Por Luciana Santana*
A disputa pelo Senado ocupa, em 2026, uma posição muito mais relevante do que normalmente recebe no debate eleitoral. Enquanto as atenções se concentram na Presidência da República e nos governos estaduais, serão renovadas 54 das 81 cadeiras da Casa, ou seja, dois terços de sua composição. Cada estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores, com mandatos de oito anos. O eleitor, portanto, terá direito a dois votos, necessariamente destinados a candidatos diferentes.
Não se trata de uma eleição secundária. O Senado participa da aprovação de leis e emendas constitucionais, confirma autoridades indicadas pelo presidente da República, aprecia escolhas para o Supremo Tribunal Federal, o Banco Central, os tribunais superiores, as agências reguladoras e as representações diplomáticas. Cabe também à Casa processar e julgar crimes de responsabilidade atribuídos a ministros do STF e outras autoridades. Além disso, o Senado funciona como uma instância central de representação dos estados: São Paulo e Acre, apesar de suas enormes diferenças populacionais, elegem igualmente três senadores.
A renovação de dois terços da Casa pode modificar profundamente a correlação de forças do Congresso. O resultado afetará a capacidade de governar de quem vencer a eleição presidencial, a formação de maiorias legislativas, a relação entre Executivo e Judiciário e a própria distribuição territorial do poder. É por isso que partidos e lideranças nacionais passaram a tratar as candidaturas ao Senado como peças estratégicas, e não apenas como acomodações nas chapas estaduais.
Cenário aberto em vários estados
As pesquisas mais recentes mostram um quadro ainda bastante aberto. Em poucos estados, é possível identificar uma cadeira praticamente consolidada. Helder Barbalho (MDB), no Pará, Mauro Mendes (União Brasil), em Mato Grosso, Gracinha Caiado (União Brasil), em Goiás, e Renato Casagrande (PSB), no Espírito Santo, aparecem com vantagens mais consistentes. Na maior parte do País, disputa pela segunda vaga — e, em vários casos, pelas duas — permanece competitiva.
Alagoas é um exemplo expressivo. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 15 de setembro aponta Renan Calheiros (MDB) com 22%, Marina JHC (PSDB) com 21%, Arthur Lira (PP) com 19% e Davi Davino Filho (Republicanos) com 17%. Os três primeiros estão tecnicamente empatados, e a proximidade de Davi impede que seja excluído da disputa. A saída de Alfredo Gaspar (PL), deslocado para a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, reorganizou o campo da direita e beneficiou especialmente Lira, mas não produziu uma definição antecipada.
Há, ainda, uma forte incerteza em São Paulo. Guilherme Derrite (PP) aparece numericamente à frente, seguido por Simone Tebet (PSB), André do Prado (PL) e Marina Silva (Rede). A eleição envolve candidaturas associadas a campos políticos distintos, mas igualmente dependentes das alianças estaduais e do desempenho dos candidatos ao governo.
No Rio de Janeiro, Benedita da Silva (PT), Carlos Jordy (PL), Marcelo Crivella (Republicanos), Pedro Paulo (PSD) e Carlos Portinho (PL) formam um bloco competitivo. Em Minas Gerais, Marília Campos (PT) lidera numericamente, mas Carlos Viana (PSD), Aécio Neves (PSDB), Domingos Sávio (PL) e Marcelo Aro (PP) mantêm chances reais.
Nacionalização do debate tem limites
Esse quadro suscita uma questão importante: até que ponto as eleições para o Senado serão nacionalizadas?
Existe, sem dúvida, um processo de nacionalização. A polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) organiza parte das candidaturas, fornece identidade política às chapas e influencia a transferência de votos. O bolsonarismo atribuiu ao Senado um papel central em sua estratégia de enfrentamento ao Supremo. Temas como impeachment de ministros, limites às decisões individuais da Corte, segurança pública e endurecimento penal passaram a compor o repertório de candidatos de direita. A possibilidade de ampliar a bancada do PL e de seus aliados tornou-se um objetivo explícito da campanha.
