No último debate antes do segundo turno, realizado pela TV Globo nesta sexta-feira 23, Lula (PT) questionou as propostas de Flávio Bolsonaro (PL) para a economia e a infraestrutura, associou o senador ao governo do pai, Jair Bolsonaro (PL), e procurou explorar as consequências de seu plano de corte de gastos para a população de baixa renda.
Flávio, em resposta, disse que manterá o Bolsa Família em eventual mandato, prometeu reajustar o salário mínimo acima da inflação e ampliar obras de infraestrutura, mas não detalhou como executaria parte das medidas anunciadas. Também recorreu a ataques pessoais ao presidente, com referências à idade e à voz do petista.
Este foi o segundo encontro direto entre os candidatos no segundo turno e ocorreu em um cenário de empate técnico. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira 22 apontou 50% dos votos válidos para cada um.
Lula concentrou parte de suas intervenções em questionar o preparo do adversário e a viabilidade de suas propostas. Ao discutir infraestrutura, disse que Flávio estudava para decorar respostas, mas não para aprender. Em outro momento, perguntou como o senador pretende cortar cerca de 200 bilhões de reais em despesas – como propagam aliados do filho de Jair Bolsonaro — sem atingir programas sociais.
O petista comparou as propostas do adversário às medidas de austeridade adotadas pelo presidente argentino Javier Milei, aliado do bolsonarismo, e sugeriu que a redução de gastos acabaria recaindo sobre os mais pobres. Flávio negou a acusação e classificou a fala como notícia falsa, mas não apresentou, naquele momento, um detalhamento sobre onde encontrará a folga fiscal.
O presidenciável do PL também prometeu manter o Bolsa Família e afirmou que não retiraria o benefício de quem conseguisse emprego, dias após uma de suas porta-vozes na economia, a ex-presidente da Caixa, Daniela Marques, sugerir que haveria uma limitação do período em que um beneficiário poderia receber o valor num eventual governo Flávio. O benefício, vale dizer, já funciona dessa forma e não está condicionado ao desemprego, e, sim, à renda.
Lula também cobrou Flávio por ter chamado o Bolsa Família de “bolsa-farelo” em publicações antigas nas redes sociais. “É a falta de respeito com o povo pobre”, disse o petista.
O senador não respondeu diretamente. Acusou Lula de ter reajustado o benefício apenas na reta final da campanha e afirmou que o aumento equivalia a três reais por dia. Flávio usou a expressão em postagens de 2011 e 2013, quando criticava programas de transferência de renda e defendia limitar o período de recebimento do auxílio. As postagens foram excluídas.
Na discussão sobre o custo de vida, Flávio acusou Lula de retirar dinheiro da população e usou a expressão “9 dedos”, em referência à mão esquerda do presidente, que perdeu um dedo em um acidente de trabalho.
Algum tempo depois, Lula exigiu desculpas. “Você vai ter que pedir desculpa. Porque o povo trabalhador tá vendo. Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente tem que ir trabalhar”, disse. “Não vou permitir que um miliciano me chame de 9 dedos”.
O candidato do PL também criticou a política econômica do governo, citando juros e dificuldades enfrentadas por trabalhadores e produtores rurais. E prometeu aumentar o salário mínimo acima da inflação, bandeira historicamente associada ao PT, e disse que daria pedágio zero a motocicletas em todas as novas rodovias do País. Não apresentou, porém, detalhes sobre o modelo de financiamento da gratuidade nem sobre os custos das medidas anunciadas.
Flávio também foi questionado sobre sua relação com o advogado Willer Tomaz, seu amigo, em meio à disputa pela posse de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ). O jogador Richarlison afirma ter investido cerca de 10 milhões de reais no imóvel e acusa os dois de terem tomado a propriedade após ele recusar uma oferta de compra. O filho de Bolsonaro e Tomaz são investigados no Supremo Tribunal Federal em inquérito que apura lavagem de dinheiro de bets.
Durante o debate, Lula também criticou a atuação de Jair Bolsonaro na pandemia de Covid-19 e citou a imitação de uma pessoa com falta de ar feita pelo então presidente em transmissões ao vivo, durante a crise de oxigênio em Manaus. Flávio disse que o pai estava “suspirando” e afirmou que o trecho havia sido retirado de contexto.
