Um ano após o Supremo Tribunal Federal (STF) condenar Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente continua no centro da disputa política brasileira. A diferença é que, às vésperas das eleições de 2026, a batalha deixou de ser apenas jurídica e passou a ocupar o centro da campanha presidencial de seu filho, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A condenação foi definida pela Primeira Turma do STF em 11 de setembro de 2025. Bolsonaro foi apontado pela Corte como líder da organização criminosa relacionada à tentativa de ruptura institucional. O processo posteriormente transitou em julgado.
Agora, a família Bolsonaro tenta transformar a condenação, a prisão domiciliar do ex-presidente e a crise interna do Supremo em elementos centrais da campanha eleitoral.
O movimento ocorre justamente quando a imagem da Corte enfrenta uma nova turbulência, provocada pelo confronto entre ministros e pelas investigações relacionadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Flávio transforma Moraes em alvo central da campanha
Flávio Bolsonaro passou a utilizar de forma cada vez mais direta o desgaste de Alexandre de Moraes como um dos principais argumentos de sua candidatura ao Palácio do Planalto.
No ato de 7 de Setembro, em São Paulo, o senador afirmou que quem vota no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria, em sua avaliação, votando também em Moraes. O candidato prometeu ainda mudanças profundas no Supremo caso seja eleito.
A estratégia ganhou força depois que mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro vieram a público e provocaram uma crise dentro do próprio STF.
O bolsonarismo passou a explorar o episódio para questionar a atuação do ministro que foi responsável por decisões importantes contra Bolsonaro e seus aliados.
Ao mesmo tempo, aliados de Flávio tentam apresentar a eleição como uma escolha entre a continuidade do atual sistema político e uma mudança institucional que, segundo eles, alcançaria também o Supremo.
Crise do STF mudou o cenário um ano depois
A situação do Supremo é bastante diferente daquela observada no momento da condenação de Bolsonaro.
Nos últimos dias, a Corte foi atingida por uma sequência de decisões conflitantes, troca de acusações e disputas internas relacionadas às investigações do Banco Master.
O presidente do STF, Edson Fachin, chegou a retirar Moraes da relatoria do inquérito das fake news e assumiu pessoalmente o processo. Também suspendeu decisões de André Mendonça e Flávio Dino relacionadas à Polícia Federal, em uma tentativa de reduzir a escalada do conflito institucional.
Fachin marcou para 15 de setembro uma sessão plenária destinada a analisar o relatório da PF que menciona a relação entre Moraes e Vorcaro, além do pedido da Procuradoria-Geral da República para anular o documento.
O episódio abriu uma frente política inesperada para o bolsonarismo.
Vorcaro virou novo elemento
Daniel Vorcaro, até recentemente desconhecido do grande público, passou a ocupar posição central na crise política e institucional.
Investigações da Polícia Federal revelaram mensagens e contatos entre o banqueiro e diferentes autoridades. O material também provocou questionamentos sobre a relação de Vorcaro com integrantes do Judiciário, políticos e servidores públicos.
Para os aliados de Bolsonaro, as revelações permitem colocar em dúvida a imagem de Moraes como principal símbolo do combate ao ex-presidente.
A estratégia eleitoral é evidente: o bolsonarismo procura associar o ministro ao governo Lula e apresentar a crise no Supremo como um problema político que teria ultrapassado os limites do Judiciário.
Reportagem recente da Folha apontou que aliados de Flávio avaliam que o enfraquecimento de Moraes pode favorecer a campanha presidencial do senador.
Flávio promete governar com Bolsonaro
Mesmo impedido de participar diretamente da campanha como gostaria, Jair Bolsonaro continua sendo o principal ativo político do grupo.
Flávio já afirmou que, caso seja eleito, pretende anistiar condenados pelos ataques de 8 de Janeiro e manter o pai como uma espécie de conselheiro político.
A estratégia procura preservar o capital eleitoral do ex-presidente e transferi-lo para o filho.
Bolsonaro, entretanto, está submetido a restrições judiciais que limitam sua comunicação e suas visitas. A proibição de encontros com Flávio chegou a dificultar a participação direta do ex-presidente na campanha.
As orientações eleitorais passaram a ser transmitidas por meio de advogados autorizados a entrar na residência.
Condenação é bandeira política
Apesar de a condenação já ter se tornado definitiva, a defesa de Bolsonaro continua tentando reverter seus efeitos por meio de medidas judiciais.
O STF já rejeitou recurso apresentado pela defesa contra a condenação. Em janeiro de 2026, Alexandre de Moraes considerou juridicamente incabível um agravo apresentado após a rejeição de recurso anterior.
A defesa, entretanto, continua sustentando que Bolsonaro foi alvo de uma decisão injusta.
Para o bolsonarismo, a condenação permanece como um dos principais símbolos da suposta perseguição política contra o ex-presidente.
Para seus adversários, a sentença representa a responsabilização de quem, segundo o STF, participou de uma articulação destinada a impedir a posse do presidente eleito em 2022.
Um ano depois, portanto, o julgamento não produziu consenso nacional.
Disputa presidencial mantém Bolsonaro no centro do jogo
O cenário eleitoral de 2026 transformou a condenação em uma questão diretamente ligada à sucessão presidencial.
Flávio tenta herdar a força eleitoral do pai e, ao mesmo tempo, construir uma candidatura própria. Para isso, utiliza a imagem de Bolsonaro como principal símbolo da direita e transforma a crítica ao STF em uma das bandeiras de sua campanha.
Do outro lado, aliados do presidente Lula procuram explorar as investigações que atingem pessoas próximas ao campo bolsonarista, especialmente as relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse e à relação de Flávio com Vorcaro. A campanha petista, porém, tenta evitar que a eleição se transforme exclusivamente em um plebiscito sobre o STF.
O resultado é uma disputa em que Bolsonaro, embora condenado e submetido a restrições judiciais, continua sendo uma das figuras mais importantes da eleição.
Bolsonaro espera revisão
A possibilidade de revisão da condenação continua no radar da defesa, mas uma reversão é considerada improvável no atual cenário jurídico.
A própria trajetória processual mostra a dificuldade. A condenação foi confirmada pela Primeira Turma, as penas foram fixadas em setembro de 2025 e o processo chegou ao trânsito em julgado ainda naquele mês.
Enquanto a batalha judicial prossegue, a batalha política já está em andamento.
A menos de um mês do primeiro turno, o nome de Jair Bolsonaro permanece no centro do debate, seja como líder político da direita, seja como condenado pelo STF. E Flávio tenta transformar justamente essa condição em combustível para sua campanha presidencial.
A eleição como julgamento
Um ano depois da condenação, a eleição de 2026 coloca novamente Bolsonaro diante de um julgamento, desta vez nas urnas.
O ex-presidente não poderá disputar a Presidência, mas seu nome influencia diretamente a campanha do filho. Flávio aposta na rejeição ao STF, na defesa da anistia e na promessa de mudanças institucionais para mobilizar o eleitorado bolsonarista.
Enquanto isso, a crise interna do Supremo oferece novo combustível para essa estratégia.
A disputa presidencial, portanto, não será apenas entre candidatos. Também deverá refletir a divisão do país sobre Bolsonaro, o STF, Alexandre de Moraes e os limites da atuação do Judiciário na política brasileira.
Um ano depois da condenação que deveria encerrar juridicamente a trajetória presidencial de Bolsonaro, o ex-presidente continua sendo um dos principais personagens da eleição que decidirá quem comandará o Brasil a partir de 2027.
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