Reduzir filas para consultas, exames e cirurgias, ampliar o acesso a medicamentos, fortalecer a atenção primária, cuidar da saúde mental e incorporar novas tecnologias ao Sistema Único de Saúde (SUS) estão entre as propostas apresentadas pelos candidatos à Presidência da República para a área da saúde.
O ComSaúde analisou os programas de governo registrados pelas candidaturas na Justiça Eleitoral e organizou as propostas em temas que afetam diretamente o atendimento à população. Os documentos mostram estratégias diferentes para questões como regulação das filas, participação da rede privada, produção de medicamentos, digitalização do SUS e formação e valorização dos profissionais.
Doze candidaturas permanecem oficialmente na disputa pela Presidência: Augusto Cury, Clariana Barão, Edmilson Costa, Flávio Bolsonaro, Hertz Dias, Luiz Inácio Lula da Silva, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Rui Costa Pimenta, Samara Martins, Wilson Grassi e Romeu Zema. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Esta é a primeira reportagem da série especial ComSaúde nas Eleições 2026, que vai acompanhar, de forma didática e imparcial, as propostas apresentadas pelos candidatos para a saúde no Brasil e na Bahia.
O levantamento identifica propostas específicas encontradas nos documentos consultados. A ausência de um candidato em determinado bloco temático não significa necessariamente que seu programa não mencione o assunto. Significa que, no recorte utilizado, não foi identificada proposta suficientemente específica para aquela comparação.
Saúde nos programas: comparação rápida
Os programas apresentam diferenças tanto nas prioridades quanto nos instrumentos propostos. Entre as medidas identificadas estão ampliação da atenção especializada, regulação das filas por risco, filas públicas e transparentes, uso complementar da rede privada, expansão da telemedicina, prontuários eletrônicos, produção pública ou nacional de medicamentos, fortalecimento da atenção primária e mudanças na formação ou remuneração de profissionais.
Também há diferenças sobre a organização do sistema: algumas candidaturas defendem ampliar ou tornar integral a gestão estatal, enquanto outras propõem parcerias ou utilização da capacidade disponível no setor privado.
A síntese abaixo apresenta os principais pontos encontrados em cada programa.
O que cada candidato propõe para a saúde
Augusto Cury – 70
Augusto Cury, do Avante, apresenta propostas para atenção primária, prevenção modernização da gestão do SUS.
O programa prevê o Programa Nacional de Saúde Mental e Apoio Emocional, além de ações de prevenção e detecção precoce do câncer. Na área tecnológica, propõe o Tele Saúde Brasil, definido no documento como iniciativa de telemedicina em massa para desafogar o SUS. As propostas aparecem principalmente nas páginas 44, 45 e 161 a 166 do programa, segundo o índice temático do TSE.
Clariana Barão – 27
Clariana Barão, da Democracia Cristã, propõe uma atenção primária com maior capacidade de resolução e coordenação do cuidado.
O programa inclui prevenção, diagnóstico precoce, vacinação, saúde materno-infantil, saúde digital e telemedicina. Também prevê regulação inteligente de filas e medidas relacionadas à inovação, pesquisa clínica e avaliação de terapias no SUS. As propostas de saúde estão concentradas nas páginas 11 e 12 do documento.
Edmilson Costa – 21
Edmilson Costa, do PCB, defende um sistema de saúde 100% público, gratuito e universal, com estatização do setor privado de saúde e fim das Organizações Sociais.
O programa propõe investimento equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na saúde pública, fortalecimento da atenção básica, ampliação do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e criação de Conselhos Populares de Saúde.
Na saúde mental, defende o fortalecimento do SUS sob a perspectiva da luta antimanicomial e a proibição de comunidades terapêuticas.
Flávio Bolsonaro – 22
Flávio Bolsonaro, do PL, apresenta propostas de digitalização do SUS, com prontuário eletrônico único e uso de inteligência artificial nos agendamentos.
O programa também prevê utilização de horários ociosos da rede privada, modernização dos hospitais universitários federais, entrega domiciliar de medicamentos, telessaúde, Saúde da Família, exames preventivos, imunização, saúde mental e medidas voltadas à população idosa.
Hertz Dias – 16
Hertz Dias, do PSTU, defende um SUS público, universal, gratuito e 100% estatal, com fim das Organizações Sociais, fundações e outras formas privadas de gestão mencionadas no programa.
Entre as propostas estão a expansão dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a proibição de investimentos públicos em comunidades terapêuticas e a produção pública de medicamentos e insumos estratégicos.
Luiz Inácio Lula da Silva – 13
Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, apresenta propostas para ampliar a atenção especializada e reduzir filas, com referência ao programa Agora Tem Especialistas.
O plano também inclui o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, Farmácia Popular e distribuição de medicamentos, Mais Médicos e fixação de profissionais, saúde mental e CAPS, saúde da mulher, saúde bucal e recuperação das coberturas vacinais.
