Para muitos idosos, tomar medicamentos faz parte da rotina. São remédios para controlar a pressão, o diabetes, problemas cardíacos, dores, alterações neurológicas e outras condições. Com o passar dos anos, porém, a lista pode aumentar.
Nesse cenário, fica mais difícil saber se todos os medicamentos continuam necessários. Também surgem dúvidas sobre doses, horários e possíveis efeitos. Por isso, a revisão periódica do tratamento ajuda a manter o uso dos medicamentos mais seguro.
O cuidado ganha ainda mais importância nos casos de polifarmácia. O termo descreve o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos. Segundo o Ministério da Saúde, esse cenário pode aumentar o risco de interações, reações adversas, quedas e outros problemas quando não existe acompanhamento adequado.
De acordo com o Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, médico de família e comunidade da Palliative Care, a quantidade de medicamentos, sozinha, não indica um problema.
“Um idoso pode usar seis ou sete medicamentos e todos terem indicação adequada. Por outro lado, pode utilizar apenas três e um deles ser desnecessário ou oferecer mais riscos do que benefícios”, explica.
Mais importante do que contar os comprimidos é avaliar a indicação, a dose, os possíveis efeitos e o benefício de cada tratamento.
O organismo muda com o envelhecimento
O envelhecimento provoca mudanças no funcionamento do organismo. Rins e fígado, por exemplo, podem passar a eliminar determinadas substâncias de maneira diferente. A composição corporal também muda.
Essas alterações podem modificar a ação dos medicamentos. Uma dose tolerada por um adulto mais jovem pode produzir efeitos mais intensos em uma pessoa idosa.
Além disso, quanto maior o número de medicamentos, maior a possibilidade de interação entre as substâncias. Por isso, o médico precisa reavaliar o tratamento quando o paciente apresenta mudanças na saúde, na rotina ou na medicação.
Sonolência excessiva, confusão mental, tontura, fraqueza, quedas, perda de apetite, náuseas e alterações importantes da pressão merecem atenção.
“Principalmente quando um sintoma novo aparece após a introdução de um medicamento ou depois de um aumento de dose, essa relação precisa ser considerada”, alerta Dr. Gustavo.
O paciente também deve informar todos os produtos que utiliza durante as consultas. A lista inclui medicamentos sem receita, vitaminas, suplementos, fitoterápicos e outros produtos naturais. Essas substâncias também podem interferir na ação dos medicamentos.
Quando um efeito colateral vira um novo tratamento
Outro problema pode surgir quando um efeito adverso parece indicar uma nova doença. Nesses casos, o profissional pode acrescentar outro medicamento para controlar o sintoma. Esse processo recebe o nome de cascata de prescrição.
A situação pode aumentar a quantidade de medicamentos e criar novos riscos. Por isso, o profissional precisa investigar a origem de um sintoma antes de acrescentar outro tratamento.
A avaliação não deve considerar apenas os diagnósticos do idoso. É necessário analisar também todos os medicamentos, a rotina e a funcionalidade do paciente.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a polifarmácia uma questão importante para a segurança no uso de medicamentos. A entidade recomenda estratégias para reduzir danos relacionados aos tratamentos.
Revisão periódica ajuda a evitar problemas
Uma revisão dos medicamentos pode identificar tratamentos que já não fazem sentido, doses que precisam de ajuste e possíveis interações.
Para facilitar esse acompanhamento, o paciente ou familiar deve manter uma lista atualizada de todos os medicamentos utilizados. Essa relação deve acompanhar o idoso nas consultas.
A lista pode incluir:
- medicamentos de uso contínuo;
- remédios usados eventualmente;
- vitaminas;
- suplementos;
- fitoterápicos;
- outros produtos naturais utilizados com frequência.
Também vale separar os medicamentos que o médico suspendeu. Essa medida reduz o risco de alguém administrar um remédio antigo por engano.
“Uma boa consulta não é aquela em que necessariamente acrescentamos um medicamento. Muitas vezes, a melhor decisão é justamente retirar algo que já não traz benefício”, ressalta o médico.
A retirada de um medicamento recebe o nome de desprescrição. O processo, porém, exige orientação profissional. Alguns medicamentos precisam de redução gradual da dose e não devem ser interrompidos de forma abrupta.
O Ministério da Saúde também aborda a desprescrição como uma estratégia para promover o uso racional de medicamentos e reduzir problemas relacionados à polifarmácia.
Medicamentos também podem aumentar o risco de quedas
Tontura, sonolência, fraqueza e alterações no equilíbrio podem comprometer a segurança do idoso. Esses sintomas também podem favorecer quedas.
Por isso, uma queda ou episódio frequente de desequilíbrio merece avaliação. O profissional pode investigar os medicamentos, além de outras possíveis causas.
O Ministério da Saúde recomenda revisar regularmente os medicamentos e avaliar aqueles que podem aumentar o risco de quedas.
A prevenção também envolve cuidados dentro de casa. Melhorar a iluminação, retirar obstáculos dos ambientes e utilizar calçados adequados são algumas medidas que ajudam a reduzir os riscos.
Família e cuidadores também participam do cuidado
Familiares e cuidadores podem ajudar na organização dos horários e das doses. Uma rotina definida facilita o controle e diminui o risco de esquecimentos ou duplicidades.
Mudanças no comportamento, na memória, na disposição ou na autonomia também merecem atenção. Essas alterações podem indicar que o idoso precisa de uma avaliação profissional e, em alguns casos, de maior supervisão.
“Nem todo remédio que foi necessário um dia continuará sendo necessário para sempre”, ressalta Dr. Gustavo.
Para o médico, o cuidado deve considerar as doenças, mas também a funcionalidade, a rotina, a família e os objetivos de cada pessoa.
“A pergunta não deveria ser apenas ‘quantos comprimidos esse idoso toma?’, mas para que serve cada um deles, qual benefício esperamos e se esse benefício ainda faz sentido para aquela pessoa naquele momento da vida”, conclui Dr. Gustavo.
Revisar os medicamentos não significa simplesmente retirar tratamentos. O objetivo é garantir que cada remédio tenha uma indicação clara e continue oferecendo mais benefícios do que riscos para o idoso.
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