Trio forrozeiro busca contratos para o São João na Bahia. – Foto: Reprodução

Os festejos juninos já se aproximam e com isso as grandes bandas já estão com contratos fechados para apresentações nas cidades onde as festas movimentam a economia local, através do turismo. Enquanto estes têm agendas lotadas, os artistas da terra com seu tradicional forró pé de serra, encontram dificuldades em fechar parcerias.

O Noticias da Bahia conversou com o trio de Vailson Barbosa que contou os grandes gargalos enfrentados para fechar apresentações em cidades baiana, além de Salvador, durante esse período.

NB – Conta como é para vocês acharem trabalhos em momentos onde apenas bandas famosas tem encontrado espaço, tanto em Salvador como no São João do interior?

VailsonJá tem um tempo e eu venho brigando com isso já um tempo, porque nós artistas que não temos tanto sucesso e não temos essa notoriedade, temos passado perrengues. A gente não consegue fechar contratos. A gente tem um valor irrisório se formos comparar com as grandes bandas. Sei que foi estabelecido até um tento de R$700 mil. Eu costumo dizer que R$700 mil eu consigo fazer o São o de duas cidades, com esse valor. E essa dificuldade tem feito com que nós, pequenos artistas, pensem em desistir e é o que a gente pensa as vezes, por que a gente investe em instrumentos caros. Uma sanfona como essa custa mais que R$30 mil e a gente não acha um trabalho nesse período que era para ser período de se tocar forró.

NB – A partir de que momento do ano vocês começam a entrar em contato com as prefeituras e o Governo do estado, buscando fechar parcerias para este período do ano?

VailsonNormalmente em maio. Por que se abril a maio a gente tenta, só que quando a gente procura se aproximar do Estado, como uma forma geral, falo de prefeituras até federal, a gente percebe muito protocolo, muita exigência. Documentação, nota fiscal, e o cara que é pequeno artista que não acha trabalho o ano todo, infelizmente, ele não vai ter nota, não vai ter documentação para poder conseguir fechar eventos para o município, para o Estado. Então fica complicado.

NB – Mas e o edital aberto pelo Governo do Estado? Inclusive, eles prorrogaram até o dia 14 de maio. Teria algum outro meio do pequeno artista participar desta seleção para conseguir essa vaga?

Vailson –  Não. Ou o cara de uma produtora que tem coligação com o pessoal lá de dentro ou fica de fora. Então não existe outro meio. O meio é através do edital, que é um protocolo que eu falo o tempo todo: como é que um idoso que toca sanfona há mais de 50 anos, que não conhece nada de rede social vai conseguir se inscrever em um edital? Acaba não tocando. O cara que sempre tocou em uma pracinha junina não vai conseguir tocar. O cara não tem essa expertise. E eu não conseguir me inscrever por que é muita exigência. Tem coisas que nem existe ainda, nunca ouvi falar. Então a gente acaba desistindo. Eu desistir de me inscrever. Não falando da demora do pagamento, que causa incertezas.

NB – Eu ia tocar justamente nesse assunto, já houve anos em que vocês conseguiram se inscrever para fazer apresentações de São João e não houve o pagamento?

Vailson – Eu não consegui nem me inscrever, então não ocorreu. Mas conheço vários artistas, pelo menos, a maioria dos artistas pequenos. Pequenos entre aspas, porque eu falo que são grandes artistas na arte que fazem, mas são pequenos no sentido de não terem notoriedade. Então, vários forrozeiros se inscreveram, tocaram e demoraram de receber. Tem gente que até hoje não recebeu os valores.

NB – Houve uma discussão entre a União dos Prefeitos da Bahia, o Ministério Público e artistas para poder equacionar essa questão dos altos caches que eram pagos para os artistas e também foi discutido uma cota para os artistas da terra. Você vê neste momento, inicio de São João que aquilo que foi acordado entre o MP de abrir mais espaço para os artistas locais está sendo cumprido? (Com apoio da UPB, MPBA, TCM e TCE assinam nota conjunta com orientações para contratações so São João na Bahia)

Vailson – De forma nenhuma, por que não tem uma fiscalização acirrada. O Ministério Público teve toda boa vontade do mundo de discutir esse assunto, porém a partir do momento que não tem o efetivo para poder fiscalizar de fato, nós na Bahia somos a maior praça junina do Brasil. Nós temos 417 municípios, sendo que destes, pelo menos 300 comemoram São João. Se o Ministério Público colocasse um representante em cada município para fiscalizar e vê quem eles colocaram, quem eles contrataram, para vê se o pessoal da terra foi contratado. A partir do momento que não tem essa fiscalização, de forma nenhuma vai ter futuro, vai ter sucesso.

NB – Há quantos anos que vocês fazem São João?

Vailson – Eu tenho 25 anos tocando acordeom, fazendo o forró.

NB – Em que período você encontrou tanta dificuldade no cenário?

