Um levantamento cruzou a proporção de evangélicos por município com o resultado do segundo turno. A relação varia pelo país, com destaque para o Centro-Oeste. Os dados mostram que a composição religiosa não explica sozinha a geografia eleitoral.
Um levantamento divulgado nesta semana mapeou como votaram os municípios brasileiros de acordo com a presença evangélica na população. Os dados cruzam o percentual de evangélicos em cada cidade com o desempenho dos candidatos Lula e Flávio no segundo turno das eleições presidenciais. O resultado mostra uma associação entre as duas variáveis, mas com intensidade diferente conforme a região do país.
Nas cidades, o desempenho do senador variou de 7,6% a 90,5% dos votos válidos. Já a fatia de evangélicos na população ia de 1,2% a 88,7%. Para comparar as duas medidas, cada uma foi dividida em três faixas — baixa, média e alta —, o que resulta em nove combinações possíveis no mapa abaixo.
Centro-Oeste concentra associação mais forte
O retrato dessa associação está no Centro-Oeste. Ali, 42% dos municípios estão no grupo de maior presença evangélica e, ao mesmo tempo, de maior votação no candidato do PL. A mancha roxa se estende de Mato Grosso a Goiás e avança por Rondônia, Tocantins e o sul do Pará.
A proporção de moradores evangélicos está associada à divisão do voto entre Lula e Flávio no segundo turno, mas essa relação varia bastante pelo país. Quando os municípios são agrupados de acordo com o percentual de evangélicos, a vantagem muda de lado na faixa entre 20% e 40%.
Vantagem de Lula diminui conforme cresce presença evangélica
Nos 502 municípios em que os evangélicos representam até 10% da população considerada pelo levantamento, Lula obteve 68,5% dos votos válidos, ante 31,5% de Flávio. Na faixa seguinte, entre 10% e 20% de evangélicos, Lula ainda liderou por 61,3% a 38,7%, considerando 1.929 municípios.
A diferença diminui na faixa de 20% a 30% de população evangélica, formada por 1.819 municípios: Lula aparece com 51,3% dos votos válidos, contra 48,7% de Flávio.
A partir dos 30%, o resultado se inverte. Nos 973 municípios com proporção de evangélicos entre 30% e 40%, Flávio alcançou 54,2% e Lula, 45,8%. Entre 40% e 50%, o placar foi de 54,6% a 45,4%. E nos 58 municípios em que mais da metade da população é evangélica, Flávio chegou a 55,2%, enquanto Lula ficou com 44,8%.
Relação não é uniforme pelo país
A relação, porém, não se repete com a mesma intensidade em todo o território nacional. O cálculo da correlação entre a proporção municipal de evangélicos e a votação de Lula mostra diferenças entre os estados.
Centro-Oeste: Fé e voto na mesma direção. É onde o padrão aparece com mais nitidez. Goiânia, Campo Grande e Cuiabá têm proporção de evangélicos acima da média nacional, e Flávio venceu com folga nas três. Em Anápolis (GO), onde a presença evangélica é ainda maior, a vantagem do candidato do PL foi ainda mais ampla.
Nordeste e Norte apresentam cenários distintos
Nordeste: Em 55% dos municípios da região, os evangélicos são proporcionalmente poucos e Flávio teve votação baixa. No outro extremo, o interior nordestino concentra cidades com menos evangélicos e votação expressiva de Lula. Juazeiro do Norte (CE), polo de romarias católicas, é um dos exemplos. Entre as grandes cidades, Salvador e Teresina deram ampla vantagem a Lula.
A região foi o principal reduto de Lula: ainda no primeiro turno, Lula liderou no Nordeste, enquanto Flávio foi melhor no Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Norte.
No Norte acontece o inverso. Em grandes extensões do Amazonas e do Pará, a presença evangélica é alta, mas a votação de Flávio ficou na faixa intermediária ou baixa.
Correlação não significa causalidade
Isso significa que, nesses estados, municípios com percentuais maiores de evangélicos tendem a registrar percentuais menores de votos em Lula. Correlação, no entanto, não demonstra que a religião tenha causado o resultado eleitoral. O indicador mostra que as duas variáveis se movimentam juntas, sem isolar outros fatores que também diferenciam os municípios.
O mapa nacional mostra que a composição religiosa não explica sozinha a geografia eleitoral. Há áreas do Centro-Oeste onde percentuais elevados de evangélicos coincidem com votação elevada em Flávio, enquanto partes do Sul registram força eleitoral de Flávio mesmo sem uma correspondência semelhante entre as duas variáveis.
Pesquisas já apontavam tendência
O mapa reforça o que as pesquisas de intenção de voto já indicavam. No Datafolha feito em 6 e 7 de outubro, logo após o primeiro turno, Flávio tinha 69% de intenção de voto entre os eleitores evangélicos, contra 25% de Lula. Ao contrário do pai, Jair Bolsonaro (PL), que se declara católico, Flávio foi batizado na fé evangélica.
Os dados completos do levantamento podem ser consultados no mapa interativo disponibilizado pela fonte. A análise detalhada por município permite identificar padrões regionais e compreender melhor a relação entre religião e voto no Brasil.
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Créditos Autor: Redação BnT
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