesar dos avanços nas políticas de controle do tabaco, os números recentes mostram que o problema ainda está longe de ser superado.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que cerca de 11,5% dos adultos brasileiros são fumantes. Além disso, levantamentos mais recentes indicam um aumento na prevalência do tabagismo entre 2023 e 2024, interrompendo uma tendência de queda observada ao longo dos últimos anos.
O cenário preocupa especialistas, sobretudo diante da crescente popularização dos cigarros eletrônicos e dispositivos à base de nicotina entre adolescentes e jovens adultos.
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), aproximadamente 174 mil mortes são registradas todos os anos no Brasil em decorrência de doenças relacionadas ao tabagismo.
No entanto, especialistas reforçam que abandonar o cigarro continua sendo uma das decisões mais importantes para a saúde em qualquer fase da vida.
Para entender os desafios da dependência e os caminhos para superá-la, o Portal ComSaúde Bahia conversou com o médico Gilberto Ururahy, especialista em medicina preventiva, diretor-médico da SP Check-up e da Med-Rio Check-up, membro honorário da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação, condecorado com a Medalha da Academia Nacional de Medicina da França, Conselheiro Estratégico da ABRH-Brasil e autor de diversos livros sobre saúde e comportamento.
Por que a nicotina causa tanta dependência?
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a dependência do cigarro não está relacionada apenas ao hábito de fumar.
A nicotina atua diretamente nos circuitos cerebrais ligados ao prazer e à recompensa. Com o uso repetido, o cérebro passa a associar a substância a diversos momentos da rotina, criando um ciclo difícil de interromper.
“A nicotina provoca dependência porque age diretamente nos circuitos de recompensa do cérebro. Ela estimula a liberação de dopamina, substância ligada à sensação de prazer e recompensa“, explica Gilberto Ururahy.
Segundo o especialista, o cigarro costuma ser incorporado a situações cotidianas, como o café da manhã, intervalos no trabalho, encontros sociais e momentos de ansiedade.
Por isso, abandonar o tabagismo envolve muito mais do que simplesmente deixar de fumar.
“Parar de fumar não é apenas abandonar uma substância. É reorganizar uma rotina física, emocional e comportamental construída ao longo do tempo”, afirma.
O corpo começa a se recuperar rapidamente
Uma das informações que mais surpreendem os pacientes é a rapidez com que o organismo reage à interrupção do tabagismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 20 minutos após o último cigarro a pressão arterial e a frequência cardíaca começam a diminuir.
Em 12 horas, os níveis de monóxido de carbono no sangue retornam ao normal.
Entre duas e doze semanas, a circulação melhora e a função pulmonar aumenta.
Já após um ano sem fumar, o risco de doença coronariana cai aproximadamente pela metade em comparação com quem continua fumando.
“O cérebro começa a se readaptar conforme a pessoa permanece sem nicotina, e o corpo responde rapidamente à mudança”, destaca o médico.
Não existe fórmula única para parar de fumar
Embora existam tratamentos eficazes, não há uma estratégia universal que funcione para todos os fumantes.
Segundo Gilberto Ururahy, cada pessoa possui uma relação diferente com o cigarro, o que exige uma abordagem individualizada.
“As estratégias mais eficazes são aquelas que combinam mudança de comportamento, organização da rotina e, quando necessário, recursos terapêuticos com acompanhamento profissional“, afirma.
Entre os recursos disponíveis estão a terapia comportamental, medicamentos específicos e a reposição de nicotina por meio de adesivos, gomas ou pastilhas.
No entanto, o especialista ressalta que esses recursos apresentam melhores resultados quando fazem parte de um plano mais amplo de promoção da saúde.
“Parar de fumar não é apenas abandonar o cigarro. É ajudar o corpo a recuperar equilíbrio físico, emocional e metabólico para que a mudança seja sustentável.”
Cigarros eletrônicos representam uma nova ameaça
Nos últimos anos, cigarros eletrônicos, vapes e sachês de nicotina passaram a ser vistos por muitas pessoas como alternativas menos nocivas ao cigarro convencional.
No entanto, especialistas alertam que essa percepção é equivocada.
“O desafio de quem deseja abandonar o cigarro não é apenas deixar de fumar. É depender cada vez menos da nicotina. Quando ela continua presente por meio de outro dispositivo, o cérebro permanece recebendo estímulos semelhantes aos que sustentam o vício“, alerta.
Segundo o médico, muitos desses produtos possuem concentrações elevadas de nicotina e podem manter ou até intensificar a dependência.
Além disso, o apelo tecnológico e os sabores atrativos têm contribuído para a aproximação de adolescentes e jovens desses dispositivos.
“Existe também uma questão geracional. Diversos especialistas têm alertado que esses produtos acabaram atraindo jovens que talvez nunca tivessem iniciado o consumo do cigarro convencional.”
Como enfrentar os primeiros dias sem cigarro
Ansiedade, irritabilidade e fissura costumam fazer parte do processo de adaptação à ausência da nicotina.
Por isso, especialistas recomendam estratégias simples para enfrentar esse período.
Beber água, caminhar, conversar com alguém, mudar de ambiente e praticar exercícios de respiração estão entre as medidas que podem ajudar.
Antes de tudo, porém, é importante compreender que esses sintomas são temporários.
“Esses sintomas são esperados. Eles não significam que a pessoa está fracassando. Significam que o organismo está se adaptando à ausência da nicotina e reaprendendo a funcionar sem ela.”
Além disso, trabalhar com metas de curto prazo pode facilitar o processo.
“Em vez de pensar ‘nunca mais vou fumar’, algumas pessoas lidam melhor com objetivos mais próximos, como atravessar aquele dia ou aquela situação específica sem recorrer ao cigarro.”
Recaídas não significam fracasso
Outro alerta importante feito pelo especialista diz respeito à culpa associada às recaídas.
Muitas pessoas abandonam completamente o tratamento após voltar a fumar. Entretanto, essa não é a melhor estratégia.
“Eu prefiro falar em equívocos de estratégia, não em erros. Quem tenta parar de fumar já está fazendo um movimento importante em direção à saúde.”
Segundo ele, cada tentativa fornece informações importantes sobre gatilhos, comportamentos e situações de risco.
“A mudança não precisa ser perfeita para ser válida. O mais importante é transformar cada tentativa em informação.”
A melhor decisão continua sendo não começar
Embora existam tratamentos eficazes para a dependência da nicotina, especialistas reforçam que a prevenção continua sendo a melhor estratégia.
Em um momento em que cigarros eletrônicos e novos dispositivos atraem cada vez mais jovens, ampliar o acesso à informação torna-se fundamental.
Para quem nunca fumou, a orientação é clara: não começar.
Para quem já fuma, a mensagem também é direta.
“Nunca é tarde para parar de fumar. O organismo possui uma capacidade importante de recuperação. Independentemente da idade ou do tempo de tabagismo, parar de fumar sempre produz benefícios.”
Mais do que abandonar um hábito, deixar o cigarro para trás representa um investimento na saúde, na qualidade de vida e no futuro.
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Tabagismo: os caminhos para abandonar o cigarro e ganhar mais saúde
Créditos Autor: Redação
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