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Receber um diagnóstico de Alzheimer é uma perspectiva que assusta muitas famílias. E, diante de uma doença que ainda não tem cura, uma pergunta costuma surgir: se não existe uma forma de eliminar a doença, por que descobrir cedo?

A resposta vai muito além dos medicamentos.

Em setembro, mês mundial de conscientização sobre Alzheimer e outras demências, a campanha internacional de 2026 da Alzheimer’s Disease International (ADI) coloca justamente o diagnóstico no centro da discussão, com o tema “The Earlier You Know, The More You Can Do: A Dementia Diagnosis Matters”, em tradução livre, “Quanto antes você souber, mais poderá fazer: o diagnóstico da demência importa”.

A proposta chama atenção para um aspecto que muitas vezes fica em segundo plano quando se fala da doença: receber um diagnóstico não significa apenas descobrir o que está causando os sintomas. Pode abrir espaço para tratamento, acompanhamento, planejamento e participação nas decisões sobre o próprio futuro.

Para a geriatra Dra. Márcia Umbelino, com atuação voltada à longevidade saudável, saúde cerebral e promoção da autonomia durante o envelhecimento, identificar alterações cognitivas precocemente amplia as possibilidades de cuidado.

Durante muito tempo, diante de alterações de memória em uma pessoa idosa, era comum a família dizer que aquilo era próprio da idade e esperar. O problema é que demência não é uma consequência natural do envelhecimento. Hoje, quanto mais cedo conseguirmos identificar uma alteração cognitiva, mais possibilidades temos de investigar sua causa, tratar condições associadas, preservar autonomia e, quando houver indicação, avaliar terapias específicas”, explica.

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Diagnóstico não é sentença: é ponto de partida

A doença de Alzheimer é progressiva e ainda não possui cura. Isso, porém, não significa que nada possa ser feito.

Nos últimos anos, inclusive, novas terapias passaram a ampliar as possibilidades de tratamento para grupos específicos de pacientes nas fases iniciais da doença. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registrou em 2025 o donanemabe, comercializado como Kisunla, e o lecanemabe, comercializado como Leqembi.

São medicamentos direcionados à proteína beta-amiloide e que atuam sobre mecanismos relacionados à doença, mas não representam cura e não são indicados para todas as pessoas com Alzheimer.

Não significa que toda pessoa que começa a esquecer terá indicação para esses medicamentos. Muito pelo contrário. Existe uma avaliação criteriosa, com diagnóstico clínico, exames e análise individual de riscos e benefícios. Mas a chegada dessas terapias reforça algo que já era fundamental: não podemos esperar a perda de autonomia avançar para começar a investigar”, destaca Dra. Márcia.

Mesmo quando não há indicação para essas terapias, chegar ao diagnóstico mais cedo pode permitir investigar outras condições que afetam a cognição, rever medicamentos, controlar fatores cardiovasculares, estimular atividade física e interação social, organizar a rotina e planejar cuidados futuros.

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O paciente ainda pode participar das decisões

Talvez um dos aspectos menos discutidos do diagnóstico precoce seja justamente a possibilidade de planejamento.

Nas fases iniciais, enquanto ainda existe capacidade para expressar preferências e tomar decisões, a própria pessoa pode participar de conversas sobre questões que terão impacto direto sobre sua vida.

O diagnóstico precoce não deve ser visto apenas como uma forma de começar o tratamento mais cedo. Ele também permite que a pessoa participe das decisões sobre a própria vida enquanto ainda consegue expressar suas vontades.”

É nesse momento que podem entrar conversas sobre quem poderá ajudar no futuro, como organizar documentos, questões financeiras, rotina e cuidados, além das preferências pessoais do paciente.

“Quando o diagnóstico acontece cedo, a pessoa pode organizar documentos, conversar sobre suas vontades, escolher quem poderá ajudá-la e participar de decisões que talvez sejam mais difíceis de tomar posteriormente.”

Planejar não significa antecipar perdas. Significa aproveitar um período em que o paciente ainda pode participar da construção das escolhas que dizem respeito à própria vida.

Dinheiro também precisa entrar na conversa

As alterações cognitivas podem começar a interferir em atividades cotidianas antes das fases mais avançadas da demência.

