Os últimos dias da campanha presidencial têm sido dominados por um tema: a abertura dos sigilos do presidente e candidato à reeleição, Lula da Silva (PT), e de seu adversário no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O que começou como um desafio lançado por Lula durante o debate da Bandrapidamente se transformou em uma das principais controvérsias da reta final da disputa pela Presidência. Em poucos dias, a troca de acusações sobre corrupção e patrimônio deu lugar a uma intensa batalha política e jurídica que passou a envolver familiares dos candidatos, empresas associadas aos dois grupos, assessores próximos e até o ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol.
Ao longo da semana, petições foram protocoladas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), novas exigências foram apresentadas pelos dois lados e a discussão sobre transparência virou uma das principais armas da campanha a poucos dias do segundo turno.
Ao final das negociações, as campanhas de Lula e Flávio anunciaram nesta quinta-feira (22/10) terem chegado a um acordo para a abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico.
A seguir, confira os principais momentos da disputa.
Lula lança desafio no debate da Band
O embate teve início durante o primeiro debate do segundo turno, promovido pela Band no último domingo (18/10). Em meio a acusações sobre corrupção e enriquecimento ilícito, Lula surpreendeu o adversário ao propor uma abertura mútua dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos dois candidatos. Segundo o petista, a divulgação permitiria que os eleitores comparassem as movimentações financeiras e o patrimônio de ambos.
O desafio surgiu após Flávio voltar a citar suspeitas envolvendo familiares do presidente, especialmente seu filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a relação dele com a lobista Roberta Moreira Luchsinger. Lulinha aparece em investigações da Polícia Federal que apuram a atuação de Luchsinger junto a órgãos do governo federal. Os dois negam ter participado de qualquer esquema ilícito.
Na resposta a Flávio, Lula mudou o foco do debate e sugeriu que ambos deveriam abrir seus dados para que os brasileiros pudessem verificar por conta própria quem supostamente teria algo a esconder.
O senador não concordou imediatamente com a proposta. Embora tenha dito que não tinha “nada a esconder”, evitou assumir qualquer compromisso formal durante o debate.
Lula formaliza a proposta no TSE
Dois dias depois, na terça-feira (20), a campanha petista transformou a provocação em iniciativa jurídica. Advogados de Lula protocolaram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) uma petição autorizando a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do presidente referentes aos últimos oito anos. O pedido também estendia a medida à primeira-dama, Janja Lula da Silva, e aos cinco filhos do presidente, inclusive Lulinha.
O documento, porém, estabelecia que a abertura somente ocorreria se Flávio Bolsonaro adotasse os mesmos procedimentos. Além disso, a equipe jurídica do petista exigiu que fossem incluídos familiares do senador e empresas associadas a ele, entre elas a Alcazar Holdings. A empresa, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, pertence ao advogado Willer Tomaz, apontado como próximo ao senador.
A campanha petista afirmou que registros obtidos pela Polícia Federal indicariam que Flávio Bolsonaro figurou como “usuário master” de uma conta bancária vinculada à companhia até 2025. De acordo com os investigadores, a condição de usuário master da conta da Alcazar permitia acesso elevado à administração da conta, incluindo consulta a saldos, extratos e movimentações financeiras. A PF investiga se o acesso de Flávio à conta constitui indício de participação indireta no negócio.
Paralelamente, Lula elevou o tom político. Em evento de campanha na Bahia, afirmou que esperava uma resposta rápida do adversário e chegou a condicionar sua participação no debate da TV Globo, marcado para esta sexta-feira (23/10), à aceitação do desafio. A estratégia, segundo especialistas, buscava transformar o silêncio de Flávio em um custo político.
Flávio aceita o desafio, mas amplia a disputa com 19 exigências
Na quarta-feira (21/10), Flávio respondeu à proposta. Ele disse que aceitava o desafio, mas condicionou a abertura de seus sigilos a outras 19 exigências, que alterou o escopo original da proposta.
O senador sustentou que não bastava abrir apenas o patrimônio oficialmente declarado por Lula. Para ele, também deveriam ser expostas informações sobre pessoas consideradas próximas ao presidente e estruturas associadas ao entorno petista.
As chamadas 19 exigências incluíam: abertura de dados do ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola; divulgação de agendas e informações relacionadas à atuação de Janja; acesso a registros de visitantes do Palácio da Alvorada; prestação de contas sobre despesas da residência oficial; gastos realizados com cartões corporativos da Presidência; informações sobre deslocamentos realizados em aeronaves oficiais; e dados relacionados ao Instituto Lula e a pessoas próximas ao presidente.
