Na segunda-feira 4, o apelo de uma policial penal paulista ecoou nas redes sociais e mobilizou a categoria. Natália Cristina Raphael Fernandes publicou um vídeo no Instagram para denunciar a situação angustiante que enfrenta no ambiente de trabalho, na esperança de que sua súplica chegasse “às autoridades”. Em novembro, o marido dela, Marcelo Augusto Raphael Fernandes, também policial penal, cometeu suicídio. Segundo a família, o servidor sofria perseguições da direção do presídio onde atua­va, em Pirajuí (SP), e não suportou a pressão. Agora, a viúva pede transferência humanitária, por não conseguir mais frequentar o mesmo local em que conheceu o companheiro e antigo colega. O pedido foi, porém, recusado.

O drama familiar não é um caso isolado. Em 2025, ao menos seis policiais penais tiraram a própria vida no estado de São Paulo. Neste ano, até abril, já foram registrados quatro casos. O ambiente de trabalho é considerado insalubre pelos servidores, devido à estrutura precária e à falta de pessoal. Segundo o Sinppenal, que representa a categoria, o déficit de funcionários chega a 39%, e cerca de 20% dos ativos estão afastados por doenças psíquicas. O governador Tarcísio de Freitas não contratou novos servidores durante a sua gestão e deixou expirar o prazo do último concurso.

Natália relata que o ambiente de trabalho na Penitenciária Feminina de Pirajuí, no interior do estado, piorou nos últimos anos e afetou diretamente seu marido. “Ele era obrigado a passar dez horas na muralha, sem poder descer para ir ao banheiro ou comer”, denuncia. O assédio moral começou quando o policial passou a se recusar a fazer atividades extras. “Ele cuidava até da parte elétrica da penitenciária, instalou todas as câmeras de segurança. Qualquer problema ele resolvia sem cobrar nada”, conta a viúva.

Em 2025, ao menos seis agentes tiraram a própria vida. Neste ano, até abril, foram registrados quatro novos casos

A gota d’água foi uma “falsa acusação de importunação sexual” apresentada por uma detenta, afirma Natália. “Chegamos ao trabalho e a diretora o chamou para conversar. Ameaçou muito, disse que tinha feito um boletim de ocorrência e que ele seria preso.” Na ocasião, a gestora se recusou a mostrar o vídeo em que estaria registrado o suposto abuso. Além de ser afastado das funções, o servidor teve a arma confiscada. “Ele entrou em pânico, mas não imaginei que faria o que fez”, diz a viúva.

Lourival Fernandes, pai do policial penal, revela que, nos últimos meses, o filho reclamava constantemente do trabalho e já não se sentia bem naquele ambiente. “Ele estava quase terminando a faculdade de Direito e ia sair da penitenciária”, lamenta o aposentado. Meses depois, a esposa teve acesso ao vídeo, gravado pelas câmeras de segurança da unidade, e concluiu que o marido era inocente. Desde o suicídio dele, a policial penal insiste no pedido de transferência, rejeitado sob a alegação de “déficit de pessoal”.

Em novembro de 2025, outro policial penal recorreu às redes sociais em busca de ajuda. Em uma postagem do governador Tarcísio de Freitas no Instagram, em homenagem à esposa, a primeira-dama Cristiane Freitas, o servidor Luiz Henrique Ribeiro deixou o seguinte comentário: “Vi o quanto o Sr. fala da sua família, então ajuda a minha, sou funcionário público há 23 anos e estou precisando de ajuda urgente para tratamento de duas doenças que têm cura (…)”. O apelo não recebeu resposta. Meses depois, no início de fevereiro, o servidor tirou a própria vida. Para Antônio Carlos Ribeiro, se naquele momento o irmão tivesse sido acolhido, o desfecho seria outro.

Luto. Após a morte do marido, Natália pediu transferência, e não foi atendida – Imagem: Arquivo Pessoal

Policial penal há mais de 20 anos, Antônio Carlos escolheu a profissão inspirado no irmão. “Apesar de ser mais novo, ele era meu espelho”, conta, com a voz embargada. Durante mais de uma hora de conversa com a reportagem, em nenhum momento o servidor usou os termos “morte” ou “suicídio”. Refere-se ao episódio envolvendo o irmão como “o fato”. Segundo ele, a rotina extenuante na penitenciária levou ao adoecimento de Luiz Henrique. Começou com um tremor na pálpebra, evoluiu para paralisia hemifacial e culminou em depressão profunda e síndrome do pânico.

