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Dúvidas incessantes sobre ter deixado a porta destrancada ou a torneira aberta. Medo de contaminação que leva a lavar as mãos repetidamente, até machucá-las. Revisar mentalmente conversas para ter certeza de que nada inadequado foi dito. Evitar dirigir por medo de atropelar alguém sem perceber. Contar passos, repetir orações ou tocar várias vezes em um objeto até alcançar a sensação de que “agora está certo”.

Essas situações podem parecer apenas manias ou hábitos incomuns. No entanto, quando pensamentos e comportamentos se tornam repetitivos, difíceis de controlar e provocam sofrimento ou prejuízos na rotina, eles podem estar relacionados ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Segundo a psiquiatra e coordenadora do Programa TOC e Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo da Holiste Psiquiatria, Raíza Alves Pereira, o transtorno envolve obsessões e compulsões. As obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos, recorrentes e indesejados. Já as compulsões são comportamentos ou atos mentais realizados para tentar reduzir a ansiedade ou o desconforto provocado por essas ideias.

“No entanto, todas podem ser manifestações do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Trata-se de uma condição marcada pela presença de obsessões — pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos, indesejados e recorrentes — frequentemente acompanhadas de compulsões”, explica a especialista.

O TOC não se resume à mania de limpeza. A representação popular do transtorno costuma destacar apenas comportamentos relacionados à organização, higiene ou checagem. Na prática, porém, os sintomas podem assumir diferentes formas e envolver temas como responsabilidade, religião, sexualidade, agressividade, relacionamentos e medo de causar algum dano.

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Quando o pensamento vira sofrimento

Ter um pensamento estranho ou indesejado ocasionalmente faz parte da experiência humana. No TOC, entretanto, a questão não está simplesmente na existência desses pensamentos, mas na frequência, na intensidade e na forma como a pessoa passa a responder a eles.

Uma pessoa pode, por exemplo, imaginar que deixou o fogão ligado. Em vez de verificar uma única vez e seguir a rotina, pode retornar diversas vezes para conferir. Mesmo depois de observar que está desligado, a dúvida permanece: “Será que eu realmente vi direito?”.

Esse mecanismo pode criar um ciclo de dúvida e alívio. A compulsão reduz a ansiedade por algum tempo, mas a sensação de certeza tende a desaparecer, levando a pessoa a repetir o ritual.

O Ministério da Saúde descreve o TOC como uma condição que pode envolver pensamentos persistentes e rituais repetitivos, capazes de interferir nas atividades cotidianas e na qualidade de vida.

A vergonha pode esconder os sintomas

Um dos obstáculos para reconhecer o transtorno está justamente no conteúdo das obsessões. Muitas pessoas percebem que seus pensamentos são exagerados ou incompatíveis com aquilo em que acreditam, mas ainda assim passam a interpretá-los como uma espécie de prova sobre quem realmente são.

Pensar em algo não significa desejar aquilo, nem indica que a pessoa irá realizar determinada ação.

Essa diferença é especialmente importante quando as obsessões envolvem temas considerados moralmente sensíveis. Entre os exemplos estão pensamentos sexuais indesejados, medo de machucar alguém, dúvidas sobre a própria fé ou questionamentos constantes sobre ser uma pessoa boa ou responsável.

Nesses casos, a pessoa pode sentir vergonha de contar o que está acontecendo. O receio de ser julgada faz com que os sintomas sejam escondidos de familiares, amigos e até dos profissionais de saúde.

A consequência pode ser um atraso na busca por ajuda.

O transtorno pode começar cedo

De acordo com Raíza Alves Pereira, o TOC costuma surgir ainda na infância ou adolescência, embora o diagnóstico possa acontecer apenas anos depois.

O início precoce pode dificultar a identificação dos sintomas. Crianças e adolescentes nem sempre conseguem explicar que determinados pensamentos são intrusivos ou que os rituais servem para aliviar uma sensação de medo e desconforto.

Além disso, familiares podem interpretar determinados comportamentos como “mania”, teimosia ou excesso de perfeccionismo.

Quando os sintomas passam a ocupar muito tempo, causar sofrimento ou interferir na escola, no trabalho, nos relacionamentos e na autonomia, é importante buscar avaliação profissional.