Renan Santos – 14
Renan Santos, do Missão, propõe uma Escala Nacional de Estratificação de Risco (ENER), descrita no programa como sistema de “fila viva” com prioridade de acordo com a gravidade.
O programa prevê ainda um Fundo Nacional de Modernização do Acesso (FNMA), um Prontuário Eletrônico Nacional Interoperável, integração do Projeto Genomas Brasil ao prontuário, telessaúde com inteligência artificial e um modelo de centros regionais para demandas complexas.
Ronaldo Caiado – 55
Ronaldo Caiado, do PSD, apresenta propostas relacionadas à atenção primária, organização do acesso, saúde mental e digitalização.
O programa prevê fila transparente e regulação inteligente, além de iniciativas para câncer, doenças raras, vacinação, vigilância e resposta a emergências. Também inclui a proposta de “hospital inteligente”, associada ao SUS Digital.
Rui Costa Pimenta – 29
Rui Costa Pimenta, do PCO, propõe um plano emergencial de construção de hospitais e postos de saúde e aumento de recursos para a saúde pública.
Na área profissional, o programa prevê piso salarial de R$ 8 mil para trabalhadores da saúde e abertura de cursos de Medicina e Enfermagem em universidades públicas. Também propõe a volta do Mais Médicos e medidas relacionadas à validação de diplomas de médicos brasileiros e estrangeiros.
Samara Martins – 80
Samara Martins, da Unidade Popular, defende gestão 100% estatal dos serviços de saúde e o fim das Organizações Sociais de Saúde.
O programa propõe uma política de soberania farmacêutica, com produção nacional de medicamentos e vacinas, além de valorização dos trabalhadores da saúde e pisos salariais. Também apresenta medidas específicas para a saúde indígena e propostas relacionadas à atuação dos planos privados de saúde.
Wilson Grassi – 35
Wilson Grassi, do Democrata, coloca a atenção primária como prioridade orçamentária e propõe uma fila única e pública para cirurgias e procedimentos diagnósticos.
O programa também prevê prontuário eletrônico integrado entre os níveis de atenção, produção nacional de medicamentos e insumos estratégicos e adoção do conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental.
Romeu Zema – 30
Romeu Zema, do Novo, propõe ampliar o uso da telemedicina, do prontuário eletrônico e de um registro nacional de saúde.
O programa também prevê parcerias público-privadas e utilização da capacidade ociosa do setor privado para reduzir as filas no SUS.
O que os candidatos propõem para reduzir as filas do SUS?
A redução das filas aparece em diferentes programas, mas os instrumentos propostos não são os mesmos.
Augusto Cury relaciona telemedicina e modernização da gestão à ampliação do acesso. Clariana Barão propõe saúde digital, telemedicina e regulação inteligente das filas.
Flávio Bolsonaro prevê inteligência artificial nos agendamentos e utilização de horários ociosos da rede privada. Lula relaciona a redução das filas à atenção especializada e ao Agora Tem Especialistas.
Renan Santos propõe a Escala Nacional de Estratificação de Risco, com uma “fila viva” baseada na gravidade, enquanto Ronaldo Caiado prevê fila transparente e regulação inteligente.
Wilson Grassi propõe fila única e pública para cirurgias e procedimentos diagnósticos. Romeu Zema prevê parcerias público-privadas e uso da capacidade ociosa do setor privado para reduzir filas.
Como os programas tratam atenção primária e prevenção?
A atenção primária ou básica aparece de forma explícita nos programas de Augusto Cury, Clariana Barão, Edmilson Costa, Ronaldo Caiado e Wilson Grassi. Flávio Bolsonaro apresenta medidas relacionadas à Saúde da Família, prevenção e exames preventivos.
Cury relaciona atenção primária e prevenção. Barão acrescenta diagnóstico precoce, vacinação e saúde materno-infantil. Edmilson Costa associa o fortalecimento da atenção básica ao aumento do investimento público.
Caiado inclui atenção primária entre os eixos de saúde, enquanto Grassi estabelece esse nível de assistência como prioridade orçamentária.
Medicamentos e produção nacional
Os programas também apresentam propostas diferentes para acesso, distribuição ou produção de medicamentos.
Edmilson Costa propõe ampliar e consolidar o Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Hertz Dias defende produção pública de medicamentos e insumos estratégicos.
Flávio Bolsonaro prevê entrega domiciliar de medicamentos. Lula inclui Farmácia Popular, distribuição de medicamentos e fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
Samara Martins propõe “soberania farmacêutica”, com produção nacional de medicamentos e vacinas. Wilson Grassi também prevê produção nacional de medicamentos e insumos estratégicos.
O que aparece sobre saúde mental?
Augusto Cury propõe um Programa Nacional de Saúde Mental e Apoio Emocional.
Edmilson Costa defende o fortalecimento do SUS na perspectiva da luta antimanicomial e a proibição de comunidades terapêuticas. Hertz Dias propõe expansão dos CAPS e proibição de investimentos públicos em comunidades terapêuticas.
