A primeira coisa que fiz quando entrei no curso de graduação em Economia foi uma conta. Mas não uma conta econômica, pelo menos não como eu as entendia naquele momento. Passei os olhos pela lista de aprovações do vestibular e não contive minha decepção quando somei, uma a uma, as mulheres aprovadas junto comigo. Éramos 27, contra 78 homens. Pouco menos de um terço. A sensação, que compartilho com tantas outras economistas, era de estar num espaço que, desde o início, não era meu.

Passados alguns anos transitando por ambientes dignos do título de Clube do Bolinha, o choque inicial foi se transformando em costume. Logo eu, que sou feminista muito antes de ser economista, já não me surpreendi tanto no mestrado, quando éramos apenas duas mulheres numa turma de 12. Proporção que se repetiu no doutorado.

Começo a coluna com essa história para dizer que, sim, eu entendo. À primeira vista, a Economia parece ser, realmente, uma ciência masculina.

De acordo com o Censo da Educação Superior, a cada 10 formados na área, apenas três são mulheres – e este número vem diminuindo desde 2010, ao contrário da participação feminina no ensino superior no Brasil. Uma ciência masculina e branca, afinal 75% das pessoas com diploma de economia são brancas. É, na verdade, o segundo curso mais branco do Brasil, depois da medicina.

Para os professores, os números são ainda mais díspares. Apenas 17% dos docentes ativos na Economia são pretos, pardos ou indígenas, num país em que mais da metade da população se declara negra.

Com pessoas tão pouco diversas povoando a ciência econômica, não é surpresa que a maioria pense num economista como um homem branco de terno. Ou que pense na Economia, por analogia, como uma ciência feita por e para os homens brancos de terno, em suas salas climatizadas a dezoito andares do chão.

Numa sociedade binária, classista e segregada, o pensamento imediato é que o que é deles não pode ser nosso.

Se quem faz a Economia, e, portanto, quem a discute nos jornais, nas televisões e nos jantares, são em sua maioria homens e pessoas brancas, então este assunto não tem nada a ver com o resto da população. Nem com as mulheres, nem com as pessoas pretas, pardas ou indígenas, nem com as LGBTs, ou com ninguém que não tenha passado por anos de formação específica nessa área, tão famosa pelos conceitos e jargões que pouca gente fora da bolha entende.

Mas isso não é verdade. Há muito mais na Economia do que os ternos cinzentos deixam transparecer.

Os grandes fenômenos econômicos do noticiário, como a queda no desemprego, a elevação do PIB ou a variação da taxa de juros, têm impactos diretos na vida de todas as pessoas – sejam elas os homens brancos de terno ou não.

Pensar a redução da jornada de trabalho, por exemplo, é olhar para os mais de 20 milhões de brasileiros que hoje trabalham mais horas do que o permitido por lei. Avaliar a inflação também é medir de que forma o preço crescente dos alimentos saudáveis prejudica o bolso e a qualidade de vida das famílias mais pobres, que gastam porções maiores de sua renda com a alimentação. Falar do patamar elevado das taxas de juros ajuda a compreender os números recordes de endividamento no Brasil.

Para além de tudo isso, também há Economia em lugares onde normalmente não a enxergamos. Se fosse contabilizado, o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres poderia aumentar em até 40% o PIB de alguns países, de acordo com estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Esse trabalho, de criar crianças, cuidar de idosos ou pessoas enfermas e manter as condições básicas para a manutenção da vida diária, é feito muitas vezes de graça ou por baixíssimos salários – e sem o devido reconhecimento.

Olhar para o cuidado é um dos pilares da Economia Feminista, uma área de estudos econômicos que propõe, entre outras coisas, questionar a existência de um “agente econômico” universal, sem gênero, raça ou qualquer identidade. Ou seja: reimaginar o que pode ser a Economia se ela for pensada e narrada por todas as pessoas, em suas particularidades, posições sociais e experiências.

Quando isso acontece e o debate econômico ganha as ruas, os resultados são extraordinários. É o caso das mobilizações sociais pela isenção do imposto de renda até R$ 5 mil, por exemplo. Aprovada em novembro de 2025, a lei também instituiu a taxação dos super ricos. O regime tributário, assunto aparentemente espinhoso e complexo, se tornou assunto da mesa de almoço e resultou numa vitória histórica, com aprovação da nova lei por unanimidade na Câmara e no Senado.

Entre corredores masculinos e homens brancos de terno, encontrei meu lugar como pesquisadora na Economia Feminista. A partir dela, essa coluna surge para pensar questões econômicas pela nossa lente. Para discutir uma economia que seja nossa também no debate, pois ela é e sempre foi na prática. Deixo o convite, leitoras e leitores, para construirmos juntos este novo espaço.



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