A trajetória de Flávio Medeiros no futebol internacional começou na Turquia, mas foi na Arábia Saudita que o volante encontrou um novo capítulo da carreira. Após se destacar pelo Bahia, o jogador passou por Trabzonspor e Giresunspor antes de aceitar, em 2022, o convite para defender o Al-Taawoun.

Desde então, o meio-campista permanece no futebol saudita, onde precisou enfrentar desafios que foram além das quatro linhas. Em entrevista, Flávio relembrou as dificuldades enfrentadas nos primeiros meses no país, especialmente durante o processo de adaptação cultural ao lado da esposa.

Segundo o jogador, a mudança exigiu paciência e compreensão diante de costumes diferentes daqueles com os quais estava acostumado no Brasil. Ele afirmou que o início foi particularmente complicado para a família e ressaltou a importância de respeitar a cultura local.

“Foi difícil, o primeiro ano foi muito difícil, principalmente para a família né?! E aí você acaba sofrendo junto, para minha esposa foi muito difícil. Eu sou da tese que você precisa saber chegar para saber sair. Independente de onde você está, você tem que respeitar a cultura, respeitar o povo. Foi assim no Brasil, podem falar que não gostam de mim como jogador, mas não vão falar da minha postura, da minha conduta, eu nunca fiz nada neste sentido e na Arábia não foi diferente”, disse Flávio, jogador do Al-Faisaly.

Entre as situações que mais marcaram o começo da vida na Arábia Saudita, Flávio recordou uma ida ao comércio com a esposa, que havia acabado de chegar ao país e ainda não tinha uma abaya, vestimenta tradicional usada por muitas mulheres muçulmanas.

O jogador explicou que, embora o uso da peça não seja obrigatório em todas as situações, existe uma expectativa cultural relacionada às roupas femininas em determinados ambientes. Na ocasião, a esposa de Flávio optou por vestir roupas largas antes de sair de casa. Mesmo assim, o casal relatou ter se sentido desconfortável durante as compras, diante dos olhares de outras pessoas.

“Aqui as mulheres, não é obrigatório, mas é de bom tom usar a abaya, uma roupa preta que cobre do pescoço até o pé. Minha esposa, como tinha acabado de chegar, ainda não tinha essa roupa. Um dia a gente saiu para comprar utensílios de casa, e eu lembro que falei para ela colocar a roupa mais larga que ela tinha. Ele colocou uma calça jeans bem larga, uma blusa larga, e a gente foi”.

Flávio contou que a experiência foi tão desagradável que os dois decidiram abandonar o estabelecimento antes de concluir as compras.

“Foi uma coisa que eu nunca vou esquecer, uma sensação horrível, não desejo para ninguém. A gente chegou na loja, e cada corredor que a gente passava parecia que estava cometendo um crime, que a gente era bicho e estava fora da jaula. Olhavam para a gente assim, não disfarçam. Lembro de olharem para minha esposa, e eu fiquei mal por ela. O carrinho já estava praticamente cheio, e lembro que deixamos lá e fomos embora”, lamenta Flávio.

Apesar das dificuldades vividas no início, o jogador garantiu que conseguiu se adaptar à rotina na Arábia Saudita e que está satisfeito com a vida no Oriente Médio. Flávio destacou que compreender os costumes e a religião local foi parte importante do processo de adaptação. Para ele, a permanência por vários anos no país demonstra que conseguiu construir uma relação positiva com o ambiente em que vive.

“Teve esse episódio, no começo foi bem difícil essa questão de sair. Até a gente se familiarizar com isso levou um tempo. Tem que entender que é a gente chegando no país deles, tem que respeitar. É meu quinto ano aqui na Arábia, e estou muito feliz, totalmente adaptado, acostumado com a cultura, com a religião. Estou muito feliz, teve só essa questão de adaptação no começo, mas estou indo para meu quinto ano, então isso fala por si só. Se eu não estivesse me adaptado, se não estivesse feliz, não estaria aqui tanto tempo”.

Além das experiências pessoais, Flávio acompanhou de perto a transformação do futebol da Arábia Saudita nos últimos anos. Quando chegou ao país, em 2022, o campeonato ainda não contava com a quantidade de estrelas internacionais que passaram a atuar na liga posteriormente. A contratação de jogadores como Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Neymar, Roberto Firmino e Sadio Mané ampliou a visibilidade da competição.

O volante afirmou que a chegada desses nomes contribuiu para aumentar o reconhecimento internacional do futebol saudita e destacou que o movimento também beneficia atletas que já estavam no país.

“Eu vivi tudo aqui na Arábia. Quando eu cheguei, não tinha ainda Cristiano Ronaldo, Mané, Wijnaldum, agora Martinelli, um cara que acabou de jogar uma Copa do Mundo e veio para cá. Não tinha muito ainda isso. Logicamente que o lado financeiro já me chamou a atenção há cinco anos, e eu aceitei o desafio. E logo depois, uns meses, começou esse movimento”.

Para Flávio, a presença de jogadores consagrados ajudou a mudar a percepção sobre o campeonato, que passou a atrair mais atenção e a oferecer maior exposição aos profissionais que atuam no país.

“Eu fico feliz, isso enaltece e engrandece o Campeonato. De certa forma é bom para mim também porque tem mais visibilidade, muita gente olhava o campeonato de uma forma antes, e depois da vinda desses craques renomados mundialmente passaram a olhar a Liga de outra forma. Isso é bacana, é legal, valoriza de outra forma. Aqui temos grandes jogos, estádios lotados, isso foi muito legal, e eu pude viver isso de perto”.






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