Flávio Bolsonaro inclui saúde mental entre as medidas apresentadas na área de saúde.
Lula menciona saúde mental e CAPS. Ronaldo Caiado também apresenta proposta específica para saúde mental.
Tecnologia ganha espaço nos programas
Telemedicina, prontuário eletrônico, integração de dados e inteligência artificial aparecem em diferentes candidaturas.
Augusto Cury propõe o Tele Saúde Brasil. Clariana Barão prevê saúde digital, telemedicina e regulação inteligente de filas.
Flávio Bolsonaro propõe digitalização do SUS, prontuário eletrônico único, telessaúde e inteligência artificial aplicada aos agendamentos.
Renan Santos apresenta Prontuário Eletrônico Nacional Interoperável, telessaúde com inteligência artificial e integração do Projeto Genomas Brasil ao prontuário.
Ronaldo Caiado inclui o SUS Digital por meio da proposta de hospital inteligente.
Wilson Grassi propõe prontuário eletrônico integrado entre os níveis de atenção, enquanto Romeu Zema prevê telemedicina, prontuário eletrônico e registro nacional de saúde.
O que os programas dizem sobre profissionais de saúde?
Algumas candidaturas apresentam propostas específicas relacionadas à formação, fixação, remuneração ou valorização dos trabalhadores.
Lula inclui Mais Médicos e políticas de fixação de profissionais.
Rui Costa Pimenta propõe piso salarial de R$ 8 mil para profissionais da saúde e abertura de cursos de Medicina e Enfermagem em universidades públicas.
Samara Martins prevê valorização dos trabalhadores da saúde e instituição de pisos salariais.
Outros programas tratam dos profissionais dentro de propostas mais amplas de gestão, financiamento ou organização dos serviços.
Estratégias diferentes para desafios semelhantes
Os programas mostram que problemas semelhantes são tratados por instrumentos distintos.
Nas filas do SUS, por exemplo, aparecem propostas de ampliação da atenção especializada, estratificação de risco, regulação digital, transparência das filas, fila única pública e utilização da capacidade disponível na rede privada.
Na tecnologia, aparecem telemedicina, prontuários eletrônicos, integração de dados, inteligência artificial e digitalização dos serviços.
Também há diferenças na organização do sistema. Edmilson Costa, Hertz Dias e Samara Martins apresentam propostas de ampliação ou integralização da gestão estatal em saúde. Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, por sua vez, incluem utilização da capacidade disponível no setor privado; Zema também menciona parcerias público-privadas.
Essas diferenças descrevem o conteúdo dos programas. Esta reportagem não avalia qual proposta é melhor, mais viável ou mais eficiente, nem estima custos ou impactos.
Como o ComSaúde fez o levantamento
O ComSaúde utilizou como referência os programas de governo apresentados oficialmente pelas candidaturas à Justiça Eleitoral.
O Tribunal Superior Eleitoral informa que as propostas disponibilizadas em sua página foram retiradas dos documentos apresentados pelas candidaturas conforme a legislação eleitoral e estão disponíveis no Sistema DivulgaCandContas. O TSE também permite consultar os programas completos em PDF e visualizar propostas organizadas por assunto.
Em 24 de setembro, o Tribunal lançou uma página que organiza as propostas presidenciais em oito macrotemas e permite consulta direta por assuntos. Segundo o TSE, a ferramenta tem como principal fonte o DivulgaCandContas.
Consulte os documentos originais: Planos de governo dos candidatos à Presidência — Eleições 2026, no TSE
A página temática consultada ainda apresenta material relacionado à chapa do PRTB. O TSE, porém, informou em 11 de setembro que indeferiu o registro da chapa formada por Pablo Marçal e Leonardo Avalanche e confirmou 12 candidaturas na disputa presidencial. Por esse motivo, essa chapa não integra o levantamento do ComSaúde.
Critério do levantamento
Para esta reportagem, foram consideradas propostas de saúde identificadas nos programas oficiais e no índice temático disponibilizado pelo TSE. Os temas foram agrupados pelo ComSaúde para facilitar a comparação entre candidaturas.
Os resumos não reproduzem integralmente os programas. A ausência de uma candidatura em determinado bloco temático não deve ser interpretada como afirmação de que seu programa não contém qualquer referência ao assunto, mas como indicação de que não foi identificada, no recorte utilizado, proposta suficientemente específica para aquela comparação.
A consulta e a conferência das fontes para esta versão foram realizadas em 28 de setembro de 2026.
O ComSaúde não classifica propostas como melhores ou piores, não atribui notas às candidaturas e não faz recomendação eleitoral. O objetivo da série é organizar informações de interesse público para facilitar o acesso do eleitor ao conteúdo formalmente apresentado pelas candidaturas.
A próxima reportagem da série ComSaúde nas Eleições 2026 vai abordar as propostas dos candidatos ao Governo da Bahia para a saúde.
Créditos Autor: Redação
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