Dificuldade crescente para administrar dinheiro, medicamentos ou tarefas anteriormente habituais, esquecer compromissos importantes, repetir perguntas diversas vezes, perder-se em caminhos conhecidos e apresentar alterações de linguagem, comportamento ou capacidade de planejamento estão entre os sinais que merecem investigação.

Mais importante do que um episódio isolado é perceber uma mudança em relação ao funcionamento habitual daquela pessoa. A família muitas vezes nota que algo mudou, mas demora meses ou anos para procurar ajuda porque acredita que faz parte da velhice. É exatamente esse intervalo que precisamos reduzir”, afirma Dra. Márcia.

Quando o diagnóstico ocorre mais cedo, a organização financeira também pode fazer parte do planejamento. Contas, documentos e responsabilidades podem ser discutidos enquanto o próprio paciente ainda consegue participar das decisões.

Isso não significa retirar automaticamente sua independência. O acompanhamento deve considerar a capacidade funcional de cada pessoa e a necessidade de apoio ao longo da evolução do quadro.

E dirigir? A resposta não é automática

A possibilidade de continuar dirigindo é outra questão que pode surgir após um diagnóstico de demência.

O diagnóstico, sozinho, não determina automaticamente se uma pessoa pode ou não conduzir um veículo. A decisão depende de avaliação individual, considerando aspectos como atenção, julgamento, orientação espacial, reflexos e outras habilidades relacionadas à segurança.

Mudanças como perder-se em trajetos conhecidos ou apresentar dificuldades crescentes para lidar com situações antes habituais podem sinalizar a necessidade de uma avaliação mais cuidadosa.

Nesse sentido, descobrir a doença mais cedo também cria a oportunidade de discutir a direção antes que eventuais alterações coloquem em risco o paciente ou outras pessoas.

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Brasil ainda tem 8 em cada 10 casos de demência sem diagnóstico

A importância de falar sobre diagnóstico precoce ganha outra dimensão diante da realidade brasileira.

Um estudo publicado em abril de 2026 no International Journal of Geriatric Psychiatry, a partir de dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), avaliou 5.249 pessoas com 60 anos ou mais. Entre elas, 392 preenchiam critérios para demência.

O resultado chama atenção: 83,1% das pessoas que preenchiam os critérios para demência não tinham recebido diagnóstico prévio.

O levantamento também revelou desigualdades importantes. Nas regiões socioeconomicamente mais desfavorecidas, a proporção estimada de casos sem diagnóstico chegou a 90,2%, contra 76% nas regiões mais favorecidas. Entre pessoas que não sabiam ler ou escrever, 93,9% dos participantes que preenchiam os critérios para demência não tinham diagnóstico prévio.

Morar sozinho também apareceu associado a maior chance de a condição permanecer sem identificação.

Os dados se referem às demências de forma geral, e não exclusivamente à doença de Alzheimer, mas ajudam a dimensionar o tamanho do desafio brasileiro.

Diagnóstico precoce também depende de informação, acesso à saúde e de alguém perceber as mudanças. Uma pessoa que mora sozinha ou que tem pouco acesso a acompanhamento médico pode passar muito mais tempo sem que aquelas alterações sejam reconhecidas. Precisamos falar de tratamento, mas precisamos falar também de acesso e de educação para o envelhecimento”, afirma Dra. Márcia.

Descobrir cedo também permite saber se é realmente Alzheimer

Outro motivo para não adiar a investigação é que nem toda alteração de memória significa doença de Alzheimer.

Mudanças cognitivas podem estar associadas a diferentes condições e, por isso, a avaliação médica é necessária para investigar a causa dos sintomas.

O sinal de alerta não está necessariamente em um esquecimento isolado. O que merece atenção é a mudança persistente e progressiva em relação ao funcionamento habitual da pessoa, especialmente quando começa a interferir na rotina e na independência.

Demência também não deve ser entendida como consequência inevitável do envelhecimento.

A população está vivendo mais. O próximo desafio é fazer com que esses anos adicionais sejam vividos com autonomia e qualidade de vida. Saúde cerebral precisa fazer parte dessa conversa sobre longevidade”, afirma Dra. Márcia.

