A tentativa de assassinato contra Donald Trump, durante o Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, no sábado, 26 de abril, pode ter um impacto reduzido na polarizada situação política dos Estados Unidos. A economia em declínio e a Guerra no Irã podem ter um peso muito maior, e levar a uma grande derrota eleitoral ao partido republicano nas eleições de meio de mandato, que acontecem em novembro.
À medida que os preços da gasolina oscilam em torno de 4,00 dólares por galão em todo o país — um aumento de 35% em relação a fevereiro, às vésperas da guerra — e o petróleo é negociado a 100 dólares o barril no mercado internacional, o apoio popular a Trump despencou.
O fato de não parecer haver uma resolução imediata para a guerra no Golfo Pérsico também minou severamente seu respaldo, inclusive entre formadores de opinião conservadores, outrora leais, que ajudaram a elegê-lo para a presidência por duas vezes.
A maioria dos observadores políticos prevê que os republicanos perderão o controle da Câmara dos Representantes e, talvez, até mesmo do Senado em 3 de novembro de 2026 — dez dias após o segundo turno das eleições brasileiras.
As pesquisas indicam que um número crescente de eleitores está abandonando o presidente. Uma pesquisa recente da CNBC/All America Economic Survey aponta que apenas 39% da população apoia a condução da economia por parte do presidente, enquanto 60% desaprovam seu desempenho. Este é o índice mais baixo registrado em seus dois mandatos. Além disso, um total de 77% dos entrevistados culpa Trump pelos altos preços da gasolina.
As atitudes em relação à guerra no Irã refletem uma tendência semelhante: 32% aprovam a maneira como Trump está conduzindo o conflito, enquanto 68% desaprovam — embora 65% dos republicanos ainda acreditem que ele esteja fazendo um bom trabalho.
No entanto, se a guerra se arrastar no Oriente Médio, é provável que ele perca o apoio dos republicanos adeptos do lema “America First” e dos independentes que se opõem ao envolvimento dos EUA em guerras estrangeiras. A oposição à guerra entre os democratas atingiu um nível sem precedentes de 96%, sendo que 82% dos eleitores independentes — aqueles não filiados a nenhum partido político — também se opõem ao conflito com o Irã.
A média das pesquisas realizada pelo New York Times aponta a taxa de aprovação geral de Trump em 39%, com 59% dos eleitores insatisfeitos com seu desempenho no cargo. Trata-se de uma notícia desanimadora para o presidente.
Vale destacar a perda de apoio a Trump entre os eleitores que o respaldaram nas eleições de 2024. Entre os eleitores latinos, o presidente registra atualmente uma taxa de desaprovação de 66% — um aumento de 11 pontos percentuais —, resultado em grande parte de sua política de deportação de trabalhadores indocumentados e de sua falta de foco no enfrentamento de uma economia em enfraquecimento.
Uma tendência semelhante vem sendo observada entre os jovens — de acordo com uma pesquisa do Yale Youth Poll — bem como entre os eleitores negros do sexo masculino. No início de 2025, alguns analistas políticos insistiam que Trump havia promovido uma mudança histórica na orientação desses eleitores em favor do Partido Republicano. Contudo, essa tendência dissipou-se por completo.
‘Eu sofrerei o impeachment’: Trump tem medo
Trump já demonstra preocupação com a possibilidade de uma vitória esmagadora do Partido Democrata na Câmara dos Representantes e de uma maioria apertadíssima no Senado. Durante um retiro estratégico dos republicanos da Câmara, realizado em janeiro de 2026, Trump dirigiu-se aos seus correligionários com as seguintes palavras: “Vocês precisam vencer as eleições de meio de mandato; pois, se não vencermos, o cenário será… Bem, eles encontrarão algum pretexto para me destituir. Eu sofrerei o impeachment.”
Neste momento, é improvável que mais do que um punhado de senadores republicanos mude de lado em 2027 para viabilizar os dois terços dos votos necessários para destituir o presidente do cargo, caso ele venha a enfrentar um terceiro julgamento de impeachment.
Ainda assim, líderes democratas prometeram iniciar investigações congressuais abrangentes sobre uma série de questões — desde o envolvimento de Trump com Jeffrey Epstein aos negócios corruptos da família Trump — caso conquistem o controle da Câmara dos Representantes em novembro.
Ciente de sua posição vulnerável, Trump parte para a ofensiva. Assim como Jair Bolsonaro, que questionou o processo eleitoral brasileiro em 2022, Trump previu que, se os republicanos perderem nas eleições de meio de mandato, isso se deverá a fraudes eleitorais.
A insistência contínua e reiterada de Trump de que venceu a eleição de 2020 contra Joe Biden gerou dúvidas entre seus apoiadores quanto à confiabilidade do processo eleitoral dos EUA. Uma pesquisa recente da Reuters/Ipsos mostra que 46% dos entrevistados acreditam haver fraudes eleitorais generalizadas cometidas por não cidadãos.
Contudo, essa desconfiança provém, em grande parte, dos republicanos (82%), ao passo que apenas 18% dos democratas e 38% dos independentes dão crédito a essa alegação promovida por Trump. O presidente também tem insistido que os votos enviados pelo correio são, igualmente, uma fonte de fraudes eleitorais desenfreadas.