A linha de cuidado do Ministério da Saúde também reconhece o TOC entre os quadros que podem apresentar sintomas relacionados à ansiedade e destaca a necessidade de avaliação clínica para definir a conduta adequada.

Do medo de errar à necessidade de ter certeza

As obsessões podem se manifestar de diferentes maneiras. Entre os exemplos estão:

  • medo intenso de contaminação;
  • necessidade de conferir portas, torneiras, eletrodomésticos ou documentos repetidamente;
  • preocupação excessiva de ter causado algum acidente;
  • pensamentos intrusivos relacionados a sexo, religião ou agressividade;
  • necessidade de realizar ações em determinada ordem;
  • repetição de palavras, números, orações ou movimentos;
  • revisão mental de conversas e acontecimentos;
  • medo persistente de cometer erros ou prejudicar outras pessoas;
  • necessidade de alcançar uma sensação específica de que algo “ficou certo”.

Nem toda repetição ou preocupação significa TOC. O diagnóstico depende da avaliação de um profissional capacitado, que considera a frequência dos sintomas, o sofrimento provocado e os impactos na vida da pessoa.

Como funciona o tratamento

O tratamento deve ser individualizado e pode envolver psicoterapia, medicamentos ou a combinação das duas estratégias, de acordo com a avaliação clínica.

Entre as abordagens psicoterápicas, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), especialmente com técnicas de exposição e prevenção de resposta, é considerada uma das principais estratégias para o tratamento do TOC. A linha de cuidado do Ministério da Saúde aponta a TCC como tratamento de primeira linha e também apresenta opções farmacológicas, principalmente com antidepressivos específicos, conforme avaliação médica.

Na prática, a exposição e prevenção de resposta trabalha justamente com a relação entre a ansiedade e os rituais. Com acompanhamento profissional, o paciente aprende gradualmente a enfrentar situações que provocam desconforto sem recorrer às compulsões como forma de neutralização.

O tratamento medicamentoso, quando indicado, deve ser prescrito e acompanhado por médico. A escolha do medicamento, a dose e o tempo de tratamento dependem das características de cada paciente e não devem ser definidos por conta própria.

O Ministério da Saúde mantém protocolos e diretrizes que orientam o diagnóstico e o tratamento de diferentes condições de saúde no SUS.

Reconhecer o sintoma ajuda a romper o ciclo

O TOC pode fazer com que a pessoa passe a desconfiar dos próprios pensamentos, sentimentos e intenções. Em muitos casos, a dúvida deixa de ser apenas “Será que deixei a porta aberta?” e passa a assumir uma dimensão mais profunda: “E se eu for uma pessoa ruim?”, “E se esse pensamento significar alguma coisa sobre mim?”.

Por isso, o acolhimento é uma parte importante da busca por tratamento.

Falar sobre pensamentos intrusivos não significa concordar com eles. Da mesma forma, reconhecer uma compulsão não significa falta de força de vontade. Esses comportamentos podem fazer parte de um transtorno que possui tratamento.

A própria orientação da Holiste destaca a importância de o paciente não ter medo ou vergonha de relatar aquilo que sente durante uma consulta psiquiátrica.

Assim, transformar aquilo que permanece escondido em algo que pode ser nomeado é um passo importante. Quanto mais cedo os sintomas forem reconhecidos e avaliados, maiores são as possibilidades de iniciar uma abordagem adequada e reduzir os impactos do transtorno na vida cotidiana.

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Onde buscar ajuda

Pessoas que identificam sintomas persistentes ou que percebem prejuízos na rotina podem procurar atendimento com psiquiatra ou psicólogo para uma avaliação individualizada.

No SUS, a porta de entrada pode ocorrer pela Atenção Primária à Saúde, que realiza a avaliação inicial e, quando necessário, encaminha o paciente para outros níveis de atenção.

Para conhecer as orientações oficiais sobre cuidado em saúde mental, é possível consultar as Linhas de Cuidado do Ministério da Saúde e os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).

Créditos Autor: Isabela
Créditos Imagens: Reprodução Internet

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