No campo governista, a eleição de senadores é apresentada como condição para assegurar governabilidade, proteger políticas públicas e reduzir a capacidade de bloqueio de uma oposição fortalecida. O PT apresenta candidaturas competitivas na Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amapá, Espírito Santo e Acre. Seu melhor cenário está na Bahia, onde Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT) disputam as duas vagas, embora João Roma (PL) permaneça competitivo.
Seria um equívoco, no entanto, interpretar as 27 eleições estaduais apenas como uma reprodução da disputa presidencial. As eleições para o Senado continuam fortemente territorializadas. Governadores, ex-governadores, famílias políticas, redes municipais, prefeitos, emendas parlamentares e alianças regionais têm peso decisivo. Helder Barbalho (MDB), Mauro Mendes (União Brasil), Renato Casagrande (PSB), João Azevêdo (PSB), Roseana Sarney (MDB) e Cid Gomes (PSB) não dependem exclusivamente da polarização nacional. São lideranças que mobilizam trajetórias estaduais, máquinas partidárias e bases municipais próprias.
A combinação entre nacionalização e territorialização aparece de maneira especialmente clara no Nordeste. A região mantém ampla preferência por Lula (PT) na eleição presidencial, mas isso não significa que o PT ou a esquerda dominarão automaticamente as disputas ao Senado. MDB, PSD, PSB, União Brasil, PP e Republicanos apresentam candidaturas altamente competitivas. Em diversos estados, o eleitor pode votar em Lula para presidente, apoiar um governador aliado e escolher para o Senado um candidato situado mais ao centro ou mesmo à direita.
A existência de dois votos reforça essa complexidade. Parte do eleitorado pode distribuir suas escolhas entre campos adversários. Outro segmento pode votar apenas em um candidato, desperdiçando o segundo voto. As campanhas tentarão estimular o “voto casado”, apresentando duplas vinculadas ao mesmo projeto, mas a coordenação nem sempre funciona. Candidatos da mesma coligação também competem entre si por visibilidade, recursos e apoio dos prefeitos.
Os levantamentos em Santa Catarina ilustram essa instabilidade. Carol De Toni (PL), Esperidião Amin (PP) e Carlos Bolsonaro (PL) disputam as duas vagas, com diferenças relevantes entre os resultados apresentados por Quaest e AtlasIntel. No Paraná, Deltan Dallagnol (Novo), Alexandre Curi (Republicanos), Filipe Barros (PL) e Gleisi Hoffmann (PT) integram o grupo competitivo.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) lidera, mas Leila do Vôlei (PDT), Bia Kicis (PL) e Erika Kokay (PT) disputam a segunda cadeira. Em Pernambuco, Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT) aparecem à frente, mas Mendonça Filho (PL) e Eduardo da Fonte (PP) continuam próximos.
Uma nova correlação de forças
O que podemos esperar, portanto, é um Senado mais fragmentado e provavelmente mais conservador, mas não necessariamente controlado por um único campo político. O PL tem possibilidade real de crescimento, especialmente no Sul, no Centro-Oeste e em alguns estados do Norte. O PT pode ampliar sua presença, sobretudo no Nordeste e em estados estratégicos do Sudeste. Entretanto, MDB, PSD, União Brasil, PP, Republicanos e PSB deverão conservar papel decisivo.
A futura maioria não resultará apenas da soma entre governistas e bolsonaristas. Ela dependerá do comportamento de partidos de centro com forte autonomia estadual. Essas legendas poderão apoiar o governo em matérias econômicas e federativas, aproximar-se da oposição em agendas de segurança e costumes ou atuar como mediadoras nas tensões entre Executivo, Congresso e Supremo.
As pesquisas oferecem uma fotografia do momento, não uma previsão definitiva. As diferenças metodológicas entre os institutos, a elevada quantidade de indecisos e a dinâmica peculiar dos dois votos recomendam cautela. Ainda assim, uma conclusão já pode ser apresentada: a eleição para o Senado será uma das disputas mais importantes de 2026. Seu resultado definirá não apenas quem ocupará 54 cadeiras, mas os limites políticos e institucionais do próximo governo.
*Professora da Universidade Federal de Alagoas.
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