A dificuldade para dormir pode ter diferentes causas, e o uso de medicamentos não elimina a necessidade de investigar o que está provocando ou mantendo o problema. Estresse, ansiedade, depressão, dor crônica, alterações na rotina e outros distúrbios do sono estão entre as condições que podem estar relacionadas à insônia.
Uma pesquisa liderada pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ajuda a mostrar a presença dos medicamentos entre pessoas que já procuravam ajuda para o problema. No estudo, publicado na revista Sleep Science, 60% dos participantes relataram usar algum medicamento para dormir.
O resultado, porém, não representa a população brasileira. A amostra foi formada por adultos que já buscavam tratamento psicológico para insônia no Instituto de Psiquiatria da USP, uma das limitações apontadas pelos próprios pesquisadores.
Na Bahia, a Prof.ª Dra. Cristina Salles, especialista em Medicina do Sono, explica que tratar adequadamente a dificuldade para dormir passa primeiro por compreender como o problema se manifesta e o que pode estar por trás dele.
Insônia vai além da dificuldade para adormecer
A insônia não se resume a passar muito tempo tentando pegar no sono. O problema também pode envolver dificuldade para permanecer dormindo, despertar antes do horário desejado e apresentar prejuízos durante o dia.
As causas e os fatores que mantêm essas dificuldades também podem variar. Estresse, ansiedade, depressão, dor crônica, doenças não controladas, alterações na rotina, trabalho em turnos e hábitos inadequados podem contribuir para desencadear ou manter a insônia. Outros distúrbios do sono também podem coexistir com o problema.
“O sono deve ser considerado um sinal vital. Assim como perguntamos sobre alimentação, atividade física e tabagismo, também precisamos investigar como o paciente dorme. Muitos quadros clínicos podem ser agravados por distúrbios do sono não diagnosticados, e tratá-los melhora não apenas o sono, mas a evolução de diversas doenças”, afirma Cristina Salles.
Importante: identificar como a dificuldade para dormir se manifesta e os fatores associados ajuda a definir a abordagem mais adequada para cada caso.
Tratamento da insônia depende de cada caso
A estratégia para melhorar o sono depende do diagnóstico e das características de cada paciente. Algumas mudanças de rotina podem contribuir, como manter horários regulares para dormir e acordar, praticar atividade física, ter exposição à luz natural durante o dia, reduzir telas e estímulos luminosos à noite e evitar cafeína próximo ao horário de dormir.
Também estão entre as orientações evitar o uso de bebidas alcoólicas como estratégia para induzir o sono e cochilos prolongados.
Essas medidas, entretanto, não são suficientes em todos os casos. Quando a insônia persiste, podem ser necessárias intervenções estruturadas e acompanhamento por períodos mais longos.
Uma das abordagens é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), considerada tratamento de primeira linha. A terapia não se restringe aos hábitos de sono e trabalha também comportamentos e pensamentos relacionados ao problema.
O que é TCC-I?
A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia é um tratamento que ajuda a modificar pensamentos, hábitos e comportamentos que mantêm a dificuldade para dormir. A abordagem utiliza técnicas específicas para melhorar a relação com o sono e é uma das principais estratégias recomendadas para a insônia crônica.
Medicamentos também podem fazer parte do tratamento quando houver indicação clínica. O cuidado é evitar a automedicação, o uso sem acompanhamento profissional e a tentativa de tratar apenas com remédios uma dificuldade para dormir que pode ter diferentes origens.
Quando a dificuldade para dormir precisa ser investigada?
A persistência dos sintomas e os prejuízos provocados durante o dia são motivos para buscar avaliação. Alguns sinais também podem estar relacionados à presença de outros distúrbios do sono e merecem atenção:
• ronco intenso;
• pausas respiratórias percebidas durante o sono;
• sonolência excessiva durante o dia;
• despertares frequentes;
• sensação recorrente de acordar cansado.
A presença desses sinais não determina, por si só, um diagnóstico. A avaliação clínica é que permite investigar as possíveis causas e definir se exames complementares são necessários.
Diagnóstico com a polissonografia
Dependendo da suspeita clínica, a investigação dos distúrbios do sono pode incluir a polissonografia. O exame monitora diferentes parâmetros durante o sono, entre eles atividade cerebral, respiração, frequência cardíaca, oxigenação do sangue e movimentos corporais.
Essas informações auxiliam na investigação de alterações que ocorrem enquanto o paciente dorme. A necessidade da polissonografia depende da avaliação clínica. Por isso, ter dificuldade para dormir não significa, por si só, que o paciente precise realizar o exame.
“A boa notícia é que a maioria dos distúrbios do sono tem diagnóstico e tratamento. Quanto mais cedo identificamos essas alterações, maiores são as chances de prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida”, afirma Cristina Salles.
A avaliação individualizada permite definir se a dificuldade para dormir pode ser abordada com mudanças de hábitos, terapia específica ou medicamentos, ou se há necessidade de investigar outro distúrbio do sono. O ponto central, segundo a especialista, é não tratar da mesma maneira problemas que podem ter causas diferentes.
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