“Meu irmão se tratou por mais de quatro anos. Era um rapaz vaidoso, e aquele espasmo consumia todo o rosto dele”, recorda, com tristeza, Antônio Carlos. As crises de insônia se agravaram, e o tratamento oferecido pela Secretaria de Administração Penitenciária era precário. “Ele foi encaminhado a um Centro de Atenção Psicossocial, mas o atendimento era online. Acho que ele precisava de um acolhimento mais humano.”

Luiz Henrique deixou a esposa e três filhos. “Minha família está destruída. E minha cunhada até agora não está recebendo a pensão a que tem direito”, denuncia o irmão. O sentimento que fica, segundo o policial penal, é de absoluto desamparo. “A gente dá a vida pelo Estado. Mas, quando precisamos de suporte, ele nos vira as costas”, lamenta Antônio Carlos.

O déficit de pessoal chega a 39%, e cerca de 20% dos servidores estão afastados por doenças psíquicas, denuncia sindicato

Não são apenas os policiais penais que atuam no limite. Os profissionais da saúde prisional enfrentam um déficit de 69% e, em março, o governador extinguiu 308 cargos do setor. Sem efetivo para a escolta armada em consultas, exames e outros procedimentos, 17 mil atendimentos médicos a detentos foram cancelados apenas em 2025. “Estamos em uma panela de pressão”, afirma Fábio Cesar Ferreira, presidente do Sinppenal, conhecido como Jabá. Em 2013, havia 31.847 policiais penais para 207 mil detentos no estado de São Paulo. Em abril de 2026, eram 23.126 agentes para 228 mil encarcerados. “Cuidamos da maior população carcerária do País e recebemos um dos salários mais baixos”, critica o sindicalista.

De acordo com um relatório do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, divulgado no fim de abril, morre um detento a cada 19 horas em São Paulo. “Eles estão privados de liberdade, mas não deveriam ser privados de saúde, alimentação e direitos básicos”, afirma Jabá. A situação degradante tem resultado em motins e agressões contra policiais. Segundo Sérgio Vieira Cardoso, assessor da direção do sindicato, os ataques incluem “arremesso de fezes, urina, água quente e produtos de limpeza”.

Em 25 de dezembro, na penitenciária de Marília, um incêndio provocado por detentos deixou dez mortos e levou cinco servidores à internação. Um policial penal, que prefere não se identificar, relata ter sido agredido por dezenas de ­detentos dentro de uma cela. “Confisquei um papel em que um detento listava nomes de quem seria ‘batizado’ pelo PCC e passei a ser agredido com socos, chutes e empurrões”, diz. Há unidades em que quatro policiais custodiam mais de 1,5 mil detentos. “Se houver uma rebelião, não temos como controlar”, alerta.

Sofrimento. Antes de cometer suicídio, Luiz Fernando (camisa amarela) pediu ajuda ao governador. “Todos estão no limite”, comenta Jabá, do Sinppenal – Imagem: Pablo Jacob/GOVSP, Drika Pinheiro e Redes Sociais

Em resposta a CartaCapital, a Secretaria de Administração Penitenciária afirma que “investe na capacitação e recomposição do efetivo e está com concurso público aberto para a contratação de 1,1 mil policiais penais”. A nota acrescenta que “seguem em andamento os trâmites administrativos” para a transferência pleiteada por Natália Fernandes, que atua na Penitenciária Feminina de Pirajuí, e menciona o lançamento de um guia de saúde mental para servidores do sistema prisional, com “informações objetivas sobre os transtornos mentais mais recorrentes, sinais de alerta relacionados ao risco de suicídio e orientações sobre onde procurar ajuda”. Cita ainda um serviço de “atendimento online de psicólogos”, modelo criticado por familiares de vítimas de suicídio, como relatado na reportagem.

A SAP não respondeu aos ques­ti­o­na­men­tos sobre a falta de escolta para levar presos a consultas e exames, o que provocou o cancelamento de 17 mil atendimentos a detentos em 2025. Também não esclareceu qual é a assistência prestada aos familiares de servidores que cometeram suicídio. •

Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘“Panela de pressão”’

Créditos Autor: Murillo Ferreira Pinto
Créditos Imagens: Reprodução Internet

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