Pesquisadores do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), publicaram um estudo que reforça os riscos associados ao consumo de produtos para emagrecimento vendidos sem controle sanitário adequado. O trabalho reúne evidências clínicas, químicas e toxicológicas que relacionam o uso de um suplemento adquirido pela internet ao desenvolvimento de lesão hepática aguda grave.
A revista científica Toxicology Reports publicou o estudo, que descreve o caso de um paciente com importante lesão hepatocelular após consumir um produto comercializado para perda de peso. Durante a investigação, os especialistas descartaram outras causas conhecidas de dano hepático, como hepatites virais, doenças autoimunes e alterações estruturais do fígado.
Segundo o chefe do Setor de Farmácia e um dos pesquisadores responsáveis pela investigação, Leonardo Kister, o trabalho fortalece a integração entre assistência, ensino e inovação.
“Na assistência, ele eleva o patamar da segurança do paciente e da farmacovigilância, permitindo diagnosticar com precisão lesões hepáticas graves e identificar produtos adulterados comercializados sem controle. No ensino, a investigação consolida um fluxo de trabalho multidisciplinar que une médicos, farmacêuticos e estudantes, fortalecendo o Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica na formação de profissionais altamente qualificados. Já na inovação em pesquisa, o setor projeta-se internacionalmente ao aplicar métodos avançados de química analítica e toxicologia experimental para desmascarar fraudes em suplementos, gerando publicações e apresentações em congressos de prestígio global”, afirma Leonardo.
Investigação identificou adulteração
Para esclarecer a origem da toxicidade, a equipe adotou uma abordagem multidisciplinar. O trabalho integrou avaliação hepatológica especializada, autenticação química e ensaios toxicológicos.
Os pesquisadores classificaram como altamente provável a relação causal entre o produto investigado e a lesão hepática. A conclusão teve como base a aplicação prospectiva do método Updated RUCAM (2016), considerado uma das principais ferramentas internacionais para avaliar lesões hepáticas induzidas por medicamentos, produtos herbais e suplementos dietéticos.
Além disso, as análises químicas identificaram múltiplos compostos não declarados ao consumidor. Para isso, a equipe utilizou técnicas como cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS) e espectrometria de emissão óptica com plasma indutivamente acoplado (ICP-OES).
Os resultados evidenciaram adulteração e mostraram divergências entre a composição real da amostra e as informações apresentadas durante a comercialização.
Pesquisa fortalece farmacovigilância
Os pesquisadores também realizaram ensaios toxicológicos complementares. Esses testes forneceram evidências importantes para compreender o potencial tóxico da amostra investigada.
Dessa forma, a integração de dados clínicos, químicos e biológicos permitiu uma análise mais ampla do caso. Além disso, o estudo demonstrou a importância das abordagens translacionais para investigar lesões hepáticas associadas ao consumo de produtos naturais e suplementos dietéticos.
Segundo a equipe, esse modelo aproxima a assistência ao paciente da pesquisa laboratorial. Ao mesmo tempo, contribui para fortalecer a farmacovigilância e apoiar ações de vigilância sanitária.
Reconhecimento internacional
A pesquisa também ganhou destaque fora do Brasil. Recentemente, o médico hepatologista Vinícius Santos Nunes apresentou os resultados do estudo no Congresso da European Association for the Study of the Liver (EASL), realizado em Barcelona, na Espanha.
O evento reúne especialistas de diversos países e é considerado um dos mais importantes do mundo na área de hepatologia. Por isso, a apresentação representa um reconhecimento relevante para a pesquisa desenvolvida na Bahia.
Além disso, a participação no congresso reforçou a importância da colaboração entre farmacêuticos, químicos, médicos hepatologistas e estudantes envolvidos na investigação de casos suspeitos de dano hepático.
Vigilância sobre produtos naturais deve ser ampliada
O estudo também destaca o papel da pesquisa acadêmica no fortalecimento da farmacovigilância no Brasil. A iniciativa conta com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
O incentivo contribui para a formação de profissionais qualificados. Além disso, fortalece a infraestrutura científica e a produção de pesquisas voltadas à segurança do paciente.
Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a vigilância sobre produtos comercializados como “naturais”, especialmente aqueles adquiridos em plataformas digitais.
Muitos desses itens chegam ao consumidor sem rastreabilidade adequada ou controle de qualidade. Nesse contexto, a autenticação química associada à avaliação clínica especializada pode ser decisiva para o diagnóstico correto e para a proteção da saúde pública.
Portanto, os autores defendem o fortalecimento das ações de monitoramento e fiscalização. A medida pode reduzir riscos à população e contribuir para o uso mais seguro de suplementos alimentares.
Créditos Autor: Isabela
Créditos Imagens: Reprodução Internet

