A proximidade do defeso eleitoral, período legal que proíbe governantes de inaugurar obras públicas ou realizar anúncios institucionais nos meses que antecedem o pleito, instalou um clima de verdadeiro desespero nos bastidores do Palácio do Planalto e do Palácio de Ondina. Em uma corrida frenética para emplacar conquistas artificiais e faturar dividendos políticos de última hora, o presidente Lula da Silva (PT) protagonizou uma cena emblemática no Rio Grande do Norte ao inaugurar oficialmente uma adutora completamente seca, evidenciando que o palanque e a fotografia pesam muito mais do que a utilidade real do serviço para a população.

O vexame hídrico ocorreu na tarde desta quinta-feira (2) durante a entrega do Túnel Major Sales, estrutura integrante do Ramal do Apodi na cidade de Luís Gomes, projetada para escoar as águas da transposição do Rio São Francisco. Diante de uma plateia que esperava ver o líquido jorrar, o chefe do Executivo Federal se viu obrigado a improvisar e justificar a ausência da água como um mero “erro de cálculo”, tentando amenizar a situação com piadas e sugerindo que o prefeito local convocasse os moradores para vigiar a estrutura de madrugada, sob a promessa de que o abastecimento chegaria horas depois do término do evento oficial. O episódio, revelado pela coluna Painel da Folha de S.Paulo, expôe a tática governista de queimar etapas fundamentais para não perder a última janela de propaganda permitida por lei.

O modelo “Vera Cruz” se espalha pelo Nordeste

Essa correria desordenada para inaugurar canos vazios e assinar calhamaços de ordens de serviço fictícias não é um fato isolado, mas sim o reflexo de uma cartilha de comunicação adotada de forma idêntica pelo governador Jerônimo Rodrigues na Bahia. Interlocutores da cena política apontam que o desespero do grupo governista baiano em tentar reverter cenários desfavoráveis nas pesquisas fez o estado virar um canteiro de maquetes virtuais. O maior exemplo dessa política de ilusão ocorreu em Vera Cruz, onde a gestão estadual promoveu festas, outdoors e eventos grandiosos para lançar a Ponte Salvador-Itaparica, uma megaestrutura que, na prática, sequer possui o projeto executivo finalizado e não tem qualquer indício real de início de obras físicas.

Para analistas políticos alinhados ao front de oposição, essa obsessão por simular entregas e transformar meras intenções em eventos com fita inaugural escancara a fragilidade das gestões petistas diante do julgamento das urnas. Ao classificar as amarras da legislação eleitoral como uma “papagaiada”, Lula deixa claro o incômodo com as regras de transparência, enquanto seus aliados regionais preferem acelerar as canetadas em projetos de papel a focar na execução responsável da máquina pública.

Em nota oficial, o Palácio do Planalto tentou conter os danos afirmando que o túnel estava plenamente operacional e que o atraso se deu apenas pelo tempo de deslocamento do fluxo hídrico ao longo dos canais, mas o fato político já estava consolidado, a pressa eleitoreira entregou ao país a imagem de um Nordeste cronicamente castigado pela seca tendo que aplaudir uma adutora de pura propaganda.

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