Desde que o Congresso Nacional aprovou o fim da escala 6×1, a empresária Isabela Raposeiras tem usado sua influência nas redes sociais para rebater argumentos contrários à mudança. Críticos da alteração na jornada de trabalho associam a medida a prejuízos para diversos setores do País, como varejo, comércio, bares e restaurantes.
Promulgada na última sexta-feira 16, a emenda prevê reduzir o limite semanal de trabalho de 44 para 40 horas, assegurando dois dias de descanso remunerado por semana, sem corte salarial. A execução será gradual: o teto cai para 42 horas após 60 dias da publicação e chega a 40 horas depois de um ano.
Dona do Coffee Lab — espaço em São Paulo que conta com cafeteria, escola de baristas, laboratório de torra e degustação de cafés especiais —, Raposeiras nunca adotou o modelo de seis dias de trabalho para um de folga. “Nunca me permiti isso. A escala 6×1 é análoga à escravidão. Não existe abusar do trabalhador para ganhar dinheiro”, afirmou em entrevista a CartaCapital.
Produtividade e resultados práticos
Dos 30 funcionários que sustentam a operação de seu negócio, fundado em 2004, dez operam sob a escala 5×2, com folgas aos fins de semana. Nas cafeterias e na escola, que abrem todos os dias, 20 trabalhadores estão no modelo 4×3 (quatro dias trabalhados e três folgas rotativas).
O Coffe Lab tem uma unidade na Vila Madalena e outra em Pinheiros, na zona oeste da capital. Créditos: Divulgação
Raposeiras, que também presta consultoria a empresas interessadas em modificar suas jornadas, destaca os resultados práticos dessa mudança: uma padaria de São Paulo que adotou o modelo 4×3 sob sua orientação estima um aumento mínimo de 30% no faturamento e de 15% na lucratividade, reflexo direto do maior tempo de descanso da equipe, segundo ela.
“A partir do momento em que os trabalhadores têm mais tempo para viver fora do trabalho e conviver com familiares e amigos, eles ficam mais produtivos, justamente por não ficarem sobrecarregados com um acúmulo de dias trabalhados”, afirma. “Isso enriquece as relações no próprio trabalho. O funcionário passa a atender melhor, principalmente em setores que lidam diretamente com o público final, como comércios e restaurantes.”
Redução de custos e ineficiência operacional
Para a consultora, a mudança na jornada é viável independentemente do tamanho do negócio e pode otimizar operações frequentemente marcadas por ineficiência, além de reduzir custos. “Às vezes o empresário tem até excesso de funcionários para manter a escala 6×1 e, mesmo assim, não consegue conter faltas, rotatividade e processos rescisórios, porque as pessoas estão cansadas. E isso quebra uma empresa, porque o custo é muito alto”, atesta. “Posso colocar a mão no fogo que a empresa está ineficiente. Pouquíssimas não estão.”
Como orientação, a empresária sugere que a mudança comece por uma imersão direta dos gestores ou donos na operação. “Primeira coisa: vá para o chão de fábrica, entre na sua operação. Será necessário rever processos, fazer checklist. Colocar uniforme, mesmo, montar parafuso, atender ao cliente no balcão. Só assim o proprietário será capaz de entender os gargalos operacionais do negócio.”
Crítica ao discurso de prejuízo econômico
Raposeiras também critica o discurso de que o Brasil corre o risco de “quebrar” com a nova jornada. “A minoria da população está sob escala 6×1 hoje. E é uma minoria mais vulnerável. Então, esse discurso vem de setores acostumados a escravizar pessoas.”
Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, cerca de 14,8 milhões de brasileiros operam na escala 6×1, o que representa aproximadamente 33,2% dos trabalhadores ocupados no País com contratos em regime de 44 horas semanais.
“No fim é um papo de cuidar do capital humano que mantém as empresas operando”, resume. “Acho engraçado que as pessoas colocam na lista de ativos das empresas os maquinários, mas não as pessoas. A própria economia considera a mão de obra como despesa, em uma total inversão. Nós, empresários, precisamos nutrir melhores relações com os trabalhadores.”
Créditos Autor: Ana Luiza Basilio
Créditos Imagens: Reprodução Internet