A guerra das petições e a entrada de Deltan Dallagnol
Nas horas seguintes, a disputa migrou dos palanques para os autos do processo. A campanha de Lula passou a insistir que a Alcazar Holdings precisava integrar qualquer acordo de transparência. Já o PL insistia nas exigências relacionadas ao entorno de Lula.
Neste contexto até o ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol entrou na jogada. A campanha de Flávio anunciou que ele participaria da análise dos documentos que viessem a ser apresentados por Lula após a eventual abertura dos sigilos
decisão teve forte peso simbólico. Figura associada às investigações que levaram à condenação e posterior prisão de Lula na Operação Lava Jato, Dallagnol passou a ser apresentado pelos aliados de Flávio como alguém capaz de examinar minuciosamente os documentos do presidente. Já os petistas interpretaram a iniciativa como uma tentativa de politizar ainda mais a controvérsia e reavivar símbolos da Lava Jato nos últimos dias da campanha.
Acordo evita impasse às vésperas do debate final
Com a proximidade do debate da TV Globo e da votação do segundo turno, as duas campanhas intensificaram as negociações.
Nesta quinta-feira (22/10), representantes de Lula e Flávio anunciaram um acordo para a abertura simultânea dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos dois candidatos. O entendimento também abrange familiares e empresas vinculadas aos dois grupos políticos. O documento foi assinado pessoalmente por Lula no TSE. Já Flávio foi representado por sua equipe jurídica mediante procuração.
Ainda na quinta-feira, o ministro André Mendonça, do TSE, decidiu que ambas as campanhas poderiam divulgar seus sigilos bancários, fiscal e telefônico, conforme acordo assinado entre os candidatos. Na decisão, o ministro afirmou que não cabe interferência da Justiça Eleitoral no caso e que os próprios candidatos podem revelar seus dados ao público.
A disputa nas redes sociais
Desde o debate de domingo, o tema passou a dominar as redes sociais e foi comparado por muitos usuários a um “jogo de truco”, no qual um candidato lançava um desafio e o outro respondia elevando ainda mais as apostas. A discussão extrapolou o campo jurídico e se transformou em uma disputa política travada também no ambiente digital.
Aliados de Lula intensificaram a pressão para que Flávio aceitasse o desafio, impulsionando mensagens com o slogan “Abre o sigilo, Flávio”, que deu origem a vídeos, memes, publicações e até a um jingle da campanha petista. Nas redes, a hashtag #AbreOSigiloFlavio ganhou força e se tornou um dos principais instrumentos de mobilização dos apoiadores do presidente.
Do outro lado, apoiadores de Flávio Bolsonaro argumentaram que a proposta inicial de Lula era insuficiente e passaram a destacar as 19 exigências apresentadas pelo senador ao TSE. A narrativa defendida pelo campo bolsonarista era a de que a transparência deveria alcançar não apenas os candidatos, mas também familiares, assessores, empresas e pessoas próximas ao governo.
O dia após o acordo
Embora os dois lados tenham anunciado um entendimento, a abertura efetiva dos dados ainda não havia ocorrido até a manhã desta sexta-feira (23/10) e entre os eleitores e a mídia persistiam dúvidas jurídicas sobre até onde a abertura poderia ir.
Especialistas e fontes da própria Justiça Eleitoral consideravam pouco provável a divulgação irrestrita de dados pessoais, mesmo com a concordância dos dois candidatos. A avaliação era de que as petições tinham um valor mais político e eleitoral do que efeitos práticos imediatos.
Ao mesmo tempo, as duas campanhas tentaram apresentar o acordo como uma vitória própria, mas enfatizando aspectos diferentes da negociação.
A campanha de Lula argumentou que o presidente havia sido o autor da proposta e que sempre se mostrou disposto a abrir seus dados. Os petistas destacaram que Lula assinou pessoalmente o documento protocolado no TSE e afirmaram que o acordo demonstrava seu compromisso com a transparência. A equipe também sustentou que o adversário demorou dias para aceitar o desafio lançado no debate da Band.
Já a campanha de Flávio argumentou que o acordo final foi mais amplo do que a proposta originalmente apresentada por Lula porque incorporou as exigências feitas pelo senador. Aliados de Flávio destacaram que ele concordou em abrir não apenas seus dados, mas também os de familiares e empresas, e que a negociação passou a incluir informações sobre pessoas próximas ao presidente, gastos governamentais e estruturas ligadas ao Palácio do Planalto. A campanha bolsonarista também procurou mostrar que havia imposto condições ao petista, transformando o que considerava uma iniciativa unilateral de Lula em um acordo de reciprocidade mais amplo.
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