Vailson – Nos últimos 5 anos as coisas pioraram. A gente não ficava sem tocar. A gente sempre tinha convite inclusive em eventos privados e a dificuldade está vindo também nos eventos privados. Tinha eventos que eu fazia há mais de 10 anos e não vou fazer. A prefeitura, como eu falei, nunca consegui me inscrever pelo protocolo e dos últimos 5 anos para cá, essa reclamação tanta na inscrição como na falta do pagamento só aumentou.

Vailson – Eu penso que é uma ótima medida por parte do Ministério Público até porque é um órgão imparcial. Ele está aí justamente para fiscalizar, porém eu ratifico o que eu falei antes que se não tiver uma fiscalização efetiva, um representante em cada município que comemora e festeja o São João, principalmente os grandes municípios, de nada vai adiantar essa medida.

NB – O São João traz uma história da Bahia, do Nordeste, de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, uma série de artistas que falavam da cultura do nordestino para o mundo através da sanfona, da zabumba e do triângulo. Como é que vocês enxergam a invasão de artistas que não são relacionados ao tema no São João que acabam tomando os cachês que poderiam ser distribuídos em grande escala aos artistas locais?

Vailson – É o que eu costumo dizer, a música tem espaço para todo mundo, porém existem particularidades. Eu vejo artistas do pagode, do axé fechando eventos no São João, e praças juninas colocam o sanfoneiro para dizer que tem, por que a grande exigência das prefeituras é: você tem sanfoneiro? As vezes a pessoa não está nem tocando, está fazendo só mimica, mas é para fechar o evento. Deve ter um histórico, tem que ter uma fiscalização disso. Tem espaço para todo mundo, tem, mas eu acho que não cabe. Já existe o carnaval com vários dias, com quase duas semanas. Então tem que ter espaço para gente. Eu vejo artistas como Flávio José que tem gritado também, tem Virgílio que é um grande forrozeiro, por que as artistas tem perdido espaço. Não está cabendo mais o forró tradicional com o zabumba, o triangulo e a sanfona, tendo em vista que as praças estão sendo tomadas por bandas de axé, pagode arrocha e o sertanejo, que não seria o autêntico, é o arrochanejo, como eu costumo chamar. Eu ratifico, eu saliento e enfatizo, tem espaço para todos, não estou dizendo que o cara não deve tocar, mas eu penso que a prioridade deveria ser o forró tradicional.

 

Vailson – Eu que fui um dos primeiros artistas sanfoneiros na Cidade Baixa, comecei a tocar com 14 anos e Ricardo, inclusive fazia parte de uma banda que eu toquei. Fico triste em saber que o local como Bonfim, Ribeira, Boa Viagem,  Massaranduba, bairros que são bastante turísticos não têm festa no período junino. Aquele São João nos bairros até incentivaria os artistas locais a tocarem nesse lugar porque de uma certa forma levaríamos alegria para o povo e incentivaria o artista do local. Mas infelizmente, a Cidade Baixa não tem esse tipo de incentivo, não ter uma festa tradicional no período junino. Tem pessoa que se reúnem e fazem por si, as vezes acham o apoio de um político ou outro, mas não é algo oficializado que a prefeitura vai montar um palco para colocar um som de qualidade e vai contratar o artista daquele lugar.

 

NB – Conta como a história de vocês, enquanto trio teve início. Como vocês começaram a tocar.

Vailson – Na realidade, eu tenho uma raiz muito forte do interior. Minha mãe é de Cruz das Almas, da roça e eu cresci indo pra lá, passando o São João e meu pai é de Santiago, do lado. Que apesar de não ser cultura puxada para o forró, tem a cultura do samba, samba de roda e samba chula. Eu sempre partir pro lado da música, nunca joguei bola, sempre fui perna de pau, sempre quis tocar. Como falei desde muito pequeno eu toquei e armei um trio com um outro zabumbeiro que tocava comigo, o Patrício e o Alexandre onde a gente sempre tocava. O nome do trio era Cacete Armado, porque a gente nunca ensaiou. E depois eu fui levando a sério a coisa, gostava do forró tocava como hobby e fui me profissionalizando. Chamei Ricardo pra tocar. Ele era baterista e virou zabumbeiro e a gente vem fortalecendo, a gente vem sendo reconhecido. Hoje quando falam Vailson Barbosa vai tocar, a gente já tem um público, pelo menos na nossa região. Já temos um público certo que vai lá prestigiar o nosso trabalho. Conseguimos chegar em um estabelecimento hoje e encher o local. A gente está levando a sério, fazendo esse forró tradicional. As pessoas as vezes perguntam: vocês tocam forró de Xandy, de Wesley? Eu respondo que não toco, pois sou tradicionalista, sou de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Flávio José, esse pessoal mesmo pé de serrano. Tenho uma personalidade muito forte para esse lado. Toco Virgílio e inclusive tenho um grau de parentesco com ele e pra mim é uma das maiores vozes de forró da atualidade, que é pouco reconhecido. A gente luta para que o nome Vailson Barbosa cresça e eu não sou nada sem os Ricardos, da zabumba e do triângulo.

Créditos Autor: Adila Ribeiro
Créditos Imagens: Reprodução Internet

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