O senador reconheceu ainda que errou ao votar contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras estaduais do Rio de Janeiro, em 2009, quando era deputado estadual. Na ocasião, foi o único voto contrário à proposta, que ampliava o afastamento de quatro para seis meses. “Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego. Eu estava errado”, afirmou no debate, dizendo que hoje votaria de forma diferente.
Questionado sobre um passeio de lancha no Lago Paranoá, em julho de 2020, durante a pandemia, Flávio não respondeu diretamente às questões levantadas sobre o encontro.
Reportagem da revista piauí publicada nesta semana afirma que o senador participou de um churrasco na embarcação com empresários que buscavam negociar a venda da vacina Covaxin ao governo federal e garotas de programa. Segundo a publicação, ao fim do passeio, Danilo Trento, ligado à Precisa Medicamentos, deu a Flávio um relógio Rolex.
Convidados
Flávio levou ao debate desta sexta-feira uma comitiva que incluiu os governadores eleitos Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e Sergio Moro (PL-PR) e aliados como o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). Também marcou presença o irmão Carlos Bolsonaro, ex-vereador do Rio de Janeiro.
Entre os convidados de Lula estavam o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro Guilherme Boulos (PSOL), os ex-ministros Carlos Lupi (PDT) e Rui Costa (PT) e a deputada federal Jandira Feghali (PC do B).
Junto a eles estava Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina morta a tiros aos 5 anos em uma ação policial em Niterói (RJ). Flávio advogou de graça pelo policial militar suspeito de matá-la e assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça contra a decisão de levar o PM a júri popular, revelou o portal UOL nesta sexta-feira.
Questionado sobre o caso, Flávio afirmou que pretendia ajudar a mãe da menina a identificar o responsável pela morte e disse compreender a dor da família, mas disse confiar na inocência do policial.
No primeiro confronto direto entre os candidatos, na Band, no último domingo 18, a presença de aliados de Flávio desconcertou Lula. Na plateia estavam Moro e Deltan Dallagnol (Novo-PR), que tiveram envolvimento direto na prisão do petista. Os deputados federais Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos do PL, além do ex-coach Pablo Marçal, compuseram a “equipe da baderna”, como o grupo foi apelidado por interlocutores do petista.
Desta vez, entretanto, o debate ocorreu em um formato concebido para limitar as provocações que marcaram o confronto anterior. Na ocasião, Flávio se posicionou atrás do presidente durante suas falas, enquanto os dois trocaram acusações de corrupção e envolveram familiares e aliados na disputa.
A Globo estabeleceu que, nos três primeiros blocos, o candidato com a palavra poderia circular pelo cenário, enquanto o adversário deveria permanecer no púlpito. A regra foi solicitada pela campanha petista para impedir que Flávio repetisse a movimentação adotada na Band.
Mesmo com as restrições, houve um desentendimento sobre a distribuição do tempo de fala. Na primeira rodada, Lula encerrou sua intervenção antes de esgotar o tempo disponível. Flávio questionou se o presidente poderia voltar a falar na tréplica. O mediador César Tralli permitiu que Lula utilizasse o tempo restante previsto para a rodada, o que provocou reclamações entre apoiadores do senador na plateia.
Nos três primeiros blocos, cada candidato tinha três minutos por rodada, divididos entre pergunta e réplica ou resposta e tréplica. O candidato poderia administrar esse período entre as duas intervenções, sem receber tempo adicional para a tréplica. O último bloco foi reservado ao tema livre, com oito minutos para cada um.
O debate desta sexta-feira ocorreu após uma semana de intensificação das campanhas. Lula apostou na defesa de seu governo e na mobilização digital para alcançar eleitores indecisos. O canal de WhatsApp “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), ultrapassou 10 milhões de inscritos na sexta-feira, embora no centro de um imbróglio no Tribunal Superior Eleitoral.
Flávio procurou consolidar os apoios reunidos no segundo turno e evitar novos episódios como os do debate da Band, quando sua postura e o desvio de perguntas sobre propostas e seu passado foram alvo de críticas. No primeiro turno, o senador recebeu 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula.
Créditos Autor: Wendal Carmo
Créditos Imagens: Reprodução Internet