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Cuidar do cérebro começa muito antes da memória

A discussão sobre Alzheimer também está mudando antes mesmo do diagnóstico.

A Comissão Lancet de 2024 sobre demência identificou 14 fatores potencialmente modificáveis relacionados ao risco de desenvolver demência ao longo da vida. Entre eles estão menor escolaridade, perda auditiva, hipertensão, consumo excessivo de álcool, obesidade, tabagismo, depressão, isolamento social, sedentarismo, diabetes, traumatismo craniano e poluição do ar.

Na atualização de 2024, dois fatores foram acrescentados: colesterol LDL elevado e perda visual não tratada.

A comissão estimou que até 45% dos casos de demência no mundo poderiam potencialmente ser prevenidos ou adiados se esses fatores fossem adequadamente enfrentados ao longo da vida. A estimativa é populacional e não significa que controlar esses fatores garanta que uma pessoa não desenvolverá Alzheimer ou outra demência.

Quando alguém fala que quer envelhecer com a mente boa, é comum pensar apenas em estimular o cérebro. Mas saúde cerebral não está isolada dentro da cabeça. Ela conversa com a circulação, com os sentidos, com a saúde mental, com a atividade física e com a forma como essa pessoa vive ao longo de décadas. A prevenção começa muito antes de existir qualquer queixa de memória”, explica Dra. Márcia.

No Brasil, prevenção também passa por desigualdade

Um estudo brasileiro publicado em 2025 analisou o impacto dos 14 fatores potencialmente modificáveis na população do país e estimou uma fração atribuível à população de 59,5%.

Entre os fatores de maior impacto populacional apareceram menor escolaridade, com 9,5%, perda visual não tratada, com 9,2%, e depressão na meia-idade, com 6,3%.

Esses percentuais não significam que determinado fator tenha causado diretamente a demência em cada indivíduo. São estimativas populacionais utilizadas para avaliar quanto da ocorrência da doença pode estar associada aos fatores estudados.

O dado também amplia a discussão: prevenção não depende apenas de escolhas individuais. Acesso à educação, diagnóstico e tratamento de alterações visuais e auditivas, acompanhamento da saúde mental e controle adequado de doenças cardiovasculares também são questões de saúde pública.

Quando falamos em longevidade saudável, não estamos falando em uma receita mágica nem em garantir que alguém nunca desenvolverá Alzheimer. Estamos falando em reduzir riscos e aumentar as chances de chegar às idades mais avançadas com independência, participação social e qualidade de vida”, explica Dra. Márcia.

O medo do diagnóstico ainda precisa ser enfrentado

O receio de confirmar uma doença sem cura pode fazer com que pacientes e famílias adiem a investigação. A ideia de que alterações cognitivas seriam apenas “coisas da idade” também pode prolongar esse intervalo.

Mas o cenário científico e assistencial mostra que saber mais cedo pode fazer diferença mesmo quando não existe possibilidade de cura.

Pode permitir investigar a causa dos sintomas. Pode abrir acesso ao acompanhamento e, quando houver indicação, a tratamentos específicos. Pode ajudar a controlar outras condições de saúde, adaptar a rotina e preparar familiares.

E pode oferecer algo que nenhum medicamento, sozinho, consegue garantir: tempo para que a própria pessoa participe das decisões sobre a vida que deseja continuar vivendo.

É justamente esse o ponto central da campanha mundial de 2026: quanto antes se sabe, mais possibilidades existem de agir.

No Dia Mundial da Doença de Alzheimer, celebrado em 21 de setembro, a discussão sobre diagnóstico precoce ultrapassa, portanto, os limites do consultório.

Descobrir cedo pode significar começar um tratamento quando indicado. Pode significar cuidar melhor da saúde física e cerebral. Mas também pode significar preservar, pelo maior tempo possível, algo profundamente humano: a possibilidade de continuar participando das escolhas sobre a própria história.

O Mês Mundial do Alzheimer ocorre durante todo o mês de setembro. A data de 21 de setembro marca o Dia Mundial do Alzheimer, criado para ampliar a conscientização sobre a doença e outras formas de demência.

 

 

 

 

 

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Créditos Autor: Isabela
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