Mesmo após 15 anos da criação da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, pessoas LGBTQIAPN+ ainda encontram obstáculos para acessar um atendimento acolhedor e livre de discriminação no Sistema Único de Saúde (SUS). Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) mostra que desafios institucionais, lacunas na formação dos profissionais e falhas na integração dos serviços continuam dificultando a efetivação da política pública.
Publicado em 2023 na revista científica Divers@!, o levantamento reuniu representantes da comunidade LGBTQIAPN+, profissionais da saúde e gestores públicos. Ao todo, 48 pessoas participaram de quatro grupos de discussão realizados no Paraná. Além disso, a pesquisa identificou dificuldades burocráticas e situações de preconceito que levam muitas pessoas a adiar ou evitar a busca por atendimento.
Preconceito ainda afasta pacientes dos serviços
Situações vividas durante consultas ilustram os desafios enfrentados pela população LGBTQIAPN+. Mulheres lésbicas podem omitir informações por receio de julgamentos. Homens gays, por sua vez, relatam atendimentos focados apenas em infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Já pessoas trans ainda enfrentam episódios de desrespeito ao nome social e à identidade de gênero.
Segundo os pesquisadores, essas experiências enfraquecem o vínculo entre pacientes e profissionais de saúde e reduzem a confiança nos serviços oferecidos pelo SUS. Como consequência, muitas pessoas deixam de procurar atendimento no momento adequado.
Além disso, o estudo aponta que o medo da discriminação continua sendo um dos principais fatores que levam parte da população a postergar consultas, exames preventivos e tratamentos. Dessa forma, o risco de agravamento de problemas de saúde aumenta.
Formação universitária ainda precisa avançar
A pesquisa também identificou que muitos profissionais concluem a graduação com boa preparação técnica, mas pouca formação sobre diversidade, identidade de gênero e orientação sexual.
Para a professora Laura Christina Macedo, do Departamento de Enfermagem da UFPR, essa deficiência permanece mesmo em cursos com projetos pedagógicos mais recentes. Segundo a pesquisadora, o ensino ainda é baseado, em muitos casos, em uma perspectiva heteronormativa e cisgênera. Como resultado, necessidades específicas da população LGBTQIAPN+ acabam ficando de lado.
Por isso, ela defende que temas como competência cultural, acolhimento, direitos humanos e saúde mental sejam trabalhados de forma transversal durante toda a formação dos futuros profissionais.
Na prática, disciplinas como ginecologia devem considerar os exames necessários conforme a anatomia da pessoa, independentemente da identidade de gênero. Além disso, conteúdos sobre saúde mental precisam preparar estudantes para reconhecer impactos da discriminação, como ansiedade, depressão e risco de suicídio.
O pesquisador Augusto Platini Menna Barreto Gomes, doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR, reforça que a mudança não depende apenas da inclusão de um conteúdo específico nos cursos. Segundo ele, é necessário revisar a forma como a diversidade é abordada durante toda a formação acadêmica.
Educação permanente também é fundamental
Os especialistas ressaltam que a qualificação não deve terminar na universidade. Pelo contrário, a Educação Permanente em Saúde precisa incluir conteúdos sobre diversidade e direitos humanos para fortalecer o atendimento no SUS.
Além disso, a recomendação envolve toda a equipe das unidades de saúde. Isso inclui profissionais da medicina, enfermagem e odontologia, além de recepcionistas e trabalhadores administrativos.
Segundo Laura Christina Macedo, combater formas sutis de discriminação é tão importante quanto enfrentar atitudes explícitas de preconceito. Afinal, pequenos episódios de desrespeito podem afastar usuários dos serviços de saúde.
Para Augusto Platini Menna Barreto Gomes, perguntar o nome social e utilizar os pronomes corretos representa mais do que uma demonstração de respeito.
“Perguntar o nome social e os pronomes não é uma questão de etiqueta, é o reconhecimento da existência de um sujeito”, afirma.
Atendimento exige acolhimento e integração dos serviços
Embora o estudo tenha identificado problemas administrativos, como falhas na comunicação entre os diferentes níveis de atendimento do SUS, os pesquisadores concluem que o maior desafio continua sendo o fator humano.
Em muitos casos, pacientes recebem atendimento adequado na Atenção Primária. No entanto, encontram dificuldades ao serem encaminhados para serviços especializados. Com isso, a continuidade do tratamento pode ser comprometida.
Além disso, os pesquisadores defendem o fortalecimento das chamadas tecnologias relacionais, baseadas na escuta qualificada, no acolhimento e na construção de vínculos entre profissionais e pacientes. Segundo eles, essas estratégias ajudam a reduzir desigualdades e ampliam o acesso aos serviços de saúde.
Superar estereótipos melhora a assistência
O estudo também alerta para concepções ainda presentes nos serviços de saúde que comprometem a qualidade da assistência.
Entre elas está a associação automática da população LGBTQIAPN+ às infecções sexualmente transmissíveis. Além disso, ainda persiste a falsa ideia de que mulheres lésbicas e bissexuais não precisam de acompanhamento ginecológico regular. Da mesma forma, muitos profissionais desconhecem que homens trans podem necessitar desses cuidados. Também há pouca atenção às demandas específicas de mulheres trans e pessoas intersexo.
Segundo os pesquisadores, esses equívocos dificultam a oferta de um cuidado integral e podem comprometer o diagnóstico precoce e a prevenção de diversas doenças.
Por fim, os autores destacam que a Política Nacional de Saúde Integral da população LGBTQIAPN+ já estabelece diretrizes como o respeito ao nome social, o combate à discriminação institucional e a qualificação contínua dos profissionais. No entanto, sua implementação ainda ocorre de forma desigual em diferentes regiões do país.
Assim, fortalecer a formação das equipes, ampliar a educação permanente e promover ambientes acolhedores são medidas consideradas essenciais para garantir um atendimento mais humanizado e assegurar o direito à saúde para toda a população.
Créditos Autor: Isabela
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