No entanto, conforme apontou recentemente o New York Times, não há qualquer veracidade nessas alegações, as quais já foram refutadas por todos os especialistas confiáveis em práticas eleitorais nos Estados Unidos.
Os críticos consideram que as iniciativas legislativas republicanas — incluindo a Lei de Salvaguarda da Elegibilidade do Eleitor Americano (Safeguard American Voter Eligibility Act), ou Lei “Safe America” — que exigem medidas adicionais para assegurar eleições justas, são, em grande medida, concebidas para suprimir a participação daqueles que tendem a votar nos democratas. Até agora, os republicanos não obtiveram sucesso na aprovação desse projeto de lei no Senado.
Gerrymandering: redesenhando o tabuleiro para ganhar
Outra estratégia de Trump para manipular o resultado eleitoral tem sido convencer os legisladores estaduais a redesenhar os distritos eleitorais de modo a conferir uma vantagem aos republicanos. Nos Estados Unidos, as eleições são, em grande parte, administradas pelos governos estaduais e locais.
Tradicionalmente, após o governo dos EUA realizar um censo nacional no início de cada década, as legislaturas estaduais traçam os limites dos distritos eleitorais, nos quais representantes de diferentes partidos políticos concorrem entre si em eleições locais, estaduais ou federais.
Conforme detalhado em uma coluna anterior, desde o início do século 19, políticos dos dois principais partidos políticos têm se engajado em um processo conhecido como gerrymandering — uma manipulação de distritos eleitorais — por meio do qual o partido que detém o poder na legislatura estadual desenha o mapa eleitoral para garantir que a maioria dos residentes daquele distrito vote, muito provavelmente, em seus candidatos.
Em 2025, acreditando que “merecia” conquistar mais cinco cadeiras no Congresso pelo Texas, Trump pressionou com sucesso a legislatura estadual a redesenhar os mapas eleitorais para favorecer vitórias republicanas, realocando concentrações de votos com tendência democrata para distritos onde seriam superados numericamente por seus apoiadores.
Em resposta, a legislatura da Califórnia — controlada pelo Partido Democrata — convocou um referendo para traçar mapas distritais que favorecessem seu próprio partido, vencendo a votação por 64,4% a 35,6% em uma eleição especial. Os eleitores aprovaram um plano que, muito provavelmente, garantirá aos democratas mais cinco cadeiras no Congresso. Isso deu início à batalha pelo redesenho dos mapas em vários outros estados cujas constituições permitem tal procedimento.
Na semana passada, a Virgínia tornou-se o estado mais recente a entrar na disputa. Por uma margem estreita, os eleitores aprovaram mapas distritais que podem acrescentar mais cinco cadeiras democratas à bancada desse estado no Congresso. Neste ponto da competição de “olho por olho”, os democratas conseguiram obter uma leve vantagem sobre seu adversário.
No entanto, o governador republicano da Flórida, Ron DeSantis, prometeu fazer com que a legislatura de seu estado aprove novos mapas eleitorais para garantir ao seu partido algumas cadeiras “seguras” adicionais no Congresso.
Alguns analistas políticos argumentam que os esforços dos republicanos podem ter saído pela culatra, uma vez que eles traçaram os novos mapas no Texas dispersando o peso dos eleitores de tendência democrata por vários distritos de maioria republicana — baseados na confiança que os republicanos tinham em 2024 de que latinos e jovens haviam migrado para o seu partido. Visto que esses grupos apresentam agora uma tendência democrata, segundo pesquisas recentes, os republicanos podem acabar perdendo alguns dos novos distritos que criaram para favorecer sua própria legenda.
Ao mesmo tempo, Trump começa a perder apoio fundamental entre apresentadores de podcasts conservadores, comentaristas de notícias e jornalistas anteriormente leais, em razão da guerra com o Irã.
Tucker Carlson, o apresentador da Fox News que veiculou notícias falsas sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas durante as eleições de 2020, pediu desculpas recentemente aos seus apoiadores por ter feito campanha para Trump em 2024. De modo semelhante, a jornalista Megyn Kelly — anteriormente uma apoiadora leal da Casa Branca — agora critica duramente o presidente por causa da guerra. O podcaster Joe Rogan, que possui milhões de seguidores jovens, brancos e do sexo masculino, criticou veementemente a condução da guerra com o Irã por parte de Trump. Até mesmo o propagandista de teorias conspiratórias de direita, Alex Jones, foi alvo de críticas de Trump por ter contestado suas políticas de guerra no Oriente Médio.
Com as eleições para todos os membros do Congresso e para um terço do Senado a seis meses de distância — e com sua popularidade em queda vertiginosa —, os críticos de Trump temem que ele recorra a medidas mais desesperadas, tal como fez em 2020, quando mobilizou seus apoiadores para invadir o Capitólio dos EUA a fim de impedir a certificação dos resultados eleitorais presidenciais.
Ainda é cedo demais para prever exatamente quais medidas ele adotará. No entanto, não há dúvida de que ele não está preparado para enfrentar uma derrota retumbante em 3 de novembro de 2026. Ainda assim, se sua popularidade continuar a declinar, a economia não melhorar e a guerra no Irã se arrastar, Trump corre o risco de ver seu poder lhe escapar nos últimos dois anos de seu mandato.

